Crime organizado

Carimbo de terrorista

Casa Branca classifica o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações que propagam o terror, e abre caminho para ações unilaterais de forças de segurança dos EUA. Para Celso Amorim, ato é "pretexto para intervenção"

Em nota oficial, Marco Rubio afirma que os EUA vão usar
Em nota oficial, Marco Rubio afirma que os EUA vão usar "todas as ferramentas disponíveis para garantir a segurança do povo americano" - (crédito: Alex Brandon/AFP)

O governo dos Estados Unidos (EUA) decidiu denominar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como "organizações terroristas estrangeiras". O ato é similar ao adotado pela Casa Branca para classificar quadrilhas ligadas ao narcotráfico no México e na Venezuela como grupos que praticam o terror a nível internacional. A decisão foi emitida por meio de um comunicado assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, um dos principais nomes do governo do presidente Donald Trump.

"O Comando Vermelho e o PCC são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Juntos, eles comandam milhares de integrantes e orquestraram ataques brutais contra policiais brasileiros, autoridades públicas e civis. Sua influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, alcançando toda a nossa região e, também, o nosso país", sustenta Rubio, na nota.

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O instrumento utilizado pelo governo norte-americano para definir os grupos como terroristas é a Ordem Executiva 13.224 — editada pelo presidente George W. Bush logo após o ataque ao World Trade Center, em setembro de 2001. O objetivo da norma é facilitar a ação dos Estados Unidos para desmantelar grupos terroristas fora das fronteiras do país, mas que geram uma "ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia" dos EUA.

Ainda de acordo com a nota publicada ontem, o Departamento de Estado informou que o governo Trump seguirá utilizando "todas as ferramentas disponíveis" para proteger a nação e os interesses de segurança nacional do país, "mantendo drogas ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo as fontes de receita que financiam narcoterroristas violentos". A medida entra em vigor, oficialmente, em 5 de junho.

Amorim responde

No Brasil, não houve resposta oficial do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até o fechamento desta edição. Mesmo assim, o assessor-chefe da Assessoria Especial do presidente, Celso Amorim, comentou sobre a medida no Fórum Internacional de Segurança, em Moscou, na Rússia. Segundo ele, a iniciativa norte-americana pode servir de "pretexto para intervenção" no Brasil, reforçando a preocupação já manifestada pelo próprio Lula e outros membros do governo.

"Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável", afirmou o secretário.

Assim como Celso Amorim, o ministro Guilherme Boulos, titular da Secretaria-Geral da Presidência da República, manifestou-se em relação à ação dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas como terroristas. "Será que os EUA também vão classificar como terrorista a milícia do Rio de Janeiro ligada aos Bolsonaros?", perguntou o ministro, em alusão a suspeitas de ligação da família do presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, com milicianos na capital fluminense.

No Congresso, a bancada do PT na Câmara divulgou uma nota que acusa os apoiadores de Bolsonaro de desejar "entregar o Brasil a Trump". "A bancada do PT na Câmara denuncia a articulação da extrema-direita sob a condução de Flávio e Eduardo Bolsonaro para estimular os Estados Unidos a classificarem facções criminosas brasileiras como organizações terroristas", diz o comunicado. A nota sustenta ainda que o reconhecimento de que o Brasil abriga grupos terroristas serve de pretexto para que o país seja bloqueado economicamente e, até mesmo, atacado na esfera militar.

Flávio aplaude

Nas redes sociais, a decisão foi comemorada pelo senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro repostou a decisão do governo norte-americano na rede social X e comentou: "Grande dia". Nesta semana, ele esteve com o presidente Trump em reunião no Salão Oval da Casa Branca, justamente para pedir que o governo dos EUA incluísse as duas organizações criminosas na lista de grupos terroristas.

No encontro, Flávio foi acompanhado pelo jornalista e influenciador Paulo Figueiredo e pelo irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que também comemorou a decisão anunciada por Rubio. Em vídeo postado nas redes sociais, ele agradeceu nominalmente a membros do governo norte-americano pela decisão. O filho 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro disse que é um "grande dia" para os que "sofrem nas mãos desses bandidos".

"Meu sincero agradecimento ao presidente Donald Trump, bem como ao secretário de Estado, Marco Rubio, e ao vice-presidente, JD Vance", disse Eduardo, em vídeo. Ele também agradeceu ao vice-secretário de Estado, Christopher Landau, e ao encarregado de assuntos internacionais com o Brasil e assessor de Trump, Darren Beattie. "São pessoas-chave para a administração Trump e contribuíram para que essa decisão fosse tomada", acrescentou.

Ainda no vídeo, divulgado logo após a decisão emitida pelo secretário Rubio, o ex-deputado disse que a medida irá tornar "muito mais difícil" a movimentação financeira dos dois grupos criminosos e que eles poderão ser combatidos "igual Bin Laden era", fazendo referência a Osama Bin Laden, líder e fundador da Al-Qaeda, grupo terrorista saudita, assassinado pelo governo do então presidente Barack Obama, em 2011.

Intervenção

A tipificação das duas organizações como terroristas pelos EUA virou tema de confronto entre o governo e a oposição no Brasil. Enquanto o grupo liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva teme que a decisão favoreça uma intervenção norte-americana no país, o outro lado acredita que a medida pode contribuir para reforçar a segurança e o combate contra os criminosos.

Para a advogada criminalista e especialista em Criminologia e Direitos Humanos Izabela Jamar, a determinação de organizações criminosas como terroristas pode gerar “distorções perigosas”, abrindo margem para interpretações expansivas que podem fragilizar garantias fundamentais.

“No Brasil, o conceito de terrorismo está definido na Lei nº 13.260/2016 e pressupõe motivações específicas, como ideologia, religião ou xenofobia, o que não se confunde, em regra, com a atuação de facções criminosas voltadas ao lucro ilícito”, comenta.

Sobre a justificativa de que o nível de violência, a capacidade de intimidação social e o controle territorial exercidos por essas facções se aproximam de práticas terroristas, a especialista acredita que, mesmo assim, qualquer mudança nessa direção deve ser feita por meio de debate legislativo qualificado, com critérios objetivos e respeito ao devido processo legal, para evitar o uso político ou arbitrário dessa classificação.

“Em síntese, o desafio não é apenas nominal. Rotular PCC e CV como organizações terroristas pode ter impactos profundos no sistema de justiça criminal, na cooperação internacional e até na política de segurança pública. Por isso, a discussão precisa ser técnica, responsável e ancorada na Constituição”, completa.

Já o advogado e especialista em Ciências Criminais e sócio do RCA Advogados Berlinque Cantelmo segue outra linha e avalia que o episódio evidencia o que as autoridades brasileiras já poderiam ter aprimorado: o ataque ao sustentáculo financeiro dessas estruturas criminosas.

Cantelmo destaca que medida adotada pelos EUA tem como ponto central a repressão ao contrabando, tráfico internacional de drogas e armas e, acima de tudo, a procura por bancos americanos para alocação e acomodação de recursos oriundos de atividades ilícitas desenvolvidas por essas facções.

“Do ponto de vista da governança criminal, a medida afeta operações financeiras, mas também aumenta a capacidade dos EUA de fiscalizar transações suspeitas envolvendo bancos e empresas que poderão sofrer sanções ao operarem com grupos terroristas mesmo sem conhecer essa ligação”, analisa o especialista.

 

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postado em 29/05/2026 03:55
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