7 DE SETEMBRO

Independência 200 anos: os mineiros na "história oculta" do 7 de setembro

Do Visconde de Caeté ao padre Belchior, passando por Dona Joaquina de Pompéu, personagens de Minas tiveram papel decisivo, mas pouco conhecido no 7 de setembro

Gustavo Werneck
postado em 07/09/2022 12:47
 (crédito: ALEXANDRE GUZANSHE/EM /D.A PRESS)
(crédito: ALEXANDRE GUZANSHE/EM /D.A PRESS)

A Independência do Brasil completa hoje dois séculos abrigando personagens bem conhecidos e outros, igualmente notáveis, aos quais a história ainda não fez a devida justiça. Três deles são mineiros, merecendo, em algumas cidades das Gerais, não só permanente culto à memória como estudos sobre vida, obra e participação decisiva nos caminhos que levaram à separação de Portugal.

Hoje, quando se comemora o bicentenário da separação do Brasil de Portugal, deve ser reverenciada, entre tantos nomes importantes para esse movimento, a memória do padre Belchior Pinheiro de Oliveira (1775-1856), confessor de Dom Pedro I (1798-1834) e presente no momento do Grito do Ipiranga. Na mesma escala de importância estão José Teixeira da Fonseca Vasconcelos (1766-1838), o Visconde de Caeté, considerado o “patriarca mineiro da Independência”, e Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco, a Dona Joaquina do Pompéu (1752-1824), de grande influência em Minas na segunda metade do século 18 e início do 19, em especial no processo que culminou com a emancipação.

Se o paulista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) é considerado o Patriarca da Independência, há uma figura “absolutamente fascinante”, ainda pouco conhecida dos brasileiros, que vem à tona nas comemorações do bicentenário do Grito do Ipiranga. Trata-se de José Teixeira da Fonseca Vasconcelos (1766-1838), o Visconde de Caeté, nascido na Fazenda Santa Quitéria, hoje parte do município de Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele é alvo de pesquisas do promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda, associado do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG), que tem vários livros lançados sobre personagens, fatos históricos e defesa do patrimônio cultural, sobretudo mineiro.

“Duzentos anos se passaram, mas, ainda hoje, ecoam na memória do nosso povo os ensinamentos e as ações do célebre conterrâneo, sobretudo as que culminaram com a Independência do Brasil”, diz Souza Miranda. Para reforçar a importância do personagem, ele cita uma frase do historiador cônego José Antônio Marinho (1803-1853): “Deve ser considerado o patriarca mineiro da Independência. Êmulo digno que foi de José Bonifácio, o discurso que proferiu na presença de Dom Pedro e, sem dúvida, mais vibrante e caloroso que o proferido pelo grande paulista”.

Em 5 de janeiro de 1822, José Teixeira da Fonseca Vasconcelos, então vice-presidente da Junta Governativa de Minas Gerais, vai ao Rio de Janeiro para uma audiência com Dom Pedro I. “É preciso destacar que a Junta Governativa estava cindida, uns defendendo a exigência das cortes de Lisboa, para que o príncipe retornasse a Portugal, outros querendo que ele ficasse”, assinala o promotor de Justiça.

José Bonifácio registrou que Vasconcelos estava “com a mesma satisfação que nós estamos e nos mesmos sentimentos; ele se admira de vir achar no príncipe o mesmo sistema e o mesmo plano que foi concebido em Vila Rica, único capaz de salvar a existência do Reino Unido”.

Em 17 de fevereiro, “data marcante”, segundo Souza Miranda, Vasconcelos, político habilidoso, faz célebre discurso, em público e na presença de Dom Pedro I, pela permanência do príncipe regente no Brasil. “Dever-se-ão cumprir os dois decretos em que se acha traçada a nossa escravidão, recebendo por excesso da boa-fé nós mesmos as algemas e grilhões? Não por certo; estamos já prontos a defender os nossos direitos e a derramar a última gota de sangue pela nossa liberdade. Se Portugal é pátria de heróis, também o Brasil o deve ser, e tem sido segundo mostra a história brasiliense. A nossa causa é santa e justa: o céu a protegerá. Nós, unidos aos nossos briosos paulistas, nossos conjuntos em sangue, amizade, costumes e bravura, nada temos a temer, cooperando de acordo com as mais províncias unidas, igualmente distintas em valor e sentimentos, venceremos”.

