SAÚDE PÚBLICA

Paciente encontra larvas em ferida durante internação em hospital do Recife

Família alega que houve negligência por parte Hospital da Restauração; Ministério Público pediu de esclarecimentos à unidade

Um paciente de 38 anos encontrou larvas de moscas, conhecidas popularmente como "tapurus", em uma ferida na perna esquerda enquanto estava internado no Hospital da Restauração (HR), no Recife.

Daniel Marinho Guedes sofreu um atropelamento em março, passou por quatro internações desde então e aguarda uma cirurgia para tratar uma infecção no osso da perna. 

O homem está internado desde 14 de agosto, segundo o irmão, Tiago Marinho. Durante a quarta permanência no hospital, foram encontradas larvas na lesão que fica próxima aos fixadores externos circulares de Ilizarov, estruturas metálicas utilizadas para estabilizar fraturas complexas. 

A família levou o caso ao MPPE, que acompanha a situação por meio de uma Notícia de Fato instaurada para apurar denúncias de negligência médica e falhas na assistência.

Na segunda-feira (24/8), conforme informou o MPPE ao Correio, a promotora responsável pelo procedimento se reuniu com a direção do Hospital da Restauração, quando o caso de Daniel esteve entre os assuntos discutidos. Nesta terça-feira (25/8), o Ministério Público afirmou ao Correio que reiterou o pedido de esclarecimentos à unidade.

Atropelamento deixou 11 fraturas

Daniel foi atropelado em 22 de março, na Avenida Pan Nordestina, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife. O acidente provocou sete fraturas na perna esquerda, quatro na direita e outra lesão em um dos ombros.

No mesmo dia, ele foi levado ao Hospital da Restauração e passou por uma cirurgia de emergência para a colocação de fixadores provisórios nas pernas. Segundo Tiago, a orientação inicial era que o equipamento permanecesse por aproximadamente 15 a 30 dias, antes de uma nova etapa do tratamento.

O prazo, entretanto, teria se prolongado por meses. De acordo com o irmão, Daniel permaneceu com os fixadores por cerca de 75 a 85 dias, período em que a família começou a apresentar reclamações à ouvidoria e ao Ministério Público. Posteriormente, os dois membros inferiores passaram a contar com fixadores externos circulares de Ilizarov. 

Tiago afirma que, durante esse período, Daniel recebeu medicamentos, mas, na avaliação da família, não passou pelos exames que seriam necessários para acompanhar a evolução do quadro.

"E aí começou a briga, a confusão. Porque, por exemplo, o que era para passar 15, 30 dias no máximo, passou aí 75, 85 dias, se não me engano, mais ou menos. Isso depois de muita reclamação na ouvidoria, muita reclamação no Ministério Público, porque nesse meio tempo, ele ficou lá largado com os fixadores, apenas tomando medicamento e sem fazer exames necessários."

Ainda segundo o irmão, depois de aproximadamente três meses de internação, Daniel recebeu alta em 6 de junho.

Infecção levou a novas idas ao hospital

A primeira internação terminou em 6 de junho. Menos de um mês depois, em 2 de julho, Daniel voltou ao Hospital da Restauração após apresentar sangramento e dores na perna esquerda. Foi durante essa passagem pela unidade que, segundo o relato apresentado no caso, os médicos identificaram uma osteomielite aguda na tíbia, infecção que atinge o tecido ósseo.

Daniel recebeu nova alta em 22 de julho. Quatro dias depois, em 26 de julho, precisou procurar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Caxangá, na Zona Oeste do Recife, e foi novamente encaminhado ao Hospital da Restauração. Na noite do dia seguinte, recebeu outra alta.

Na ocasião, Daniel relatou que teria ficado horas no corredor, sem receber medicamentos, comida ou atenção aos curativos.  Depois disso, o paciente voltou a procurar atendimento. Segundo Tiago, antes da quarta internação, Daniel chegou a passar três vezes por unidades de pronto atendimento e retornou quatro vezes ao Hospital da Restauração.

A quarta entrada ocorreu em 14 de agosto, após passagem pela UPA de Cruz de Rebouças, em Igarassu, também na Região Metropolitana do Recife. Desde então, Daniel permanece no hospital.

Larvas foram encontradas durante limpeza da ferida

Antes da internação mais recente, Daniel estava em uma clínica particular em Camaragibe, também na Região Metropolitana do Recife, onde, segundo seu relato, os curativos eram trocados todos os dias.

