Direitos Humanos

Ação humanitária acolhe juízas afegãs em Brasília

As juízas sofriam ameaças do Talibã por terem julgado membros do grupo há anos atrás — por isso a necessidade de recebê-las com urgência no Brasil

Tainá Andrade
postado em 21/10/2021 06:00
As afegãs foram recebidas com flores entregues por mulheres integrantes das Forças Armadas -  (crédito: Wilson Dias/Agência Brasil)
As afegãs foram recebidas com flores entregues por mulheres integrantes das Forças Armadas - (crédito: Wilson Dias/Agência Brasil)

“Obrigada a vocês”. Assim foi o agradecimento de uma das juízas afegãs ao acolhimento que recebeu no Brasil. Ela e mais seis magistradas, junto com as famílias, fazem parte do grupo de 26 pessoas que desembarcaram na tarde de ontem em Brasília. Por questão de segurança, nenhuma das refugiadas teve o nome divulgado. A transferência das juízas foi a conclusão da primeira etapa da missão humanitária realizada entre Brasil e Afeganistão, coordenada pela Associação dos Magistrados do Brasil (AMB). Durante dois meses, a entidade articulou a ação, em conjunto com os Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores, além do Governo do Distrito Federal (GDF) e da iniciativa privada.

As juízas sofriam ameaças do Talibã por terem julgado membros do grupo há anos atrás — por isso a necessidade de recebê-las com urgência no Brasil. De acordo com o diplomata André Veras, o processo utilizado para legalizar a entrada do grupo é chamado de acolhida humanitária, diferentemente da concessão de refúgio. “O refúgio é para aquela pessoa que chega ao Brasil por perseguição política ou religiosa. A acolhida humanitária é outro instituto. A nossa lei de imigração prevê a acolhida humanitária, mas não diz para quem e em que situação. Como já tínhamos uma acolhida humanitária para haitianos e sírios, pensamos em fazer algo semelhante para o caso. O processo foi muito rápido, porque ao mesmo tempo em que já estávamos trabalhando na medida, já havia associações, grupos da sociedade civil pensando em como ajudar”, explicou Veras.

A Escola Superior de Defesa (ESD), em Brasília, foi uma das instituições que contribuiu no esforço. As instalações foram adaptadas para alojar as famílias afegãs. Elas foram recebidas com flores entregues por mulheres integrantes das Forças Armadas. O vice-almirante Paulo Renato Rohwer, comandante da ESD, considera esse suporte fundamental para a adaptação das famílias. “Não é um serviço de hotelaria, mas a estrutura é muito bonita e acolhedora. Acho que essa é a principal característica para um momento como este, do caso de apoio que nós queremos dar para essas juízas e suas famílias”, comentou. As famílias ficarão no local por três meses e terão aulas de português com professores da Universidade de Brasília (UnB).

O Banco do Brasil também se mobilizou. A instituição abriu contas bancárias para os estrangeiros e anunciou uma doação de R$ 100.000 da Fundação Banco do Brasil. O banco lançou, ainda, uma campanha de doações ao grupo, por meio de PIX. O e-mail para efetuar a transação é pix.nosporelas@fbb.org.br

Outro órgão que atuou é a Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal. A secretária, Marcela Passamani, disponibilizou psicólogos e assistentes sociais da pasta para acompanharem os acolhidos. Também ofereceu suporte para a saúde, com auxílio para vacinação. Houve também ajuda para emissão de documentos, em cooperação com a Receita Federal e a Polícia Federal.

Para a presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, Renata Gil, “o Brasil inaugura um novo tempo de missão humanitária. Foi o primeiro país a emitir vistos de forma tão sigilosa e cuidadosa. Mesmo com todas as dificuldades, consegue ser solidário e dar exemplo ao mundo”, comemorou.

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