Ressaltando a “figura fascinante” do Visconde de Caeté, Souza Miranda o destaca com o um dos filhos mais ilustres de Minas Gerais, pela “inteligência, erudição, probidade, sensibilidade política, patriotismo e amor ao bem coletivo”.

O amigo e confessor

Sétima Vila do Ouro, Pitangui terá comemoração nesta quarta-feira (7/9) para reverenciar a memória do Padre Belchior, natural do antigo Arraial do Tijuco, atual Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e morador do município do Centro-Oeste mineiro durante 42 anos. No Instituto Histórico de Pitangui (IHP), instalado em imponente casarão do século 18, no Centro Histórico, está muito bem guardado o inventário e o testamento do religioso. “O documento é de 1856, ano da morte dele”, mostra o presidente da instituição, Vandeir Alves dos Santos, ao lado do estudante de história Israel Jesus Borges Almeida. No museu histórico, no andar superior (não aberto à visitação), há um desenho do padre, de perfil e chapéu.

Já na Rua Padre Belchior (diante da casa onde o religioso morou e hoje é ocupada pela prefeitura local), a professora Heloísa Helena Valladares Viegas Lopes, secretária do IHP, conta a história do sacerdote que estudou no seminário de Mariana, ordenou-se em São Paulo e cursou direito canônico em Coimbra, Portugal. Na cidade europeia, conheceu o paulista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), denominado Patriarca da Independência.

Nomeado para a paróquia de Pitangui, que assumiu em 1814, Padre Belchior era maçom, tendo sido esse um dos pontos de aproximação com Dom Pedro I, conta Heloísa Helena, professora aposentada de história e moral e cívica e descendente de Joaquina de Pompéu. “Como era amigo e confessor do príncipe regente, e também político, Padre Belchior teve influência no processo da Independência, inclusive estava ao lado de Dom Pedro I no momento do Grito do Ipiranga. Antes de chegar a Pitangui, que tem 307 anos de história, ficou no Rio de Janeiro.”

Sobre 7 de setembro de 1822, Padre Belchior deixou registrado, em carta, um diálogo com Dom Pedro I, palavras hoje eternizadas no túmulo do religioso, na escadaria da Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar, em Pitangui. “E agora, Padre Belchior?”, perguntou o príncipe regente, às margens do Rio Ipiranga, ao receber as cartas de sua esposa, Leopoldina, de José Bonifácio, do seu pai, Dom João VI, de Lisboa, com as cortes exigindo seu regresso imediato a Portugal, e do amigo de confiança Chamberlain.

Padre Belchior registrou: “E eu respondi prontamente. Se Vossa Alteza não se faz rei do Brasil, será prisioneiro das cortes e talvez deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação”. Dom Pedro I arrematou: “Eles querem e terão sua conta. As cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de ‘rapazinho brasileiro’. De hoje em diante, estão quebradas as nossas relações. Nada mais quero do governo português, e proclamo, para sempre, o Brasil separado de Portugal”.

A dama do sertão

Ainda no Instituto Histórico de Pitangui, há um quadro ilustrativo sobre a participação de Joaquina de Pompéu na Independência do Brasil, com enfoque nas grandes doações de gado para abastecimento das tropas no período que antecedeu o Grito do Ipiranga. “A comarca de Pitangui era muito vasta, por isso temos documentos de vários municípios, incluindo Pompéu”, afirma o presidente do IHP, Vandeir Alves dos Santos.

Na verdade, a história da Dama do Sertão, como era chamada a fazendeira, confunde-se com a da Região Centro-Oeste de Minas. “A trajetória dela é pouco divulgada no país, mas aqui na nossa cidade o Centro Cultural se chama Joaquina do Pompéu. A cada 20 de agosto, entregamos uma medalha também com seu nome”, ressalta o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Pompéu, Hugo de Castro Machado, também curador do Museu Genealógico e Histórico da cidade, que programa um desfile cívico para festejar o bicentenário da Independência.

