Entrevista | Neuton Dornelas |

'Alerta da Anvisa reforça a prescrição médica', diz presidente SBEM

Uso indiscriminado das canetas emagrecedoras preocupa mais os médicos do que possíveis efeitos colaterais, como inflamação do pâncreas. Para a SBEM, o importante é seguir o tratamento prescrito por especialista e comprar produtos de origem legal

O alerta emitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o risco de pancreatite aguda ligada ao uso indevido de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, popularmente conhecido como "canetas emagrecedoras", direcionou, mais uma vez, os holofotes a esses remédios. Entre 2020 e 2025, a Anvisa registrou 145 notificações de suspeitas de eventos adversos, além de seis supostos casos que terminaram em morte.

As ocorrências estão ligadas aos medicamentos Ozempic, Mounjaro, Wegovy, Trulicity, Saxenda, Victoza, Rybelsus e Xultophy. No entanto, a Anvisa afirmou que os casos ainda passam por uma avaliação técnica, e que somente as notificações não garantem uma relação direta entre o uso das canetas e os eventos relatados. Além disso, é apontada a possibilidade do envolvimento de produtos falsificados.

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O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Neuton Dornelas, em entrevista ao Correio, falou sobre os riscos e cuidados necessários ao utilizar esses medicamentos. Um ponto fundamental, afirma o especialista, é o acompanhamento médico.

É correto denominar esses medicamentos de "canetas emagrecedoras"?

Um ponto importante é que, embora o título "caneta emagrecedora" tenha se popularizado, nós, médicos das sociedades científicas — e falo aqui como presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) — não preconizamos esse termo. Na verdade, tratamos esses produtos como medicamentos injetáveis descobertos para o tratamento de diabetes e da obesidade. Referimo-nos a eles dessa forma porque a caneta em si não trata; o que trata é o conteúdo. Esses medicamentos atuam no organismo por meio de três mecanismos principais: estimulam a secreção de insulina (hormônio que controla a glicose), retardam o esvaziamento do estômago e atuam no cérebro aumentando a saciedade. Assim, o paciente come menos e ocorre uma grande perda de peso. São medicamentos muito potentes.

Esses medicamentos apresentam risco à sociedade?

O alerta da Anvisa ressalta que o uso deve ter indicação para quem vive com diabetes ou obesidade. Muita gente usa sem ter essas doenças. É preciso contextualizar a pancreatite: no Brasil, ocorrem cerca de 40 mil internações por ano por essa causa, sendo os principais motivos o uso excessivo de álcool e cálculos na vesícula biliar. Notificar alguns casos entre pessoas que usam o medicamento não é, inicialmente, um número assustador diante desse universo. Em resumo, não há motivo para pânico, mas o alerta reforça a necessidade de prescrição médica, indicação correta, fonte confiável de compra e supervisão nas doses para evitar efeitos colaterais.

Pancreatite tem cura ou tratamento?

Sim. Quando há inflamação no pâncreas, o paciente sente uma dor intensa na parte superior esquerda do abdômen, que pode irradiar para as costas, muitas vezes acompanhada de náuseas, vômitos, febre ou calafrios. O diagnóstico exige internação hospitalar imediata. É uma doença potencialmente grave, mas curável.

Quais são os sinais de alerta que o paciente deve observar para diferenciar um enjoo comum provocado pelo remédio de um início de crise pancreática?

A dor é o sintoma mais característico, muitas vezes fazendo o paciente assumir a posição fetal. Esses medicamentos podem causar náuseas como efeito colateral comum, o que não significa pancreatite. No entanto, se houver náuseas seguidas de vômitos persistentes e, principalmente, a dor mencionada, deve-se procurar o pronto-socorro.

Quais são os riscos específicos para quem utiliza esses medicamentos de maneira indevida e sem acompanhamento médico?

O primeiro risco é a aquisição por vias indevidas, já que a venda exige retenção de receita médica. Além disso, há o risco de efeitos colaterais graves por erro de dosagem e o perigo de interações medicamentosas, especialmente para quem já trata diabetes, podendo causar quedas bruscas no nível de glicose.

Esses efeitos colaterais afetam algum grupo específico de forma mais intensa?

Existem fragilidades individuais. Um idoso, por exemplo, pode ter menor tolerância a níveis baixos de glicose, enquanto um paciente jovem pode suportar maior carga de glicose. Em regra, o mecanismo de ação é o mesmo para todos. Lembrando que os medicamentos não devem ser utilizados por crianças abaixo de 12 anos, não há estudos suficientes para falar sobre elas. Quanto às pessoas com distorção de imagem que buscam perder poucos quilos por conta própria, o uso não faz sentido, trata-se de um problema de ordem psicológica ou psiquiátrica.

Quais são os cuidados após o término do tratamento para evitar o reganho de peso?

É preciso entender três conceitos: diabetes e obesidade são doenças crônicas, não têm cura. O tratamento, em teoria, deve ser contínuo. Além disso, os remédios sozinhos não resolvem tudo. Mudanças no estilo de vida, como combater o sedentarismo e manter uma dieta saudável, são fundamentais. Sem essas mudanças, o tratamento não terá o efeito adequado, e o peso pode voltar.

* Estagiário sob a supervisão de Vinicius Doria

 

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