Em São João das Missões (MG), no Norte do estado, onde os indígenas são a maioria absoluta da população – 79,84%, conforme o Censo 2022 –, o desafio de conectar o povo Xakriabá ao sinal da TV digital esbarra em uma barreira histórica: o silenciamento forçado de sua própria língua. Depois de décadas de apagamento cultural, que deixou a maior parte da comunidade sem o domínio do idioma ancestral, a chegada de tutoriais e tecnologias traduzidos para o Akwê (língua materna dos Xakriabás) surge como uma ferramenta crítica de revitalização.
O projeto Brasil Antenado dá acesso gratuito à TV digital e, agora, conta com tradução de materiais informativos em línguas nativas. A iniciativa é da Entidade Administradora da Faixa (EAF) com a curadoria direta de lideranças locais, tornando a tradução técnica um ato de resistência. Para o cacique José dos Reis, que traduziu manuais, o uso de ferramentas modernas, que vai do sinal de TV às mensagens de WhatsApp, é a nova estratégia para fazer o povo voltar a falar sua língua de origem, transformando a inclusão digital em uma ação prática contra o esquecimento do Akwê.
“Através da tecnologia dá para aumentar esse alcance (da língua nativa), para chegar em toda população e, assim, todo mundo tentar se envolver mais dentro dessa língua materna e recuperar para nosso povo. A gente sabe que ela é de todos nós. Acredito que através da tradução de algumas pequenas frases, algumas palavras, vai ajudar a gente, porque hoje as pessoas fazem muito uso da televisão e da internet. Então, é usar da tecnologia para ajudar na recuperação do Akwê”, enfatiza.
Segundo a EAF, expandir a comunicação para idiomas nativos no Brasil ajuda a superar barreiras linguísticas. Além do Akwê, a tradução dos materiais informativos já está disponível nas línguas Munduruku, Ingarikó, Xavante, Macuxi, Iny Rybè e Guarani. Depois de ofertar os tutoriais nos idiomas ancestrais, o programa registrou um aumento expressivo no interesse das comunidades.
Em Jacareacanga (PA), a adesão ao Brasil Antenado aumentou 150% com a ferramenta em Munduruku. Já em Uiramutã (RR), cidade com a maior proporção indígena do país, a EAF registrou crescimento de 124% com as versões em Macuxi e Ingarikó. Para a CEO da EAF, Gina Marques, a tecnologia não pode substituir a ancestralidade.
“O Brasil é um país de dimensões continentais e uma imensa diversidade cultural, o que nos impõe o desafio de romper barreiras históricas para que a inclusão digital seja, de fato, para todos. Eliminar obstáculos, sejam eles técnicos, geográficos ou linguísticos, é a nossa missão prioritária na EAF. Ao traduzir tutoriais para línguas como o Akwê, dos Xakriabás em Minas Gerais, reforçamos que a inclusão digital só é plena quando respeita a identidade de cada povo. Entendemos que essa iniciativa ajuda a combater o apagamento linguístico ao validar esses idiomas como meios oficiais e eficazes de acesso a direitos e políticas públicas", afirma.
Língua e alfabetização
Embora a retomada do Akwê seja importante para a soberania cultural e ancestral dos Xacriabás, o cacique José explica que, atualmente, a maioria da comunidade não fala a língua materna. Isso porque, segundo ele, o português foi imposto como obrigatório por muito tempo, fazendo com que o idioma se perdesse. No entanto, segundo o Censo, a taxa de alfabetização é mais elevada entre indígenas que falam apenas o português.
De 1,19 milhão de pessoas indígenas de 15 anos ou mais, cerca de 308 mil são falantes de línguas indígenas. Destes, 242 mil são alfabetizados, isto é, 78,5% – taxa inferior a das pessoas indígenas como um todo, que foi de 85% em 2022. Ainda no grupo de pessoas indígenas de 15 anos ou mais, as que falam apenas línguas indígenas têm a taxa de analfabetismo mais elevada, com 31,8%, seguida das que falam língua indígena e português no domicílio – 15,5%.
Logo atrás, estão aquelas que não falam nem língua indígena e nem português no domicílio, cerca de 15%. Já os indígenas que falam apenas português têm a taxa de alfabetização mais elevada, de aproximadamente 87%. Na visão de José dos Reis, um idioma não deve ser priorizado em detrimento de outro, mas os dois devem ser aprendidos. De preferência, ainda na infância.
“Nós temos que começar (a ensinar as duas línguas) lá dentro da infância, porque eles (jovens) têm muito mais facilidade de aprender do que nós (mais velhos). Já vai entrando na memória deles, então, nós temos criança pequenininha que já fala umas palavras na língua portuguesa. Vemos essa facilidade com eles”, diz.
Brasil Antenado
De acordo com Gina Marques, o papel do Brasil Antenado é garantir que o acesso chegue a todos que têm direito ao benefício. O objetivo é que o sinal digital de qualidade fique disponível a todos, superando barreiras de informação ou compreensão e, por isso, a importância da tradução dos conteúdos. Para ela, as comunidades passam a ter mais autonomia para escolher, consumir e se relacionar com os conteúdos disponíveis quando entendem o que é dito.
“Identificamos que o português não era o idioma cotidiano de muitas famílias aptas ao programa e verificamos que a comunicação precisava ser tão acessível quanto a tecnologia que entregamos. O maior desafio foi transformar um tutorial técnico em uma linguagem acessível e direta que respeitasse as particularidades de cada povo. A participação das lideranças foi o pilar do sucesso desta ação”, conclui.
Viabilizado pela Portaria Ministério das Comunicações nº?17.337, de abril de 2025, o programa distribui kits de antenas parabólicas a famílias de baixa renda. Até 13 de junho, o Brasil Antenado executa a Fase C, que inclui 108 cidades, em oito estados (ES, MG, GO, BA, MT, MS, RO, RS). A nova etapa contemplará 56.500 famílias, em 30 municípios do Norte de Minas.
Veja a lista de cidades
- Águas Vermelhas
- Angelândia
- Aricanduva
- Cachoeira de Pajeú
- Catuji
- Chapada Gaúcha
- Couto de Magalhães de Minas
- Franciscópolis
- Goiabeira
- Grão Mogol
- Indaiabira
- Medina
- Miravânia
- Monte Formoso
- Ninheira
- Nova Belém
- Novo Oriente de Minas
- Padre Carvalho
- Palmópolis
- Ponto dos Volantes
- Riacho dos Machados
- Santa Cruz de Salinas
- Santa Fé de Minas
- Santa Rita de Jacutinga
- Santa Rita do Itueto
- São João das Missões
- Serranópolis de Minas
- Setubinha
- Uruana de Minas
- Vargem Grande do Rio Pardo
