Ludopatia

"Ele gastou R$ 109 mil em uma tarde", diz servidora que perdeu irmão para bets

Após o irmão tirar a própria vida após ficar viciado em apostas on-line, a servidora pública Juliana Prates tornou-se uma ativista contra a febre das bets

O auditor Otacílio tinha 46 anos e acumulou uma dívida estimada pela família em pelo menos R$ 1,5 milhão -  (crédito:  Arquivo Pessoal)
O auditor Otacílio tinha 46 anos e acumulou uma dívida estimada pela família em pelo menos R$ 1,5 milhão - (crédito: Arquivo Pessoal)

Pesquisadora, auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia e ativista contra a prática de apostas, Juliana Prates Caminha, 43 anos, enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida, junto à família, quando o irmão cometeu suicídio após ficar viciado em jogar nas bets. A tragédia ocorreu no fim de dezembro de 2025 e marcou profundamente Juliana, que iniciou um trabalho de ativismo e conscientização sobre os riscos das apostas no Brasil. Otacílio Prates, 46 anos, também era auditor — os dois ingressaram no tribunal juntos, como concursados — e tinham um convívio diário. 

Entretanto, a família não percebeu que a mudança de comportamento era por causa do vício em apostar. A família descobriu ao ler a carta deixada por Otacílio com explicações e a senha do celular. Foi nesse momento que viram os diversos aplicativos de bets legalizadas e os gastos expressos no extrato da conta bancária. De acordo com a família, Otacílio acumulou cerca de R$ 1,5 milhão em dívidas. Em entrevista exclusiva ao Correio, Juliana conta todo o drama, seu trabalho nas redes sociais e critica a falta de ação do governo em restringir a atuação das casas de apostas on-line no país. 

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Como era o comportamento de Otacílio antes do vício? E quando a família percebeu que algo estava errado?

A gente percebeu a diferença de comportamento mais ou menos uns oito meses antes de tudo acontecer. Ele sempre foi uma pessoa muito segura financeiramente. Quando ele nos pediu dinheiro, veio o alerta. Liguei até para meus pais e falei: "Mãe, meu irmão Otacílio pediu dinheiro". A gente é que pedia dinheiro para ele; ele sempre tinha dinheiro guardado. Era muito organizado financeiramente. Como sou muito ligada, e a gente trabalhava junto, estava sempre sabendo mais ou menos como era o comportamento na rotina. 

Otacílio confessou que jogava em bets quando vocês conversaram com ele pela primeira vez?

A gente botou ele na parede. Ele nos disse que fazia day trade. Que tinha se juntado com os amigos, feito uma compra de criptomoedas e não tinha dado certo. Por isso estava pedindo dinheiro. Eu achei estranho naquele momento, mas fui pesquisar sobre day trade, como é que funcionava. Vi que era um formato de bolsa de valores e de investimento rápido, com essa necessidade de dopamina e tal. Mas nunca tinha correlacionado, nunca, na face da terra, com bets. 

O quadro se agravou depois?

Ele teve um surto. Inclusive, durante esse período, a gente internou ele. Durante a internação, ninguém desconfiou. (Ele) não falou lá. Então, saiu e ficou com meus pais. A gente via muito ele conectado no celular e até falava. Tentava tirar o celular de perto, porque o salário entrava. Aí dava três, quatro dias, o dinheiro acabava. 

Como Otacílio se comportou após sair da internação e ficar em casa, afastado do trabalho?

Otacílio estava com meus pais e teve que voltar a trabalhar. Até porque, para receber férias, décimo terceiro como servidor público, é preciso estar na ativa. Ele ficou enchendo o saco do meu pai para poder voltar a trabalhar. Na época, falei que achava que não era o momento. Mas um homem de 46 anos, com seu próprio dinheiro, você não consegue controlar muito, né? 

Com o retorno ao trabalho, o comportamento mudou?

Nesse meio tempo, meu irmão pediu dinheiro para mais de mil pessoas. Todo mundo que ele achava no telefone dele, ele pedia dinheiro. E as pessoas me ligavam, falavam: "Ju, o Otacílio está me ligando, pedindo dinheiro". A gente tem uma boa condição financeira. Meus pais, eu, ele, todo mundo tinha condição financeira boa, e ele ligava para pedir R$ 50. Eu não entendia: como é que alguém pedia assim? Começamos a achar que estava usando crack, sabe?

Essa obsessão por pedir dinheiro emprestado agravou a situação?

Acho que isso também foi uma das motivações dele ter tirado a vida dele. Ter pedido dinheiro para tanta gente. Eu acho que veio a vergonha com a pergunta: "como é que eu pedi tanto dinheiro para as pessoas?". E as pessoas começaram a ligar umas para as outras, começaram a entender que o comportamento dele estava estranho.

Como a família descobriu o envolvimento de Otacílio com as plataformas de apostas?

Um dia, minha mãe falou: "Juliana, Otacílio sumiu." Nesse período, a gente estava sempre controlando os passos dele. Ele nunca havia manifestado que um dia tiraria a própria vida, mas, diante de tudo que estava acontecendo, sempre tivemos esse controle sobre como ele estava. Quando fui procurá-lo, encontrei a tragédia. Ele deixou uma caixa e uma carta. Nessa carta, falou que tinha gastado tudo, todo o salário que havia recebido e que a vida tinha perdido o sentido.

Ele disse algo mais?

