Educação

Goiás alfabetiza na hora certa e colhe resultados

Com 80% das crianças sabendo ler e escrever até o fim do 2º ano Fundamental, estado atinge a meta prevista para 2030

A alfabetização até o fim do 2º Ano do Ensino Fundamental permanece como uma das principais metas da educação brasileira por representar a base do desenvolvimento escolar e social das crianças. Dados do Indicador Criança Alfabetizada (ICA), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que 66% das crianças brasileiras alcançaram o nível esperado de alfabetização em 2025. O índice representa crescimento em relação aos 59,2% registrados no ano anterior, mas ainda revela desafios, já que cerca de 780 mil estudantes seguem sem atingir o desempenho adequado nessa etapa do ensino.

Em Goiás, os números mostram um avanço acima da média nacional. O estado alcançou 80% de crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do Ensino Fundamental, atingindo antecipadamente a meta prevista para 2030. O resultado supera o índice de 73% registrado em 2024 e representa cerca 3.249 crianças alfabetizadas a mais em apenas um ano. O desempenho é associado ao fortalecimento de políticas públicas voltadas aos anos iniciais da educação e à atuação conjunta entre estado e municípios por meio do programa AlfaMais Goiás. Na prática, os resultados aparecem dentro das salas de aula.

Na Escola Municipal Professora Dalísia Elizabeth Martins Doles, em Goiânia, a trajetória de Ana (nome fictício para preservar a identidade da criança), 8 anos, passou a ser acompanhada como exemplo de inclusão e desenvolvimento educacional. A estudante apresentava dificuldades no processo de alfabetização durante o 1º ano do Ensino Fundamental e não conseguia avançar na leitura e na escrita. A mudança começou após o contato com aulas de Língua Brasileira de Sinais (Libras), introduzidas na turma devido à presença de uma colega surda acompanhada por uma professora especializada.

O ensino de Libras foi ampliado para todos os alunos da classe e despertou o interesse da criança, que passou a associar os sinais ao alfabeto. A partir desse processo, Ana começou a desenvolver habilidades de leitura e escrita e apresentou evolução nas avaliações de fluência leitora. Segundo a diretora da unidade, Luciana Maria de Moura Melo, a estudante conseguiu avançar em poucos meses. "A partir desse contato com Libras, ela apresentou uma evolução significativa no processo de alfabetização", afirmou. Atualmente, a aluna está no 2º ano e continua participando das aulas com a colega e aos demais estudantes da turma.

Apoio de ONGs

O caso faz parte das práticas acompanhadas pelo programa AlfaMais Goiás, implantado em 2021 para garantir que todas as crianças sejam alfabetizadas até o fim do 2º ano do Ensino Fundamental. A política pública é desenvolvida em regime de colaboração entre o governo estadual e os 246 municípios goianos, com foco no acompanhamento pedagógico, formação continuada de professores e monitoramento sistemático da aprendizagem. O programa também trabalha com incentivos financeiros ligados ao desempenho educacional, além da distribuição de materiais didáticos estruturados.

A iniciativa conta com apoio técnico da Aliança pela Alfabetização, formada pela Associação Bem Comum, Fundação Lemann e Instituto Natura. O grupo atua na elaboração e no fortalecimento de políticas públicas voltadas à alfabetização nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Atualmente, a parceria está presente em 18 estados brasileiros, alcançando 3.989 municípios e impactando cerca de 3,2 milhões de estudantes.

Entre as estratégias adotadas, estão avaliações periódicas de fluência leitora, formação de professores e gestores, fortalecimento da gestão educacional e ações de inclusão. O modelo também prevê medidas voltadas à educação para as relações étnico-raciais (Erer), inseridas nos módulos de capacitação oferecidos às redes municipais e estadual de ensino.

Especialistas da área educacional apontam que a alfabetização na idade adequada influencia diretamente toda a trajetória escolar. Crianças que consolidam leitura e escrita nos primeiros anos tendem a apresentar maior compreensão dos conteúdos nas demais disciplinas, além de desenvolver autonomia no aprendizado. Já estudantes que não alcançam esse estágio enfrentam mais dificuldades de acompanhamento escolar, o que pode aumentar índices de reprovação, evasão e defasagem educacional.

O avanço registrado em Goiás reforça a avaliação de que políticas públicas contínuas, associadas ao acompanhamento pedagógico e à cooperação entre diferentes esferas de governo, podem produzir resultados consistentes na alfabetização infantil. Apesar da melhora observada no país, o Brasil ainda permanece distante da meta nacional de 80% de crianças alfabetizadas prevista para 2030, o que mantém o debate sobre investimentos em educação entre os principais desafios da área.

*Estagiária sob a supervisão de Vinicius Doria

 

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