TRAGÉDIA

Monitoramento geológico evitaria tragédia em Capitólio, apontam especialistas

Geólogos comentam sobre fatalidade ocorrida no interior de Minas Gerais; ao menos sete pessoas morreram e mais de 20 continuam desaparecidas

Cristiane Noberto
postado em 08/01/2022 23:07 / atualizado em 08/01/2022 23:07
 (crédito:  Reprodução/Redes Sociais)
(crédito: Reprodução/Redes Sociais)

O monitoramento constante das rochas poderia ter evitado as mortes de turistas ocorridas em Capitólio (MG), na manhã deste sábado (8/11). Além disso, o período de chuvas deveria ter sido motivo de alerta para as autoridades impedirem a movimentação de pessoas no local. Especialistas ouvidos pelo Correio afirmam que, apesar de o Brasil ter bom conhecimento sobre questões geológicas no país, ainda falta aplicar os conceitos para evitar tragédias.

“Esse desmoronamento é possível de ser detectado, assim como se monitoram os vulcões. Como você sabe que vai entrar em erupção? Pelo monitoramento. É uma questão característica e poderia ter sido previsto o desastre, mas como não tem monitoramento constante é difícil de detectar quando iria acontecer”, apontou George Sand França, professor do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília.

De acordo com o especialista, a pior característica é “deixar acontecer primeiro para agir depois”. “A gente é um país que enfrenta a desgraça e depois vai atrás do prejuízo, como aconteceu na barragem de Brumadinho (MG). Os grandes cânions precisam ser monitorados por uma equipe específica”, frisou. França também criticou a proximidade dos barcos na encosta, “era um perigo constante”. A interação humana também é pouco provável. “O ser humano para fazer isso precisa explodir muita coisa em atividades de mineração para acontecer o que aconteceu. Mas, é tudo muito controlado, e como ali é um cânion não tem exploração mineral”, disse.

Segundo Joana Paula Sanchez, professora do curso de geologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), ainda que esses deslocamentos de blocos sejam naturais, há como remediar o risco. “Se existisse um mapeamento geotécnico dessa região dos atrativos turísticos já saberia se que essa rocha podia se deslocar estudava por apenas imagens de vários dias anteriores, vários meses anteriores. Então, o que pode ter sido feito para evitar a tragédia? Não tinha como segurar aquele bloco para ele não cair, mas tinha como não deixar as pessoas chegarem lá próximas de onde ele caiu. Tinha que ter tido uma intervenção de ter fechado a mais de um quilômetro antes dessa visita”, afirmou.

“Na verdade, a queda de blocos é um processo natural da dinâmica externa da Terra. Mas envolvendo pessoas, felizmente é mais raro”, afirmou José Eloi Campos, professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília. Segundo ele, ao analisar as imagens do acidente, as intensas chuvas na região “podem ser concentradas no tempo e no espaço”. Assim, de acordo com o especialista, “a condição climática atual foi um fator importante para que a instabilidade ocorresse”. “Medidas para observar as aberturas de fraturas em rochas, inspeções em períodos secos, além de treinamento de primeiros socorros, bem como proibição das visitações em épocas de chuvas críticas, certamente evitariam a tragédia. Ainda que a interação humana possa contribuir com a erosão das rochas, neste caso, foi descartada pelos observadores”, completou o especialista.

Abdel Hach, diretor da Federação Brasileira dos Geólogos (FEBRAGEO), faz coro às análises e diz que “para isso não aconteça mais, ou para que acidentes como este podem ser evitados, há necessidade a elaboração de mapas de risco geológico, como condicionante para todos os parques que envolvem modelos geológicos como atração principal. Mapeamento de risco geológico/ geotécnico Elaboração de análise de risco detalhada com classificação adequada dos riscos, Execução de telas de proteção geotécnica para evitar acidentes causados por queda de rocha”.

Desmoronamentos dão indícios

George Sand França, professor do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília, explica o que aconteceu: “É a gravidade. Começa a ter inclinação de rocha, começa rachar e chega uma hora que não suporta mais esse peso. Mas, nada acontece por acaso. A rocha vai dando notícia, informando, não é de uma hora para outra [que cai]. A possibilidade disso acontecer não é muito comum, não é toda hora, o único controle que tem é observar a deterioração da rocha. Poderia ter acontecido de noite, inclusive, e ninguém ia ver. Mas, não tem como prever sem monitorar. Porém, pode fazer com que o turismo seja mais seguro, com distância possível da costa”.

O professor José Eloi Campos também explica que o fenômeno é semelhante ao que ocorre nas geleiras. “Sim, também envolve fraturas no maciço de gelo e queda de blocos pela ação gravitacional, como um descongelamento. Na questão das rochas, seria uma espécie de desplacamento (de uma grande placa) ao longo de uma fratura, por alívio de pressão”, explicou. Na questão de monitoramento, o especialista citou os reservatórios de hidrelétricas de Belo Monte (PA), e Lajeado (TO). “Várias técnicas são usadas, inclusive instalação de marcos e medição periódica. No caso em questão, poderiam ser realizadas medidas das aberturas das fraturas e inspeções em períodos secos, de forma a se ter um modelo previsional. O mesmo é feito em taludes de pedreiras e áreas de mineração”.

Tragédia

O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais informou que mais uma vítima fatal foi constatada após a queda do pedaço de rocha que se desprendeu do paredão de cânion, em Capitólio, Minas Gerais, e atingiu lanchas que estavam no local. Agora, o acidente, que ocorreu no início da tarde deste sábado (8/1), é responsável por sete mortes — três são mulheres e quatro homens. Cerca de 20 turistas desaparecidos.

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