CORONAVÍRUS

Antes de testar positivo para covid, Queiroga encontrou diversos líderes mundiais

Ministro da Saúde permanecerá em quarentena em território norte-americano. Na véspera do discurso de Bolsonaro na ONU, o titular da pasta, antes considerado de perfil técnico, perde a compostura e mostra o dedo médio a manifestantes

Gabriela Bernardes*
postado em 22/09/2021 06:00
 (crédito: Reprodução/CNN)
(crédito: Reprodução/CNN)

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, protagoniza uma passagem memorável por Nova York. Integrante da comitiva que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos por ocasião da 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, a maior autoridade sanitária do governo brasileiro foi diagnosticada com covid-19 ontem (21/9).

Às 22h02, horário de Brasília, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República confirmou o contágio de Queiroga e informou que o ministro permanecerá nos Estados Unidos durante o período de isolamento. Segundo a nota, o ministro passa bem. O Planalto acrescentou que os demais integrantes da comitiva presidencial realizaram o exame e testaram negativo para a doença.

Marcelo Queiroga deverá ficar 14 dias em Nova York, por força da quarentena que terá de cumprir. Para o ministro, o diagnóstico de covid-19 foi o desfecho de uma passagem marcada por controvérsias e baixarias. Na segunda-feira à noite, o médico atropelou o protocolo de conduta recomendada a qualquer autoridade pública. Ao ver um grupo de manifestantes em protesto contra o governo Bolsonaro, Queiroga foi à janela da van que o conduzia para o hotel e, em um gesto obsceno, mostrou o dedo médio das duas mãos para os críticos.

Por causa do teste positivo do ministro, o Itamaraty decidiu suspender a presença de diplomatas nas reuniões previstas para esta quarta-feira na Assembléia-Geral. É o segundo caso confirmado de um infectado por coronavírus na comitiva que acompanha Bolsonaro nos Estados Unidos.

Queiroga esteve ontem com o presidente no plenário da ONU, o que deve despertar reação internacional para rastrear os contatos do ministro e identificar possíveis focos de transmissão. Em foto nas redes sociais, ele aparece no local onde mais cedo discursaram os principais líderes mundiais.

O ministro também encontrou-se com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, em reunião bilateral na segunda-feira, um dia antes, portanto, do diagnóstico de covid. Na terça, Johnson esteve com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na Casa Branca. O britânico e o americano usavam máscara.

O ministro da Saúde é o segundo integrante da comitiva presidencial a testar positivo para novo coronavírus. Na segunda-feira, um diplomata brasileiro encarregado de organizar a viagem de Bolsonaro teve a confirmação de que estava infectado com a covid-19. O funcionário, que tomou apenas a primeira dose da vacina contra a doença, viajou para Nova York antes da comitiva presidencial.

Bolsonarista

Alçado ao ministério da Saúde pelo perfil técnico, após a passagem desastrosa de Eduardo Pazuello, o médico Marcelo Queiroga tem trocado a conduta médica pelo bolsonarismo. Se antes ele não era caracterizado como integrante da ala ideológica do governo Bolsonaro, o titular da Saúde tem adotado um comportamento típico dos chamados bolsonaristas de raiz – contestador, polêmico e de baixo nível. “A impulsividade é marca registrada do atual governo. Todos os dias o próprio presidente quebra os mais diversos protocolos”, afirmou o cientista político Carlos Eduardo Novato.

A atitude indecorosa do ministro é considerada preocupante. “É muito grave, sobretudo porque acontece num ambiente internacional, em que a cúpula do Executivo está representando mais do que um governo, está representando o Estado brasileiro”, explicou a professora da Escola de Políticas Públicas e Governo da FGV (DF), Graziella Testa.

“Definitivamente essa atitude dele denota que ele não entende que exerce um cargo político.Esse exemplo comprova que, na ótica bolsonarista, o cargo de ministro não é um cargo técnico. Um bom ministro não necessariamente vai ser o melhor tecnicamente naquilo que ele faz, mas é aquele que vai ter também uma visão política e uma dimensão de que o que está fazendo vai agradar uns e desagradar outros sempre”, comentou a especialista.

Antes de mostrar o dedo médio em Nova York, Marcelo Queiroga causou muito barulho ao recomendar a suspensão da vacinação de adolescentes no Brasil. Mencionou uma morte possivelmente ligada à aplicação de imunizante. Foi obrigado a se retratar após uma ampla constatação de que o caso nada tem a ver com vacinas contra a covid. Apesar do alarde do ministro , estados e municípios continuam a imunização de menores de 18 anos. (com Agência Estado)

* Estagiária sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza

STF: estados podem decidir sobre vacina

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski decidiu que estados e municípios têm competência para decidir sobre a vacinação de adolescentes maiores de 12 anos contra a covid-19. O ministro atendeu ao pedido de liminar de diversos partidos para retomada da imunização após a decisão do Ministério da Saúde de recomendar a suspensão da aplicação para essa faixa etária.

Lewandowski entendeu que a decisão da pasta não tem amparo em evidências acadêmicas e critérios estabelecidos por organizações e entidades internacionais e nacionais, informou a Agência Brasil. O único imunizante autorizado para aplicação em adolescentes é o da Pfizer.

“A aprovação do uso da vacina Comirnaty do fabricante Pfizer/Wyeth em adolescentes entre 12 e 18 anos, tenham eles comorbidades ou não, pela Anvisa e por agências congêneres da União Europeia, dos Estados Unidos, do Reino Unido, do Canadá e da Austrália, aliada às manifestações de importantes organizações da área médica, levam a crer que o Ministério da Saúde tomou uma decisão intempestiva e, aparentemente, equivocada, a qual, acaso mantida, pode promover indesejáveis retrocessos no combate à covid-19”, afirmou o ministro.

Na semana passada, ao recomendar a vacinação apenas para os adolescentes entre 12 e 17 anos que tenham comorbidades, o Ministério da Saúde afirmou que os benefícios da vacinação em adolescentes sem comorbidades ainda não estão claramente definidos. E alegou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda imunizar adolescentes.

Não é, porém, o que afirma a OMS. Em junho, a organização disse apenas que, naquele momento, a vacinação de adolescentes não era prioritária.

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