Violência

Oficial feminicida obtém aposentadoria integral

Tenente-coronel da PM paulista Geraldo Rosa Neto, preso por matar a mulher, vai à reserva. Mas isso não impede que, se considerado culpado, não perca posto e patente — e seja expulso, perdendo o salário

A Polícia Militar de São Paulo publicou, ontem, a transferência para a reserva do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, preso preventivamente pela acusação de matar a mulher, a PM Gisele Alves Santana, em 18 de fevereiro, e fraude processual. A medida garante remuneração integral, conforme portaria assinada pela Diretoria de Pessoal da corporação. O oficial nega que tenha assassinado a mulher e alega que ela atentou contra a própria vida com um tiro na cabeça.

O ato administrativo foi concedido a partir de solicitação de Geraldo e segue critérios previstos em lei. Mesmo com a transferência, ele continuará recebendo valores equivalentes ao salário da ativa. Em fevereiro de 2026, antes da prisão, ganhou bruto R$ 28.946,81, mas R$ 15.092,39 líquido, conforme consta no Portal da Transparência do estado de São Paulo.

A corporação informou que a aposentadoria não interfere nos procedimentos disciplinares em andamento. Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, foi instaurado Conselho de Justificação que pode resultar em perda da patente e expulsão — que, se confirmada, fará com que Geraldo perca o salário. "A instrução [o processo] continua a valer mesmo após a transferência do oficial para a reserva", afirmou a pasta em nota.

Ainda de acordo com o comunicado, o inquérito policial militar que apura a morte está no fim e será encaminhado ao Judiciário. A Polícia Civil concluiu investigação paralela, também remetida à Justiça, com pedido de prisão. O oficial permanece detido por decisão judicial no Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital paulista.

A prisão de Geraldo ocorreu em 18 de março, após decreto da Justiça Militar. O caso é tratado como feminicídio e fraude processual. A investigação aponta que Gisele morreu com um tiro na cabeça no apartamento onde o casal vivia, na região do Brás, Centro de São Paulo. Inicialmente, o tenente-coronel declarou que se tratava de suicídio, versão contestada por laudos periciais que identificaram inconsistências no relato.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comentou a decisão durante agenda em Campos do Jordão. Afirmou esperar que o tenente-coronel "apodreça na cadeia". Segundo ele, a legislação que permite a aposentadoria segue critérios independentes do processo. "As instâncias são independentes. Ele vai agora sofrer o processo penal. Nosso desejo é que seja condenado exemplarmente. Não se pode olhar o regulamento de forma casuística", disse.

Tarcísio afirmou que a ida para a reserva não altera a tramitação judicial nem os desdobramentos administrativos. "Esperamos que realmente haja a punição severa, que ele perca o posto e a patente. Quando isso acontece, é como se tivesse morrido para a força. Depois, quem é o beneficiário da contribuição (previdenciária) ao longo do tempo? Os familiares. Porque a nossa ideia é que apodreça o resto da vida na cadeia", afirmou, para acrescentar:

"Nosso desejo é que seja condenado e condenado exemplarmente, porque o que cometeu foi um crime bárbaro. Não podemos deixar isso passar impune. Tenho certeza de que não vai passar impune. A Justiça não vai deixar isso passar", arrematou.

Morte em casa

Gisele morreu quando ela e Geraldo estavam em casa. O oficial assegura que a mulher se suicidou depois de dizer que queria se divorciar dela.

O caso foi inicialmente registrado como suicídio, mas modificado para morte suspeita depois de a família de Gisele relatar que a policial vivia uma relação abusiva, com excesso de controle e ciúmes por parte de Geraldo.

A polícia afirma que a versão do tenente-coronel não se sustenta e que ele assassinou Gisele. A conclusão foi obtida com base em uma série de indícios técnicos que a perícia encontrou ao longo da investigação do caso.

Entre as evidências estão marcas de unha na região do pescoço e do rosto de Gisele; manchas de sangue dela no banheiro, na bermuda e na toalha de Geraldo; a maneira como a arma foi encontrada na mão da policial; e o modo como o corpo dela estava disposto no chão, indicando a provável manipulação da cena do crime.

Outro importante elemento explorado pelos investigadores foi a relação do casal. Os agentes chegaram a mensagens trocadas por Geraldo e Gisele. Encontraram diálogos que mostram um casal em constantes brigas, instabilidade, mas também o de uma mulher submetida a um casamento de muito controle, submissão e ciúmes.

Para a polícia, esses diálogos desmentiram a versão do tenente-coronel de que ele desejava o divórcio. O interesse pela separação, na verdade, partia de Gisele e era Geraldo quem resistia.

A Corregedoria da PM também abriu uma investigação e tanto a Justiça Militar como a Justiça Comum decretaram a prisão do tenente-coronel. Geraldo aguarda julgamento. (Com AE)

*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

 

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