CARREIRA MILITAR

Gay e umbandista, policial militar quebra paradigmas na PM mineira

Kevin Oliveira chegou à patente de cabo na PMMG derrubando preconceitos contra sua fé e sexualidade. Ao EM, ele fala sobre aceitação e resiliência

 Kevin de Oliveira teve essa coragem por dez anos bem sucedidos dentro da corporação -  (crédito: Arquivo Pessoal)
Kevin de Oliveira teve essa coragem por dez anos bem sucedidos dentro da corporação - (crédito: Arquivo Pessoal)

Em uma sociedade que ainda precisa percorrer um longo caminho no combate ao preconceito, é necessária coragem para se assumir gay e umbandista. Mais coragem ainda dentro de instituições como a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). Kevin de Oliveira teve essa coragem por 10 anos bem-sucedidos dentro da corporação mineira, alcançou a patente de cabo e começa agora nova jornada na PM de Santa Catarina nesta segunda-feira (22/6).

Com muito bom humor e segurança, o policial conta que já passou por vários perrengues, tanto dentro quanto fora da corporação, mas que esses desafios o ajudaram a moldar quem ele é hoje e não temer a opinião alheia.

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“Tem muita gente que ainda se prende por questões de preconceito e de julgamentos, mas é tão libertador quando você sabe quem você é e quem quer ser. Eu estou muito feliz com tudo que estou construindo e vou chegar à polícia de Santa Catarina muito bem definido”, afirma.

Formado em direito, o militar ainda pretende trabalhar na Polícia Federal (PF) um dia. Seu objetivo é aprender cada vez mais sobre segurança pública para que um dia possa se tornar um especialista no assunto.

Derrubando o preconceito

Kevin, que é natural de Sete Lagoas, na Região Central do estado, contou ao Estado de Minas que a carreira militar nunca foi uma opção quando era adolescente, até ser selecionado, contra a sua vontade, para prestar serviço obrigatório no Exército aos 18 anos. Depois de três anos, viu no concurso da PMMG a oportunidade de construir carreira.

”Não havia militar na minha família, mas acabei gostando e, por incrível que pareça, fiquei três anos lá. Ali foi onde comecei a ter um entendimento sobre o que era ser concursado, porque esse mundo era fora da minha realidade. Então, decidi entrar para a Polícia Militar, que na época era o melhor concurso para quem tinha ensino médio, hoje em dia precisa de ensino superior para entrar”, relembra.

O militar conta que sente que a vida o guiou para este caminho, tanto que saiu da prova com a certeza de que tinha passado. E, realmente, passou de primeira. A oportunidade também foi uma forma de crescer financeiramente, já que, segundo ele, o retorno financeiro seria maior.

Ele relata que nunca escondeu que era homossexual para os companheiros de batalhão e que isso, no início, fez com que se afastassem dele. Kevin chegou a evitar certos ambientes e situações, como o vestiário, mas com o passar do tempo percebeu que a melhor estratégia era seguir sua vida normalmente.

“No início da carreira, percebia que algumas pessoas tinham ideias preconceituosas sobre o que significava trabalhar com um policial gay. Piadinhas eram o mais básico daquela época. Mas quando você começa a se entender e sabe se posicionar, tudo muda: quer se aproximar de mim? Ótimo. Se não quer, tranquilo também. Cada um se respeitando é o que importa”, explica.

Assim, mostrou que ser gay em nada influencia no profissionalismo como policial e, com o tempo, foi fazendo amizade com os colegas e se tornando uma figura querida no batalhão. Olhando para trás, ele percebe a evolução da Polícia Militar em relação à diversidade, principalmente a partir de 2018, quando começaram a ser aplicados questionários para traçar o perfil da corporação e a orientação sexual passou a ser um dos itens da lista.

“Na época que eu entrei, em um batalhão com 300 servidores, três eram homossexuais. Pelo menos assumido. De 2018 para cá, senti diferença, nunca mais vi alguém debatendo isso no sentido de deboche”, afirma. “Quando você divide uma viatura e enfrenta situações difíceis em que você tem que confiar no seu parceiro, o importante é o profissional que você é. Uma das maiores lições que eu aprendi na PMMG foi que o contato humano e o trabalho em equipe costumam derrubar preconceitos”, completa.

Em uma profissão com uma rotina tão pesada como a de policial militar, Kevin busca equilibrar seu trabalho, sua vida pessoal e sua fé com uma pitada de leveza, como apreciar uma paisagem bonita ou um cafezinho oferecido por um cidadão.

“Por baixo da farda, a gente também é ser humano e temos que lidar com muita coisa. Pode ser o corpo da pior pessoa do mundo que está ali, mas era o amor da vida de alguém. Então, você tem que respeitar o luto da pessoa e ainda tem que isolar aquela área até o perito chegar. Nos meus intervalos, buscava detalhes que poderiam me fazer esquecer do pesado do serviço”, conta.

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Fé e força

Há cinco anos Kevin se tornou umbandista e passou a combater, também, o preconceito religioso. Assim como na carreira policial, a religião entrou em sua vida de forma natural. Ele conta que atendeu diversas ocorrências envolvendo terreiro: alguém ligava para o 190 reclamando de gritos ofensivos e de sacrifícios de animais. Entretanto, o militar percebeu que quase todas as denúncias eram exageradas ou falsas.

Em um dia de folga, resolveu visitar um dos terreiros que tinha mais contato e se sentiu acolhido e em paz. Foi convidado a entrar para a religião e se encantou com o trabalho de caridade realizado pela casa. Assim como fez em relação à sua sexualidade, o militar não escondeu que entrou para a umbanda e passou a usar a guia, um colar de contas sagrado usado para proteção, no trabalho.

“A gente entra em muitos lugares pesados, como local de crime de homicídios e de violência doméstica. Então, eu sempre colocava a guia como proteção, do mesmo jeito que tem policiais que andam com terço ou com a Bíblia. O primeiro choque de vez em quando era muito engraçado, a pessoa fazia o sinal da cruz quando via minha guia ou falava: ‘Jesus, Ave-Maria’. Aí eu ria e explicava: ‘Mas eu também acredito em Jesus’”, conta.

Em uma ocasião, Kevin e seu parceiro foram até a casa de uma senhora para atender a um chamado, mas, chegando lá, ela impediu que ele entrasse. Ele perguntou o porquê e ela respondeu "não gosto da sua religião". “Eu respeitei, mas nesse dia eu fiquei baqueado. Estava ali só para ajudar e atender a minha ocorrência. Fazendo o meu papel”, explica.

Segundo ele, o preconceito contra religiões de matriz africana se baseia no desconhecimento e nos estereótipos que são amplamente divulgados. Por isso, passou a explicar para os colegas de trabalho o significado dos elementos da umbanda, como a guia, que representa proteção, e as oferendas em encruzilhadas, que são uma forma de agradecimento aos orixás.

“Por incrível que pareça, tive um feedback muito bom dos policiais, que eles tiveram liberdade de perguntar e tirar dúvidas. Quando você explica com conhecimento e paciência, tudo se transforma”, declara.

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postado em 22/06/2026 17:08 / atualizado em 22/06/2026 17:08
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