Pesquisadores de fauna silvestre têm recorrido a caminhos pouco usuais para manter projetos de longo prazo em funcionamento. Entre esses caminhos, o uso de plataformas digitais pagas surgiu como alternativa para financiar estudos. Um exemplo envolve marmotas selvagens que se tornaram protagonistas de uma conta no OnlyFans.
Em vez de produções voltadas para entretenimento adulto, a página exibe registros do cotidiano desses roedores nas montanhas: corridas, banhos de sol e saídas das tocas. Por trás das imagens aparentemente simples, há um objetivo específico: ajudar a manter um dos estudos mais duradouros do mundo sobre mamíferos monitorados individualmente, iniciado ainda na década de 1960.
Marmotas no OnlyFans: como a ciência foi parar na plataforma?
A conta dedicada às marmotas foi criada por um professor de ecologia e biologia evolutiva de uma universidade norte-americana, que também atua como codiretor de um projeto conhecido internacionalmente por acompanhar marmotas-de-barriga-amarela nas Montanhas Rochosas, no Colorado. O estudo começou em 1962, liderado por um ecologista comportamental, e desde então registra dados detalhados sobre indivíduos marcados, comportamento social, reprodução e resposta às mudanças ambientais.
Com o passar das décadas, o chamado Projeto Marmota se consolidou como uma das pesquisas mais longevas com mamíferos identificados, ficando atrás apenas de investigações clássicas com chimpanzés na África Oriental. No entanto, a partir dos anos 2000, o grupo passou a enfrentar dificuldades crescentes para renovar financiamentos junto a agências de fomento, mesmo com um histórico de apoio anterior. Propostas recentes foram recusadas e parte das bolsas de ensino vinculadas ao projeto também foi reduzida, colocando em risco a continuidade do monitoramento anual nas áreas de estudo.
Como funciona o financiamento das marmotas no OnlyFans?
Diante da pressão financeira, o professor responsável pelo projeto decidiu experimentar uma abordagem inusitada: criar uma conta na plataforma OnlyFans, batizada de forma bem-humorada de OnlyMarms. A página foi estruturada para oferecer conteúdos considerados familiares, sem qualquer material adulto, com vídeos curtos que mostram as marmotas em situações comuns de campo. As imagens são gravadas durante o trabalho científico, sempre respeitando os protocolos de pesquisa e o bem-estar dos animais.
Desde o lançamento, no final de maio, a conta acumulou cerca de 1.700 fãs e arrecadou milhares de dólares em gorjetas, de acordo com veículos de imprensa estrangeiros. Além disso, entusiastas criaram até uma espécie de moeda virtual associada ao nome do projeto, movimentando dezenas de milhares de dólares em taxas de transação.
Por que pesquisas de longa duração com marmotas são tão importantes?
Pesquisas como o Projeto Marmota fornecem dados essenciais para entender como animais de vida livre respondem a transformações ambientais ao longo de várias gerações. Marmotas-de-barriga-amarela servem como um modelo relevante para analisar efeitos de mudanças climáticas, variações de temperatura, disponibilidade de alimento, predadores e interação com atividades humanas em áreas de montanha.
Ao acompanhar indivíduos marcados ano após ano, cientistas conseguem avaliar, por exemplo:
- Taxas de sobrevivência em diferentes faixas etárias;
- Padrões de hibernação e seu ajuste ao aquecimento global;
- Estrutura social e competição entre grupos;
- Sucesso reprodutivo ao longo do tempo;
- Impactos de secas, nevascas intensas e outras oscilações climáticas.
Esses registros contínuos, acumulados desde 1962, permitem identificar tendências que não seriam observadas em estudos curtos de apenas alguns anos. Para a comunidade científica, séries históricas extensas são valiosas porque ajudam a separar variações naturais de alterações associadas a mudanças globais mais amplas.









