O Mirante Alto do Cruzeiro, no bairro Alto da Boa Vista, em São Miguel dos Milagres (AL), a parada é quase que obrigatória pelos turistas que buscam a melhor captura de foto do litoral. É dali, porém, que homens armados, vestidos com roupas camufladas, operam drones e vigiam a cidade.
O monitoramento, exibido nas próprias redes sociais do grupo, serve para identificar alvos, mapear rotas e definir pontos de desova. Do alto, trocam informações com lideranças do Rio de Janeiro. Entre mensagens, selam o método de execuções. Matar e ocultar o corpo é estratégia para reduzir rastros, dificultar o avanço das investigações e preservar a engrenagem do tráfico.
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Sob essa vigilância silenciosa, uma sequência de desaparecimentos se consolidou no litoral norte de Alagoas. Em pouco mais de dois anos, 19 jovens sumiram na região que integra a chamada Rota Ecológica, formada também por Porto de Pedras e Passo de Camaragibe. A engrenagem do tráfico de drogas — com atuação de facções como o Comando Vermelho (CV) — é apontada pelas investigações como pano de fundo dos casos.
A quatro minutos da praia Porto da Rua, onde turistas se preparam para noites de alta gastronomia e música ao vivo, o garçom Glauco Gabriel Omena, 20 anos, desapareceu em 5 de dezembro de 2025. Trabalhador de rotina fixa, percorria cerca de 11 quilômetros entre a Barra de Camaragibe, onde morava, e o restaurante onde atuava. Na véspera, havia sido vítima de um roubo à mão armada — caso registrado na polícia, com apreensão dos suspeitos e recuperação da motocicleta. Eles foram liberados.
Horas antes do expediente, Glauco ainda encontrou o irmão mais novo em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, para entregar um carregador. Depois disso, nunca mais foi visto.
Três dias depois, em 8 de dezembro, a recifense Maria Vitória Chaves, 22, também desapareceu. Moradora recente da cidade, trabalhava em um bar e fazia programas. Na noite do sumiço, publicou vídeos ao lado de três homens, incluindo um parceiro ocasional. Em uma das gravações, o grupo canta, bebe e faz o gesto em “V” com as mãos — símbolo associado ao CV.
Segundo relatos colhidos pela reportagem, Maria aceitou um convite para seguir até uma área de mata próxima ao bar. Minutos depois, quatro homens, em duas motocicletas, passaram pelo mesmo trajeto. Todos voltaram, menos ela. Dias depois, segundo uma amiga, o homem com quem se relacionava teria se vangloriado do crime. O caso não avançou.
Antes deles, ao menos cinco desaparecimentos já haviam sido registrados em 2024. Em 2025, foram 11 casos. De janeiro a abril deste ano, outros três. O número pode ser maior. “Há subnotificação. Famílias têm medo até de registrar ocorrência”, afirma o delegado Ronilson Medeiros, responsável pela Coordenação de Desaparecimento de Pessoas de Alagoas.
No quadro da delegacia, 19 rostos se alinham em sequência: jovens entre 14 e 27 anos, majoritariamente moradores de áreas periféricas, com trajetórias atravessadas pela vulnerabilidade. As investigações apontam um padrão: usuários de drogas, supostos integrantes de grupos rivais ou pessoas que, de alguma forma, teriam desagradado o tráfico.
Dois desses desaparecimentos tiveram desfecho conhecido. Andreas Denicio Borges Barros, 14, foi encontrado em uma cova rasa 20 dias após sumir. João Victor Pinto, 18, apareceu nove dias depois, no Rio Manguaba, em estado avançado de decomposição. Em ambos os casos, a polícia trabalha com a hipótese de execução ligada ao chamado “tribunal do crime”.
A estratégia de ocultar os corpos, segundo investigadores, é central para o funcionamento da engrenagem criminosa. Sem cadáver, não há prova material — e a investigação se arrasta. “A não localização dos corpos alimenta a impunidade”, resume Medeiros.
Enquanto isso, o contraste define o território. Com pouco mais de 32 mil habitantes, segundo o IBGE, a região é destino de 62% dos turistas que buscam sol e praia em Alagoas, de acordo com o Ministério do Turismo. No Réveillon, figura entre os destinos mais exclusivos do país — com diárias que chegam a R$ 60 mil em pousadas à beira-mar.
À margem desse circuito, famílias convivem com a ausência. Dos 19 desaparecidos, apenas 15 tiveram autorização para divulgação de cartazes de busca. Em dois casos, corpos seguem no necrotério, à espera de identificação genética. A distância e a falta de recursos dificultam a coleta de material das famílias.
