Podcast do Correio

Pesquisadores explicam como redes de supermercados impactam rotina alimentar

Pesquisdores Juscelino Bezerra e Marcelo Agner detalharam os resultados da pesquisa sobre o impacto de grandes redes de mercado em países da América Latina

Acadêmicos da Universidade de Brasília (UnB) detalharam pesquisa que revelou como a expansão de supermercados tem influenciado a alimentação e a rotina dos moradores de grandes cidades. O professor do Departamento de geografia da UnB Juscelino Bezerra, pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e o doutor em geografia pela UnB e integrante do Laboratório Georedes Marcelo Agner comentaram o estudo ao Podcast do Correio. Autores do livro Supermercadização na América Latina, destacaram os principais pontos do estudo aos jornalistas Luiz Felipe e Sibele Negromonte. Toda a pesquisa recebeu financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF).

O levantamento foi desenvolvido entre 2022 e 2025 e analisou as estratégias adotadas por grupos varejistas nacionais e multinacionais na América Latina para influenciar os clientes, como modificação dos hábitos alimentares e no consumo de alimentos. Bezerra afirma que a pesquisa focou no processo de expansão das redes de supermercados, fazendo uma análise de como esse processo ocorre em diferentes cidades da América Latina. 

O professor comentou que o ponto inicial para a pesquisa foi uma curiosidade de viajante, enquanto estava de férias em La Paz, na Bolívia. "Eu percebi que era uma cidade tão grande e populosa, e praticamente não existia um supermercado na paisagem comercial. Pensei que aquilo era muito interessante e me perguntei como que a população tinha acesso a alimentos", disse Bezerra. Com essa nova perspectiva, Bezerra relatou que feiras e mercados públicos têm papel fundamental na rotina daquelas pessoas. No Brasil, segundo ele, essa prática tem se perdido. "Esses estabelecimentos têm a sua permanência desafiada por essas grandes empresas", observou o pesquisador. 

Assista:

Bíblia e sommelier

Em Brasília, a pesquisa teve início no Plano Piloto, seguindo para algumas regiões administrativas, como Taguatinga. Uma das diferenças mais gritantes, relatou o pesquisador, foram os serviços ofertados nos mercados de áreas nobres e de áreas mais simples. "Vimos desde mercados que têm propaganda de Bíblia, a mercados no Plano Piloto que têm chef de cozinha preparando pratos e sommelier para assessorar os clientes", comparou Juscelino Bezerra. 

Uma das premissas da pesquisa era fazer um estudo comparativo no segmento de varejo. Marcelo Agner morou em quatro países para reunir os dados necessários. O pesquisador traçou um paralelo entre o abastecimento do século passado para o século XXI. "Antes, era preciso ir a diferentes locais, como o açougue, verdurão e pequenos comércios para fazer as compras. Os supermercados trouxeram a vantagem de reunir tudo em um só lugar, acelerando muito o processo de compras e barateando os custos", explicou. 

Entretanto, esse processo, segundo os pesquisadores, não aconteceu de forma uniforme, tendo arranjos diferentes nas diferentes cidades analisadas. "No México, por exemplo, temos a presença muito grande de tianguis — mercados públicos — que dividem espaço com grandes supermercados, atendendo um público diferente, de renda diferente do público que frequenta os mercados", pontuou Agner. Em Lima e Santiago, acrescentou, os supermercados são mais restritos às classes mais elevadas, como médias e altas.

Os pesquisadores também explicaram como a quantidade de hipermercados afeta a dieta da população. "É consenso entre os nutricionistas que o nosso ambiente alimentar influi diretamente na nossa alimentação, com uma oferta muito grande de alimentos ultraprocessados", alertou.

O livro Supermercadização na América Latina será lançado amanhã, na Platô Livraria (CLS 405), a partir das 18h30, e contará com um bate-papo com os escritores.

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