Saúde

Dose única contra a dengue

Vacina 100% brasileira, a Butantan-DV chega com eficácia elevada, um milhão de doses prontas e previsão de entrada no Plano Nacional de Imunização em 2026, enquanto o país registra três anos consecutivos de crescimento expressivo de casos

A aprovação da Butantan-DV pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ontem, marca uma mudança relevante no enfrentamento da dengue no país, ao autorizar a primeira vacina de dose única desenvolvida no mundo para proteção contra os quatro sorotipos do vírus. O imunizante, produzido pelo Instituto Butantan com participação do Ministério da Saúde e parceria tecnológica com a empresa chinesa WuXi, apresentou 74,7% de eficácia geral, 91,6% de proteção contra dengue grave e com sinais de alarme e 100% de prevenção de hospitalizações na população de 12 a 59 anos, faixa inicialmente aprovada.

A liberação ocorre no momento em que o Brasil registra forte oscilação de casos prováveis ao longo dos últimos três anos. 

Ao anunciar a vacina, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou ser "um dia de alegria, de vitória da vacina, de vitória da ciência, de vitória da cooperação entre o SUS e suas instituições públicas". Ele confirmou que o imunizante será integrado ao Programa Nacional de Imunizações a partir do início de 2026. O Butantan informou possuir 1 milhão de doses prontas e estimar uma produção superior a 30 milhões até meados de 2026.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, declarou que a dose única "vai nos ajudar muito do ponto de vista da logística e da cobertura vacinal", enquanto a secretária-executiva da Saúde paulista, Priscilla Perdicaris, ressaltou que o país registrou 866 mil casos e 1.108 mortes em 2025 e afirmou que "mesmo antes da aprovação, o Butantan correu para produzir 1 milhão de doses porque sabíamos que os estudos eram robustos". Ela também falou da importância de a vacina ter dose única. "Para nós que estamos na operação, isso muda completamente a história do jogo: facilita a logística e aumenta a adesão da população", salientou.

A infectologista Adryelle Luetz, integrante da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Anchieta, observou que "o esquema de dose única permite instalação mais rápida da proteção imunológica e simplifica a logística, especialmente durante surtos". Ela destacou que os ensaios clínicos abrangeram participantes de 2 a 59 anos, com segurança documentada independentemente de infecções anteriores. A médica lembrou que reações como dor no local, cefaleia, mal-estar e manchas cutâneas foram registradas com maior frequência e reiterou a recomendação de notificação de eventos pelo VigiMed e e-SUS.

O clínico Lucas Albanaz, professor do Centro Universitário Uniceplac, afirmou que "a introdução de uma vacina de dose única representa um divisor de águas no manejo da dengue". Ele enfatizou que a simplificação operacional pode ampliar a cobertura, acelerar campanhas e reduzir internações durante períodos de maior circulação viral. Segundo o especialista, a incorporação do imunizante aos protocolos de rotina tende a fortalecer a prevenção primária e exige integração com monitoramento contínuo das formas graves e vigilância dos territórios mais vulneráveis.

A perspectiva de escassez inicial, diante de apenas 1 milhão de doses disponíveis, impõe a definição de critérios de distribuição no setor público e privado. O Ministério da Saúde deverá priorizar regiões com maior incidência e áreas de circulação intensa, enquanto clínicas particulares tendem a direcionar a oferta para indivíduos com maior exposição, como trabalhadores de saúde e viajantes. A expansão da faixa etária depende de resultados adicionais de estudos já autorizados para pessoas de 60 a 79 anos e da futura avaliação para crianças de 2 a 11 anos.

Para especialistas, a chegada da Butantan-DV representa a possibilidade de reorganizar o controle da dengue no Brasil após décadas de dependência exclusiva do combate ao vetor. A ampliação da cobertura vacinal, aliada ao monitoramento epidemiológico e à manutenção de medidas de eliminação de criadouros, poderá alterar a dinâmica das epidemias sazonais e reduzir a carga sobre hospitais, especialmente em meses de maior transmissão.

 

*Estagiária sob a supervisão de Edla Lula

 

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