Pesquisador contumaz, Hugo de Castro conta que, em 9 de abril de 1822, a fazendeira se encontrou com Dom Pedro I, em Ouro Preto – a viagem do príncipe regente é vista como o primeiro “brado retumbante” da emancipação, por ele anunciar ao povo “que os laços do despotismo não prevaleceriam sobre os anseios de liberdade e independência”. Conforme relatos da época, Dona Joaquina chegou à então Vila Rica com grande comitiva, em mais de 10 mulas. De tão patriótica, usava roupas com fitas nas cores verde e amarelo, conforme registrou o escritor Agripa Vasconcellos (1896-1969).

“O papel dela foi preponderante nas batalhas que sucederam ao 7 de Setembro, especialmente em 1823, quando da expulsão do general português Inácio Luís Madeira de Melo do Recôncavo Baiano. Naquele período, Pitangui não uniu forças e Dona Joaquina tomou a frente como guardiã e protetora da região, enviando dinheiro, gado e mantimentos para ajudar na luta contra o último reduto oponente à Independência”, relata Hugo de Castro.

Nascida em Mariana, na Região Central de Minas, a Dama do Sertão era filha do português Jorge de Abreu Castello Branco, que, depois de ficar viúvo, ordenou-se padre. Ela se casou aos 12 anos com o capitão Inácio de Oliveira Campos e foi morar na Fazenda de Nossa Senhora da Conceição. “O casal teve 10 filhos, que geraram 87 netos, 333 bisnetos e 1.108 trinetos. O número de descendentes chega a 80 mil, com pessoas espalhadas pelo Brasil e documentadas em livro”, diz o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Pompéu. “Ela colocou os bens da família e seus descendentes pela causa da separação do Brasil de Portugal.”

Independência e vidas: Três mineiros fundamentais para escrever a história que completa 200 anos

  • Padre Belchior (1775-1856) Reprodução
  • Dona Joaquina de Pompéu (1752-1824) Instituto Histórico e Geográfico de Pompéu/Divulgação
  • José Teixeira da Fonseca Vasconcelos, o Visconde de Caeté (1766-1838) Instituto Histórico e Geográfico de Pompéu/Divulgação

O conselheiro

Padre Belchior (1775-1856) - Natural de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, estudou em Coimbra, Portugal, e viveu 42 anos em Pitangui, na Região Centro-Oeste de Minas, onde foi pároco. Amigo e confessor de Dom Pedro I, estava com ele durante o Grito do Ipiranga. Está sepultado em Pitangui, cidade que preserva a memória do ilustre mineiro e mantém restaurado o casarão onde ele morou, hoje sede de prefeitura.

A patriota

Dona Joaquina de Pompéu (1752-1824) - Natural de Mariana, a fazendeira da Região Centro-Oeste se empenhou nas lutas pela Independência com vultosas doações. Encontrou-se com Dom Pedro I em Ouro Preto, em abril de 1822, durante a histórica visita do príncipe regente, tida como prenúncio da Independência. Está sepultada em Pompéu. Não se sabe a fisionomia da fazendeira, que só “ganhou” um rosto em 1956, no desenho do artista plástico, escultor e designer gráfico mineiro Amilcar de Castro (1920-2002).

O patriarca

José Teixeira da Fonseca Vasconcelos, o Visconde de Caeté (1766-1838) - Considerado o patriarca mineiro da Independência, nasceu em Esmeraldas. Estudou matemática, direito e filosofia em Coimbra. Já como vice-presidente da Junta Governativa de Minas, fez caloroso discurso diante de Dom Pedro I. Foi o primeiro presidente da Província de Minas e está sepultado na Matriz do Santíssimo Sacramento, em Taquaraçu de Minas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Infelizmente, não há placa indicativa no interior do templo, apenas algarismos romanos gravados no assoalho.

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