Em meio à escalada de desaparecimentos em São Miguel dos Milagres (AL), a Polícia Civil encontrou o corpo de Nicolas Jonathan Santos Cunha, de 17 anos. Ele é um dos 19 jovens que sumiram na região em pouco mais de dois anos. Nesse domingo (5/4), o Correio publicou uma reportagem em que revela o que há por trás dos casos. A suspeita é a atuação de facções criminosas.
Nicolas desapareceu na terça-feira passada (31/3) e foi visto pela última vez frente a uma escola. O adolescente morava em Aracaju, Sergipe, e viajou para Alagoas para passar o feriado com a família.
No sábado, a polícia alagoana confirmou a localização do cadáver dele na região conhecida como Fazenda Salema - mesma área onde o corpo de outro desaparecido, Andreas Denicio Borges Barros, 14, foi encontrado com sinais de execução, em 27 de fevereiro.
Próximo ao corpo de Nicolas, a equipe da Polícia Científica encontrou quatro projéteis de arma de fogo e três luvas de tecido. Os objetos passarão por exames de DNA.
Avalanche
Em pouco mais de dois anos, 19 jovens desapareceram na região. A localidade luxuosa atrai turistas nacionais e do exterior, mas vela a engrenagem do tráfico de drogas e a atuação de facções como o Comando Vermelho (CV).
São Miguel dos Milagres integra a chamada Rota Ecológica, junto a Porto de Pedras e Passo de Camaragibe. O trecho do litoral alagoano tem pouco mais de 32 mil habitantes, segundo o IBGE. Ali, o turismo de sol e praia é preferência de 62% dos visitantes, de acordo com o Ministério do Turismo. O mesmo destino entrou no ranking das casas mais exclusivas e luxuosas para alugar no Réveillon. A pousada Alagoas Villa 2, à beira-mar, tem diárias que chegam a R$ 60 mil.
Longe dos holofotes do turismo de luxo, Glauco mantinha uma rotina comum entre trabalhadores locais. Trabalhava das 18h às 22h no restaurante. Percorria cerca de 11km entre a Barra de Camaragibe — onde mora — e o serviço. Na véspera do desaparecimento, em 4 de dezembro de 2025, esteve em uma clínica para exames admissionais. Ao sair, foi abordado por adolescentes armados, que levaram a moto. Glauco prestou queixa. A polícia apreendeu os menores e recuperaram a moto. Os suspeitos, porém, saíram pela porta da frente da delegacia.
A última notícia sobre Glauco surgiu pouco antes do expediente. O irmão mais novo do garçom combinou a entrega de um carregador em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição. O familiar buscou o equipamento. Depois disso, o jovem nunca mais apareceu.
Paradeiro incerto
A movimentação turística em São Miguel dos Milagres levou a recifense Maria Vitória a se mudar para Alagoas. Garota de programa, trabalhava em um bar no centro da cidade. Conciliava os atendimentos noturnos com um relacionamento casual descrito como “estranho” por amigas ouvidas pela reportagem. Elas preferiram não se identificar.
Horas antes de desaparecer, em 8 de dezembro de 2025, Maria publicou uma sequência de vídeos no WhatsApp, que inquietou as colegas. O conteúdo foi obtido pelo Correio. Em uma delas, às 22h48, aparece na companhia de três homens, incluindo o “ficante”. O grupo bebe, fuma, canta e faz o gesto em V com as mãos, em alusão ao CV.
Investigações preliminares indicam que dois desses jovens são suspeitos de envolvimento no desaparecimento de Glauco. Um deles é apelidado como o “terror dos Milagres”.
Uma amiga que esteve com Maria naquele dia relatou à polícia que o ficante a convidou para uma área de mata próxima ao bar para “usar drogas ou manter relação sexual”, disse, sem convicção.
