TRAGÉDIA EM VINHEDO

Cenipa aponta 'normalização de desvios' pela Voepass em queda de avião

Relatório final indica acúmulo de gelo como causa técnica e revela falhas na manutenção e na rotina operacional da companhia aérea

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou, nesta quinta-feira (23/7), o relatório final sobre a queda do avião da Voepass no município paulista de Vinhedo, ocorrida em 9 de agosto de 2024. A principal conclusão do documento é que a companhia aérea operava sob uma "cultura de normalização de desvios" em suas condutas operacionais e de manutenção.

A tragédia com o turboélice ATR 72-500, que decolou de Cascavel, no Paraná, com destino a Guarulhos, em São Paulo, resultou na morte de todas as 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e 4 tripulantes — e permanece como o maior acidente da aviação brasileira desde 2007.

Segundo o investigador do Cenipa, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, as investigações revelaram que pilotos e mecânicos da empresa possuíam o hábito de não relatar problemas técnicos nas aeronaves.

Além disso, constatou-se que auxiliares de mecânicos executavam tarefas sem a devida supervisão e que as equipes de manutenção rotineiramente reparavam aviões utilizando componentes de outras aeronaves em pane ou até peças que já apresentavam falhas.

O relatório é fruto de uma análise que incluiu o estudo de mais de 15 mil voos da mesma frota, testes em simuladores, um voo experimental e a perícia detalhada das caixas-pretas e motores.

No aspecto técnico, a aeronave entrou em um movimento de "parafuso chato" após sofrer um estol (perda de sustentação) causado pelo acúmulo de gelo nas asas. Dados das caixas-pretas mostraram que alertas sobre o desempenho prejudicado pelo gelo surgiram na cabine menos de dois minutos antes da queda, e os pilotos já haviam comentado sobre problemas no sistema antigelo no início do voo.

O documento final do Cenipa, que possui caráter estritamente preventivo e não aponta culpados, passou por revisão de autoridades da França e do Canadá, responsáveis pelo projeto da aeronave e dos motores, respectivamente.

Enquanto o Cenipa encerra sua apuração técnica, a Polícia Federal caminha para a conclusão de um inquérito criminal que poderá embasar indiciamentos pelo Ministério Público Federal.

Os familiares das vítimas, que acompanharam a apresentação em Brasília, planejam ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais contra a Voepass e eventuais instituições omissas.

Em resposta, a Voepass reafirmou que sua frota sempre esteve "aeronavegável" e que segue prestando apoio psicológico aos parentes das vítimas. A repercussão do caso também gerou avanços legislativos, como o projeto de lei aprovado na Câmara em março de 2026, que obriga as aéreas a fornecerem assistência integral a famílias atingidas por desastres.

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