Na carta, ele deixou a senha do celular e o telefone. Quando eu abro o celular dele, me deparo com vários aplicativos de jogos dessas bets legalizadas abertos. Entrei também na conta dele, ele deixou também a conta e a senha. E aí eu vejo vários gaming, gaming, gaming. Eu olho para meu marido e falo: "O que é isso? O que é gaming?". Otacílio gastou R$ 109 mil naquela tarde. Quando fui pesquisar, descobri que tinha sido nessas plataformas. Fiquei muito chocada. 

Qual foi sua primeira reação diante do trauma?

Fiquei três dias sem dormir após encontrá-lo morto. Entrei em choque mesmo. Eu estava sem entender o que estava acontecendo, até pela nossa proximidade, até pelo nosso envolvimento, e ele nunca ter falado nada. E passa até por vergonha mesmo. Porque, depois que eu comecei o ativismo, percebi que existe uma vergonha muito grande no jogador que perde.

Após essa tragédia, você iniciou seu ativismo contra as apostas?

Depois da descoberta, perguntei aos meus pais e à esposa dele se eu podia falar sobre esse assunto. Então fiz esse alerta nas redes sociais no dia 23 de dezembro, quando enterrei meu irmão. Meu Instagram já era aberto, e eu queria entender se isso aconteceu com os outros, sabe? Como é que isso está ali na minha bolha?

E qual foi a repercussão do seu alerta?

Estava com a minha família quando meu telefone foi bombardeado. No post, vi um monte de "eu também; minha família também; eu estou viciada e não consigo sair". Comecei a ficar consternada com aquele tanto de pessoas que diziam o que estavam vivendo sobre as apostas. Eu nem sabia que se chamava ludopatia. 

O que você fez, então?

Fui aprender que existia esse transtorno. Acho que muita gente não sabia dessa nomenclatura antes de tudo acontecer. Como sou pesquisadora, resolvi que ia tratar esses dados. O meu vídeo circulou na época por um milhão de pessoas e tinha comentários de 25 suicídios. Como é que a gente tem 25 suicídios assim? Para mim, o número era muito alto. A gente precisa se conscientizar de que as apostas têm um impacto social negativo. As finalidades negativas delas estão inerentes, e nós estamos normalizando.

Com o início das pesquisas, o que foi que você descobriu?

As bets usaram uma estratégia de marketing, estudaram o nosso mercado. Sabiam que nós éramos vulneráveis, sabiam que o Brasil tem esse uso constante de celular e que o Brasil é um mercado promissor. Tanto é que hoje é um dos maiores mercados de apostas. Estamos em quinto lugar, com três anos de regulamentação. 

Como você reagia à medida que se familiarizava com o universo das bets?

Cada vez que eu ia estudando, pensava assim: "Meu Deus, é o apocalipse que vai chegar". Comecei a pensar: eu tenho um filho de 15 anos. Imagina esses meninos todos que adoram celular, eles já começam a partir de agora, acham que isso é normal. E vi várias mães dizendo para mim "meu filho largou a faculdade". Duas mães me contaram que os filhos largaram a faculdade de medicina por causa de apostas, porque não tinham mais como pagar. 

O que você fez com esses relatos?

Fui pegando todos esses dados e fiz uma pesquisa empírica, era a minha metodologia. Identifiquei que muita mulher joga. Todo mundo falava: "Ah, o perfil é homem e jovem". E atualmente já saiu pesquisa dizendo que 47% dos apostadores são mulheres, coisas que eu ia identificando nas minhas pesquisas. Hoje a gente já consegue perceber esse fenômeno, em grandes pesquisas com metodologias consolidadas, para identificar os impactos negativos das bets.

Quais são as lacunas na regulamentação atual? Seria necessário proibir as bets, como o cigarro?

A sensação, para mim, é que se poderia fazer muito mais do que se faz. Mas não sei o que que está por trás, de verdade. Porque é fácil dizer: "Ah, eu sou contra bets". Outra coisa é você ter o poder na mão, a caneta na mão, com tantas formas de atuar. Aí vem a (deputada federal) Tabata Amaral falar do Cazé, enquanto o marido dela, lá em Recife, dá brinde de bet? O presidente diz que tem que acabar com as bets, e ele tem a possibilidade diante do artigo 5º da lei das bets, porque trata do poder discricionário de concessão. E aí surge esse grande movimento que eu não estou compreendendo qual é a intenção real. 

Qual a saída?

Ou a gente se une e faz prevenção social, ou não sei. Fico todos os dias tentando pensar qual é a estratégia necessária para a gente fazer algum debate. Talvez, a gente nunca consiga acabar com as bets, mas pelo menos limitar, assim como ocorre com o tabagismo. A gente fez uma campanha nacional de muito sucesso contra o cigarro.

É preciso abordar a questão como de saúde pública?

A ludopatia é muito séria, é uma doença, um transtorno de comportamento sem cura, porque os gatilhos serão sempre permanentes na sua vida. Imagine a dificuldade de uma pessoa lidando com a ludopatia e tentando parar com os gatilhos que recebe em meio a tanta normalização. As pessoas, sem saber que isso é uma doença, dizem que você é fraco, e as bets têm uma inteligência artificial específica para te capturar. E esses meninos viciados em celular? Como é que eles vão ser nas apostas? Precisamos de clamor social para fazer alguma coisa.

 

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postado em 28/06/2026 00:01 / atualizado em 29/06/2026 11:22
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