Uma recente mudança nas diretrizes das Testemunhas de Jeová, que reúnem cerca de 900 mil seguidores no Brasil e 9 milhões no mundo, trouxe à tona uma prática médica cada vez mais comum: a cirurgia sem transfusão de sangue. Essa abordagem, que permite o uso do próprio sangue do paciente durante uma operação, já é uma realidade em diversos hospitais e se baseia em um conjunto de estratégias conhecido como gerenciamento do sangue do paciente (Patient Blood Management, ou PBM).
O objetivo principal é reduzir ao máximo a perda de sangue durante os procedimentos e otimizar a capacidade do corpo de lidar com essa perda. Em vez de recorrer a bolsas de sangue de doadores, os médicos utilizam tecnologias e métodos que reaproveitam o sangue que seria descartado, devolvendo-o ao sistema circulatório do próprio indivíduo.
Essa prática minimiza os riscos associados às transfusões convencionais, como reações alérgicas, transmissão de doenças e sobrecarga do sistema imunológico. A recuperação também tende a ser mais rápida, com menor tempo de internação hospitalar.
Como o processo funciona na prática
Diferentes técnicas podem ser combinadas antes, durante e depois da cirurgia para evitar a necessidade de uma transfusão de sangue externo. As principais estratégias utilizadas atualmente incluem:
- Recuperação intraoperatória de sangue: conhecida como “cell saver”, essa tecnologia aspira o sangue perdido no campo cirúrgico, filtra, lava e o devolve ao paciente. O processo é contínuo e garante que as células vermelhas, essenciais para o transporte de oxigênio, sejam preservadas.
- Hemodiluição normovolêmica aguda: pouco antes da cirurgia, uma ou duas unidades do sangue do paciente são retiradas e substituídas por um expansor de volume (solução salina). Assim, o sangue que eventualmente se perde na operação é mais diluído. Ao final do procedimento, o sangue rico em hemácias que foi guardado é reintroduzido.
- Uso de medicamentos: fármacos podem ser administrados para estimular a produção de glóbulos vermelhos antes da cirurgia ou para melhorar a coagulação durante a intervenção, reduzindo o sangramento.
- Técnicas cirúrgicas de precisão: o uso de bisturis elétricos que cauterizam os vasos sanguíneos instantaneamente e a preferência por cirurgias minimamente invasivas, como a laparoscopia, são fundamentais para diminuir a perda sanguínea desde o início.
A busca por cirurgias sem transfusão vai além das convicções religiosas e já é considerada um padrão de excelência em muitos centros médicos. A abordagem representa uma evolução na segurança do paciente, mostrando que é possível realizar operações complexas, como cirurgias cardíacas e transplantes, de forma mais segura e eficiente.