Maria aceitou. Minutos depois, quatro homens, em duas motocicletas, seguiram pelo mesmo caminho. Todos retornaram — incluindo o ficante. Maria não. Outra colega afirma que, dias depois, o rapaz teria se gabado. “Dizia para todos que a matou, pois mulher dele não ia ser prostituta. Mas não deu em nada.” A família viajou à Alagoas duas vezes em busca de pistas. “A mãe entregou nas mãos de Deus”, resumiu a amiga.
Antes do desaparecimento de Maria, cinco casos semelhantes notificados em 2024 intrigou as autoridades locais. A inquietude saiu do quadrado do litoral e chegou à cúpula do estado. Poucas foram as ações tomadas, discutem familiares em um grupo restrito de WhatsApp.
Pano de fundo
Há um ano à frente da recém-inaugurada Coordenação de Desaparecimento de Pessoas de Alagoas, o delegado Ronilson Medeiros e mais três agentes acompanham as estatísticas de desaparecimento no solo alagoano. Relatórios, tabelas, gráficos e estudos de caso são serviço diário. São Miguel dos Milagres acendeu o alerta. “É altamente preocupante, tendo em vista a extensão do município, quantidade de habitantes e as suspeitas por trás dos desaparecimentos, que indicam, na maioria dos casos, o que chamamos de desaparecimento criminoso”, afirma.
No quadro investigativo, estão alinhadas as fotos dos 19 jovens. Abaixo de cada rosto, um conjunto seco de informações: nome completo, idade, local e data de desaparecimento. Os perfis revelam afinidade. Têm entre 14 e 27 anos e habitam em áreas de baixa renda, em contextos atravessados pela precariedade.
Em 2025, 11 desapareceram. De janeiro a abril deste ano, mais três. O número real pode ser maior, explica o delegado. “Sabemos que há subnotificação por parte da família das vítimas. Os parentes temem e evitam até o registro da queixa.”
Há um padrão nos desaparecimentos, apontam as investigações. Os casos são tratados como desaparecimento criminoso. De alguma forma, os jovens entraram no radar do tráfico e figuram como usuários de drogas, integrantes de grupos rivais ou até mesmo mantiveram vínculos considerados indevidos.
Do alto
O Mirante Alto do Cruzeiro, um pequeno morro no Alto da Boa Vista, é parada quase obrigatória para turistas em busca da melhor imagem de São Miguel dos Milagres. Em sites de viagem, a descrição é precisa: acesso é gratuito, estrutura simples e vista panorâmica.
A paisagem não interessa apenas aos visitantes. Ao contrário dos viajantes que recorrem à câmera do celular ou, no máximo, uma máquina fotográfica, faccionados utilizam drones para monitorar a área. A atividade é esbanjada pelo próprio grupo nas redes sociais. “Eles ficam com roupas camufladas e têm muitas armas”, relata uma moradora.
Do alto, e disfarçados, os criminosos identificam palvos, definem pontos de desova e trocam informações com lideranças do Rio de Janeiro. Entre mensagens, selam o método de execuções. Matar e ocultar o corpo é estratégia para reduzir rastros, dificultar o avanço das investigações e preservar a engrenagem do tráfico. “A não localização dos corpos alimenta a impunidade. Busco sempre obter informações da população sobre possíveis pontos, mas muitas denúncias chegam vazias”, afirma o delegado Ronilson.
A articulação dos assassinos coloca como reféns os próprios familiares dos desaparecidos. Há resistência até no registro de boletim de ocorrência. Dos 19 jovens com paradeiro incerto, somente familiares de 15 deles permitiram a divulgação do cartaz de busca. Atrelado a isso, a ausência do estado é denunciada pelos parentes. A mãe de um jovem afirmou não saber a quem recorrer. “Me parece que as autoridades são coniventes. Já tentei várias conversas e nada.”
“Falamos de pessoas pobres e vulneráveis. Precisamos de uma integração do poder público e avanço nas políticas públicas para incentivar o registro policial e fazer com que os casos saiam da vala comum. O governo como um todo precisa ver o desaparecimento com outro olhar”, enfatiza o delegado.
