TRATAMENTO ALTERNATIVO

Uso medicinal de cannabis em alta

No ano passado, o setor da cannabis medicinal no Brasil foi marcado por movimentações decisivas do governo e do Poder Judiciário para facilitar o acesso ao tratamento

O debate sobre o uso medicinal da cannabis tem ganhado força no Brasil nos últimos anos. Dentro da comunidade acadêmica, pesquisas e tratamentos estão evoluindo, ampliando a aplicação terapêutica da substância para um número cada vez maior de doenças. Apesar desse crescimento, o acesso a cannabis medicinal ainda permanece restrito, principalmente para pessoas com melhores condições financeiras.

Dados do Anuário do cannabis medicinal de 2025, produzido pelo Núcleo Kaya Mind, mostram que o Brasil contava com mais de 873 mil pacientes de cannabis, o que representa um crescimento de 30% em relação a 2024. A empresa calcula um potencial de mercado de R$ 9,5 bilhões e 6,9 milhões de pacientes potenciais.

Segundo a pesquisa, o acesso ao produto acontece por três principais vias: importação, farmácia e associações. A primeira representa cerca 354 mil pacientes (40,5%), a segunda são 293 mil (33,6%) e a última representa 266 mil pessoas. Mesmo com o número relativamente alto, apenas 1% dos profissionais habilitados, como médicos, fisioterapeutas e dentistas, prescrevem cannabis regularmente.

O médico endocrinologista e especialista em Medicina do Esporte da Komunidade, ecossistema digital de saúde e bem-estar natural voltado à ampliação do acesso à cannabis medicinal no país, Dr. João Branco, diz que, além do valor do tratamento, a burocracia também é um impedimento para o uso da cannabis. Por mês, o paciente pode gastar de R$300 a R$800.

"Hoje, sem sombra de dúvida, o que ainda dificulta é o custo, que já foi muito maior, e também a burocracia para que esse medicamento chegue ao paciente. Atualmente, o processo envolve prescrição médica, autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e importação direta. Existe, sim, um movimento para que os óleos importados possam ser estocados e manipulados por farmácias autorizadas, permitindo uma logística mais rápida e facilitando a prescrição no Brasil", explica.

O tratamento com cannabis medicinal é direcionado, na maior parte das vezes, para condições neurológicas e psiquiátricas. Transtornos psicológicos, como ansiedade, depressão, insônia, fobia social e TDAH, estão entre as principais queixas dos pacientes. Além disso, pessoas com doenças neurológicas, como epilepsia, e condições crônicas, como fibromialgia, também fazem parte do público que busca esse tipo de tratamento.

Para Branco, cada vez mais, a ciências está estudando doenças complexas, como síndromes metabólicas e convulsivas, que podem ter como tratamento alternativo o uso do cannabis. "Quanto mais recursos tivermos para melhorar a qualidade de vida, mais possibilidades podem ser adicionadas ao tratamento. Com isso, o controle e a titulação das doses dos remédios tradicionais não precisam chegar à dose máxima", entende.

Ele também explica que os riscos do uso da medicação é muito baixa. "Não existem relatos de risco grave de superdosagem ou overdose na literatura científica. No entanto, podem ocorrer alguns efeitos colaterais, como tremores, náusea, enjoo e alterações de equilíbrio, mas que podem ser resolvidos tranquilamente com ajuste de dose".

Regulamentação

No ano passado, o setor da cannabis medicinal no Brasil foi marcado por movimentações decisivas do governo e do Poder Judiciário para facilitar o acesso ao tratamento. Um exemplo foi a regulação de sementes de Cannabis Sativa pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A decisão estabeleceu requisitos fitossanitários para a importação da semente, o que ajudaria na viabilização de pesquisas e futuros cultivos nacionais.

Outra decisão de regulamentação foi a aprovação, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), do cultivo medicinal e industrial de cânhamo, uma variedade da planta. A ação abriu caminho para uma futura produção nacional regulamentada. Além disso, outra norma regulamentou a prescrição de produtos à base de cannabis por médicos-veterinários.

No entanto, segundo Branco, uma das principais dificuldades para a ampliação do tratamento no país é o preconceito. Muitas vezes, o canabidiol é relacionado ao uso recreativo da droga da maconha. Ele explica que essa resistência ao tratamento começa no desconhecimento dos benefícios.

"O preconceito vem exatamente do desconhecimento. Acaba que as pessoas colocam o grupo que faz tratamento com cannabis medicinal, que é uma medicação cientificamente comprovada e utilizada de forma terapêutica, como se estivesse ligado a algo marginalizado, ao uso de drogas ou apenas à busca por euforia e efeitos no sistema nervoso central. E isso não tem nada a ver com a realidade", argumenta.

Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

 

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