Em um momento em que o debate internacional reforça a importância da memória como instrumento de reparação histórica — evidenciado por manifestações recentes do Papa Leão, que pediu perdão pela demora da Igreja em condenar a escravidão —, o Brasil retoma nesta terça-feira (26/5), em Brasília, a discussão sobre o papel dos arquivos públicos na construção da cidadania e da democracia.
Quinze anos após a última edição, a 2ª Conferência Nacional de Arquivos reúne representantes do poder público, pesquisadores e integrantes da sociedade civil para discutir o acesso à informação e a preservação documental como ferramentas essenciais para a reparação histórica, a valorização da identidade nacional e o fortalecimento democrático.
Com o tema “Arquivos como agentes da cidadania e da democracia”, o encontro recoloca em pauta debates como a ampliação do acesso a documentos sobre a escravização da população negra, a preservação e abertura de acervos ligados à ditadura militar e a valorização de registros históricos capazes de sustentar reivindicações por memória, verdade e justiça.
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Para a diretora-geral do Arquivo Nacional, Monica Lima, revisitar esses acervos é fundamental para compreender como o passado continua produzindo efeitos no presente. “Estamos tomando cada vez mais consciência de quanto o passado está presente. Tanto a história da escravidão quanto a da ditadura continuam produzindo efeitos na sociedade brasileira”, afirmou ao Correio.
Segundo Monica, os arquivos públicos funcionam como instrumentos concretos de reconhecimento e reparação. “Os arquivos são territórios onde se pode encontrar instrumentos para lutar por direitos. É neles que estão os registros que permitem reivindicações por reparação e reconhecimento histórico”, disse.
A diretora destaca ainda que a preservação documental tem papel decisivo para dar visibilidade a trajetórias historicamente apagadas. Um exemplo é a exposição Senhora Liberdade: mulheres desafiam a escravidão, em cartaz na sede do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, que reúne documentos sobre mulheres negras que recorreram à Justiça no século 19 para reivindicar a própria liberdade.
“Reconhecer essas histórias é reparar o silêncio e o apagamento”, reforça Monica. No campo do acesso a documentos ligados ao período da ditadura militar, Monica destacou que o Arquivo Nacional vem ampliando a incorporação e a divulgação de novos acervos.
Recentemente, o órgão recebeu uma terceira leva de documentos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que está sendo disponibilizada para consulta pública tanto presencialmente, na Superintendência Regional do Arquivo Nacional em Brasília, quanto por meio de acervos digitalizados.
Além disso, o objetivo é ampliar a visibilidade desses registros e estimular sua utilização por pesquisadores e pela sociedade.
Desafios da IA
A conferência também abordará os desafios impostos pela transformação digital, como a preservação de documentos, digitalização e o uso de inteligência artificial na gestão documental e a necessidade de garantir soberania e acesso público a acervos digitalizados.
Segundo Monica, o avanço da digitalização e o uso crescente de IA impõem novos desafios aos profissionais da área, especialmente no que diz respeito ao armazenamento, à preservação e ao controle de acervos digitais. A diretora ressalta ainda que a discussão ultrapassa o campo técnico e envolve questões estratégicas para o país.
“Discutir onde e como guardar esses acervos digitais também é discutir soberania digital e soberania nacional”, afirmou.
Arquivos comunitários
Outro ponto em debate será o fortalecimento dos chamados arquivos comunitários, organizados por movimentos sociais, associações e coletivos para preservar memórias que muitas vezes ficaram fora dos registros oficiais.
Essas iniciativas ampliam a compreensão sobre a história brasileira ao incorporar narrativas historicamente invisibilizadas pelos acervos institucionais tradicionais, disse Monica.
Para a diretora, a retomada da conferência após 15 anos representa um momento de reafirmação democrática e de atualização do papel social dos arquivos diante dos desafios contemporâneos.
“A conferência é um espaço para lembrar da importância das instituições públicas na preservação da memória e no reconhecimento de histórias que foram invisibilizadas”, afirmou.
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