CLIMA

El Niño: Fenômeno pode afetar economia do país e segurança hídrica

Com risco de secas, queimadas e chuvas extremas, governo monitora a evolução do fenômeno enquanto especialistas defendem medidas preventivas para reduzir impactos climáticos e econômicos

A avaliação é que os próximos meses serão decisivos para determinar se o Brasil enfrentará apenas mais um episódio de El Niño ou um evento de intensidade excepcional, capaz de provocar impactos relevantes sobre a economia, a produção agrícola, a geração de energia e a segurança hídrica do país.

O professor de MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em mudanças climáticas e mercado de carbono, Daniel Caiche, afirma que, caso o fenômeno se confirme com intensidade, o Brasil tende a repetir padrões históricos. "Os impactos climáticos tendem a seguir o padrão historicamente observado no Brasil. Redução das chuvas e aumento da frequência de veranicos em parte das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, enquanto a Região Sul tende a registrar volumes de chuva acima da média", explicou.

Segundo ele, os reflexos econômicos mais relevantes devem aparecer no campo. "Os maiores impactos costumam ocorrer na agricultura, na geração hidrelétrica, nos custos logísticos e, consequentemente, nos preços dos alimentos", afirmou. Ele destaca ainda que a menor produtividade de culturas dependentes de chuva pode pressionar cadeias produtivas e aumentar a volatilidade dos preços.

Sobre a intensidade do fenômeno, o especialista ressalta que os modelos internacionais apontam aumento da probabilidade de formação do El Niño no segundo semestre de 2026. "Segundo a NOAA, essa probabilidade pode superar 80% a partir de agosto", disse. No entanto, ele pondera que ainda não há evidências de um evento extremo como os registrados em 1997/98 ou 2015/16.

Mudanças climáticas

Caiche explica que o contexto atual pode amplificar os efeitos climáticos. "Uma diferença importante é que hoje convivemos com temperaturas globais mais elevadas em função das mudanças climáticas, o que pode intensificar ondas de calor, evapotranspiração e estresse hídrico", afirmou. Ele também ressalta a influência do Atlântico Tropical na distribuição das chuvas no Brasil.

No setor agrícola, o professor aponta que os impactos variam por região. "Nas regiões Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste, as culturas mais expostas tendem a ser soja, milho e algodão, especialmente nos estágios iniciais de desenvolvimento", disse. Já no Sul, o risco é o excesso de chuva. "Culturas como trigo, aveia e cevada podem sofrer com encharcamento do solo, doenças fúngicas e perdas de qualidade", explicou.

Caiche também chama atenção para os efeitos na pecuária, sobretudo em áreas mais secas. "Pode haver redução da oferta de pastagens e aumento do estresse térmico dos animais", destacou.

Sobre preços e inflação, ele avalia que o impacto depende da intensidade do fenômeno. "Se ocorrerem reduções significativas de produtividade em culturas como soja e milho, pode haver reflexos em toda a cadeia agroalimentar", disse. Segundo o especialista, o milho tem impacto direto nos custos de proteína animal, enquanto a soja influencia alimentação e exportações.

Apesar dos riscos, Caiche alerta para a necessidade de cautela nas projeções. "O Brasil possui elevada diversidade regional e produtiva, o que muitas vezes permite compensações entre perdas e ganhos", ponderou. Para ele, o principal efeito neste momento é o aumento da percepção de risco climático para a safra 2026/27, o que exige maior atenção de produtores, seguradoras e instituições financeiras.

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