Amazônia sem lei

"Quando mataram a Dorothy Stang, ninguém culpou o governo", diz Bolsonaro

Segundo o presidente, jornalista era "malvisto" por causa de reportagens sobre o garimpo na região do Vale do Javari

Cristiane Noberto
postado em 16/06/2022 06:00
 (crédito: Isac Nóbrega/PR)
(crédito: Isac Nóbrega/PR)

O presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou, ontem, que Dom Phillips, cujos restos mortais podem ter sido encontrados ontem, no Vale do Javari (AM), junto com os do indigenista Bruno de Araújo Pereira, que o jornalista inglês era "malvisto" naquela região.

De acordo com Bolsonaro, a suposta impressão sobre Dom veio devido às reportagens que denunciavam casos contra garimpeiros e meio ambiente na região. O presidente também acusou o jornalista de ser descuidado por ter insistido em ir àquela parte da floresta amazônica.

"Esse inglês era mal visto na região, ele fazia muita matéria contra garimpeiro, a questão ambiental. Então, aquela região, que é bastante isolada, muita gente não gostava dele. Ele tinha que ter mais do que redobrado a atenção para consigo próprio", afirmou Bolsonaro, em entrevista ao canal da jornalista Leda Nagle.

O presidente disse, também, que Dom e Bruno "resolveram entrar numa área completamente inóspita, sem segurança e aconteceu o problema". O indigenista, porém, era conhecido pelas comunidades nativas do local e vinha trabalhando com ela havia muito tempo.

O presidente reconheceu que o Vale do Javari é uma região na qual a presença do Estado é precária. "A gente não sabe se alguém viu e foi atrás dele. Lá tem pirata no rio, tem tudo o que se possa imaginar. É muito temerário andar naquela região sem estar devidamente preparado fisicamente, e também com armamento devidamente autorizado pela Funai", destacou.

Atuação oficial

Bolsonaro aproveitou para defender a atuação das autoridades na localização dos restos mortais de Bruno e Dom, bem como na elucidação do caso. "Desde o primeiro dia, domingo retrasado, estamos buscando essas pessoas na área, e não estamos tendo sucesso. Apareceram vestígios, pedaços de vísceras de corpo humano. Estão sendo feitos (exames de) DNA aqui em Brasília. Estranho terem pego esses caras e levados à margem do rio", comentou.

O presidente ainda afirmou estar sendo processado como se nada estivesse fazendo pela solução do crime. Segundo Bolsonaro, milhares de pessoas somem e ninguém se solidariza com elas — disse, dando a entender que existe uma campanha da imprensa que utiliza o episódio envolvendo Dom e Bruno para causar desgaste ao governo.

"Tem um parlamentar, um partido político, que quer me processar por não ter achado o cara. Olha, eu não sei ao certo, mas acho que em torno de 60 mil pessoas desaparecem no Brasil por ano, e não se preocupam. Imagina: nós termos um filho desaparecido, desapareceu como? O que fizeram com ele?", indagou.

Ele também aproveitou para criticar a postura do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, que deu um prazo de cinco dias para que fossem passadas informações sobre o desaparecimento de Dom e Bruno. "Barroso, você podia me dar cinco dias para achar os 60 mil desaparecidos no ano passado e vem para cá dar umas dicas de como achar os desaparecidos e não apenas os dois que estão lá. Todos merecem a preocupação, dedicação e empenho da nossa parte. É muito fácil", criticou.

Bolsonaro também desviou o assunto ao citar que na morte da missionária Dorothy Stang, em 2005, durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva — seu principal adversário na atual corrida eleitoral —, o ex-presidente não foi responsabilizado.

"Desde o primeiro dia, domingo retrasado, a nossa Marinha estava em campo. Estão me culpando agora por isso. Quando mataram a Dorothy Stang, ninguém culpou o governo. Era de esquerda. Mas tudo bem, a gente vai fazer a nossa parte", observou.

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