Polícia não abriu inquérito contra homem que agride entregador em vídeo

Delegado explicou que o entregador tem até seis meses para manifestar interesse em fazer manifestação

Thays Martins
Thays Martins
Mariana Fernandes
Mariana Fernandes
postado em 07/08/2020 21:56 / atualizado em 07/08/2020 22:08
 (foto: DP/SP)
(foto: DP/SP)

O delegado Luis Henrique Apocalypse Jóia, do 2º Distrito Policial de São Paulo, informou, em coletiva de imprensa, na noite desta sexta-feira (7/8), que o entregador do Ifood que aparece em vídeo sendo humilhado por um homem branco ainda não fez representação contra o agressor. Somente registrou um Boletim de Ocorrência e ambas as partes foram escutadas. 

O vídeo está circulando nas redes sociais e causou grande comoção. Até o presidente Jair Bolsonaro se manifestou sobre o ocorrido. De acordo com o delegado, o jovem tem seis meses para manifestar interesse em oferecer denúncia. Nesse caso, será aberto um inquérito. No caso, o contador seria investigado por injúria racial. "Em razão da forma como foi feito. Racismo atinge várias pessoas e a injúria racial é uma pessoa determinada e atinge a honra subjetiva", explicou. Nesse caso a pena é de um a três anos, mais multa e ele pode responder em liberdade. "É um caso muito grave, a gente entende que em 2020 ter esse tipo de conduta se feito em sã consciência é um absurdo", afirmou. 

O delegado esclareceu ainda que não foi entregue a delegacia nenhum documento que ateste que o agressor tenha esquizofrenia. "Constou-se que o pai teria exibido esse documento, mas a polícia não tem. Se for constatado que ele não sabe o que está fazendo teria que ser uma medida de segurança e não prisão", destacou. 

Entenda o caso

No vídeo, o morador do condomínio de luxo, Mateus Couto, dispara para o entregador ofensas como "lixo" e "semianalfabeto". Em certo ponto, ele chega a apontar para a própria pele e falar que o entregador negro tem inveja dele. O agressor ainda questiona o salário do motoboy. “Seu lixo, quanto você tira por mês, R$ 2 mil? Não deve ter nem onde morar”. Enquanto o trabalhador aguardava a chegada da polícia, o homem continuou:

“Você nem tem onde morar. Você tem inveja disso daqui. Eu pedi para ele (Matheus Pires) sair fora daqui, e não saiu fora. Moleque, moleque, você tem inveja disso daqui, você tem inveja dessas famílias aqui. Você tem inveja disso aqui também", diz o homem, apontando para o braço enquanto indica a pele, mostrando ser branco.

O morador também zombou da profissão de Matheus e disse ainda que o futuro dele era “ser desempregado”. Segundo a vítima, houve um momento em que o homem cuspiu nele e jogou a nota da compra no chão, xingando-o. As agressões continuaram mesmo após a chegada da polícia.

A pena prevista para o crime de injúria racial é pagamento de multa ou detenção de 1 a 3 anos, e reclusão de 1 a 6 meses.

Entregador expulsa usuário

Após a repercussão do vídeo, o aplicativo de entregas iFood anunciou que o usuário foi descadastrado da plataforma de entregas. No Twitter, a empresa afirmou que se condena "qualquer forma de preconceito e discriminação" e se solidariza com o entregador.

"Racismo é crime. Nós, do iFood condenamos qualquer forma de preconceito ou discriminação e por isso nos solidarizamos com o entregador Matheus, vítima do crime racial praticado por um consumidor na cidade de Valinhos conforme vídeo que circula nas redes sociais", escreveu a empresa em sua conta na rede social. "O iFood descadastrou o usuário agressor da plataforma e oferecerá à vítima apoio jurídico e psicológico", acrescentou reforçando o suporte ao motoboy.

Bolsonaro se pronuncia

Após o caso, o presidente Jair Bolsonaro também se pronunciou e repudiou, nesta sexta-feira (7/8), as ofensas racistas. "Independentemente das circunstâncias que levaram ao ocorrido, atitudes como esta devem ser totalmente repudiadas. A miscigenação é uma marca do Brasil. Ninguém é melhor do que ninguém por conta de sua cor, crença, classe social ou opção sexual", escreveu o presidente em sua página no Facebook.



 

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