PARANÁ

Juiz escreve poema em sentença sobre uso de imagem de funcionária

Magistrado fixou indenização de R$ 20 mil após concluir que trabalhadora teve imagem explorada em estratégia de marketing da empresa

Uma sentença da Justiça do Trabalho no Paraná chamou atenção pela forma incomum como foi redigida. Ao condenar uma ótica a pagar R$ 20 mil de indenização por uso indevido da imagem de uma ex-funcionária, o juiz Mauro Vasni Paroski encerrou a fundamentação com um poema de mais de duas páginas sobre a exploração da identidade da trabalhadora nas redes sociais.

Na sequência da fundamentação jurídica, Paroski afirmou que, embora a linguagem técnica fosse suficiente para justificar a decisão, ela "nem sempre alcança toda a dimensão humana da lesão examinada". Em seguida, inseriu o poema Da Imagem Digital – A Encarregada da Tarde, com versos que fazem referência ao ambiente digital, à cobrança por produção de conteúdo e à transformação da imagem da trabalhadora em instrumento de marketing.

Entenda o caso

Segundo a decisão, a empregada foi contratada como encarregada de loja, mas passou a administrar o perfil da empresa no Instagram. Entre as atribuições estava: criar conteúdos, gravar vídeos, fazer postagens e interagir com os clientes, utilizando de forma contínua a própria imagem, voz e identidade para promover os produtos da empresa. 

Embora a trabalhadora tivesse assinado autorização para o uso de imagem, o juiz entendeu que o documento não permitia uma exploração ilimitada da personalidade da funcionária. Na avaliação do magistrado, a exposição deixou de ser acessória e passou a integrar permanentemente a estratégia comercial da empresa, extrapolando os limites da autorização concedida. 

Para o juiz, houve violação aos direitos da personalidade da empregada, uma vez que sua imagem passou a ser utilizada como ativo econômico da empresa. Por isso, fixou indenização por danos morais.

Além da indenização, a sentença também reconheceu outras irregularidades, como transporte de valores, assédio moral, pagamento de horas extras e o direito à rescisão indireta do contrato de trabalho, acolhendo parcialmente os pedidos da ex-funcionária.

Leia o poema na íntegra

"Da Imagem Digital

A Encarregada da Tarde


Julho é o mês mais cruel, gerando

Cliques na tela fria, misturando

A lógica do estoque e o desejo do algoritmo,

Despertando a voz cansada com a luz do ring light.

A contabilidade dos dias não se faz mais em moedas,

Mas no eco de uma imagem que não nos pertence.

'É preciso sorrir para a câmera, senhora',

Disse o preposto, entre relatórios de metas.

Eu sou a encarregada do balcão e do vazio.

Trago as chaves da loja no bolso esquerdo,

E no direito, as credenciais de um templo fantasma.


O Mercado dos Rostos Ocos


Entre a gerência de pessoas e o balanço do mês,

Cai a sombra.

Entre o estoque de óculos e lentes e o story de quarenta segundos,

Cai a sombra.

Pois o Reino pertence ao algoritmo.

Não é uma colaboração eventual, um susto, um espasmo;

É o gotejar diário da cobrança, a gota d'água na rocha.

------- ouviu o murmúrio nos corredores:

'Grave mais um vídeo, faça mais uma pose, interaja com o vácuo'.

E a imagem, desprendida do corpo, viaja de província em província,

Estéril para quem a gerou, multiplicada em outras vitrines virtuais,

Enquanto o corpo que a gerou permanece estático,

Aguardando o fechamento do caixa.


A Cláusula do Vazio


Assinamos o papel. Oh, sim, assinamos o consentimento.

Uma assinatura genérica para entregar o sopro e a face.

Mas a boa-fé objetiva chora nas margens do texto legal.

O que é a voz quando se torna ativo econômico?

O que é a identidade quando serve apenas para captar o cliente?

Nós somos os influenciadores ocos,

Nós somos os empregados empalhados,

Inclinados juntos, com as cabeças cheias de hashtags.

Ai de nós!

O art. 456 tentou nos cobrir com seu manto cinza,

Mas a alma qualitativamente diversa escapou pelas frestas.

O enriquecimento sem causa edificou sua torre,

E o equilíbrio do contrato desmoronou,

Não com um estrondo, mas com um preço nunca pago.


Morte pela Luz da Tela


Vinte mil moedas de prata para remediar a dignidade partida.

O dano é in re ipsa, oculto nas batidas do coração digital.

A imagem flutua no Instagram, um reflexo sem espelho,

lembrando que o mercado consumiu o que era sagrado.

'Shanti... Shanti... Shanti...'

O feed foi atualizado.

A loja está fechada”.

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