Ele afirma que, ao chegar ao Hospital da Restauração em 13 de agosto, o curativo não foi substituído naquele dia. A partir do dia seguinte, entretanto, as trocas teriam passado a ocorrer diariamente.

O primeiro episódio envolvendo as larvas ocorreu em 16 de agosto. Durante a troca do curativo, uma delas foi encontrada presa à gaze retirada da perna. Ainda de acordo com o paciente, a equipe fez a limpeza da região e localizou outras cinco larvas.

No dia seguinte, mais duas foram identificadas. Daniel registrou parte do procedimento em vídeo e, a partir de 17 de agosto, passou a receber medicamentos destinados ao combate às larvas.

A família levou o caso à Ouvidoria do Hospital da Restauração e ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Os familiares também solicitaram a transferência do paciente para outra unidade e a abertura de uma apuração sobre o atendimento.

Cirurgia é aguardada pela família

Segundo Tiago, a cirurgia indicada para o irmão deve envolver a retirada dos fixadores, uma limpeza profunda da região afetada e a coleta de material do osso. O objetivo é identificar a bactéria responsável pela infecção para definir o tratamento mais adequado.

A família afirma que Daniel também perdeu movimentos na parte inferior da perna esquerda e teme que o avanço da infecção resulte na necessidade de amputação.

"Se não tratar essa bactéria, ele vai correr o risco de perder a perna, porque a bactéria já está bem resistente ainda", revelou o irmão. 

O irmão de Daniel fez um apelo para que o jovem possa ele pelos procedimentos necessários para tratar o quadro e evitar a perda de movimentos. A família deseja que ele seja submetido à cirurgia, à limpeza da região afetada e aos exames que permitam identificar a bactéria, além da colocação dos fixadores e do início da fisioterapia, considerada fundamental para a recuperação dos movimentos da perna.

“Aí o que a gente pede é que o Daniel faça essa cirurgia, faça a limpeza necessária, faça o exame para detectar a bactéria, para fazer a detecção e depois colocar os fixadores, e fazer a fisioterapia, né? Porque o Daniel precisa fazer a fisioterapia."

Como as larvas podem aparecer em feridas

Os "tapurus" são larvas de moscas que podem se desenvolver em feridas abertas. A ocorrência está relacionada à deposição de ovos por determinadas espécies de moscas sobre a pele ou sobre uma lesão.

A situação não permite, por si só, concluir que houve uma falha no atendimento hospitalar. Uma ferida exposta também pode entrar em contato com moscas fora de uma unidade de saúde, inclusive durante o período em que o paciente está em casa.

A manutenção dos curativos e os cuidados de higiene são fatores relevantes para evitar esse tipo de ocorrência, mas o aparecimento das larvas não estabelece, isoladamente, quando ou onde ocorreu a contaminação.

O que é a osteomielite

Osteomielite é uma infecção que atinge o osso e pode ocorrer após uma fratura exposta, quando a lesão estabelece contato direto entre o tecido ósseo e o ambiente externo. Nesse tipo de situação, bactérias podem alcançar o osso e provocar a infecção.

O tratamento pode envolver medicamentos e, dependendo do quadro, uma cirurgia para a retirada de material ósseo. A análise desse material permite identificar o agente causador da infecção e orientar a escolha do tratamento mais adequado.

A infecção óssea e o aparecimento de larvas não são, portanto, manifestações necessariamente relacionadas. A presença de osteomielite não é, por si só, responsável pelo surgimento dos "tapurus".

O que diz o Hospital da Restauração

Em nota enviada ao Correio, o Hospital da Restauração informou que Daniel recebe assistência e acompanhamento de uma equipe multiprofissional. A unidade também afirmou que as decisões relacionadas a cirurgias e aos intervalos entre procedimentos obedecem aos protocolos assistenciais e aos critérios médicos.

Segundo o hospital, a continuidade do tratamento também depende da adesão do paciente ao acompanhamento e às orientações fornecidas pela equipe, de modo que a demora não poderia ser atribuída exclusivamente à unidade. A instituição acrescentou que acompanha tanto a condição clínica do paciente quanto a programação do procedimento pelas equipes responsáveis.

A família, no entanto, contesta a assistência prestada ao paciente. Segundo Tiago Marinho, irmão de Daniel, as respostas apresentadas pelo hospital às reclamações feitas pela família e ao Ministério Público não correspondem ao que ele afirma ter presenciado durante as internações.

"Quando o Ministério Público intima a Restauração, aí eles já fazem aquela resposta padrão, sabe? 'Daniel está sendo acompanhado por uma equipe multifuncional, etc., etc., etc.' Tudo balela", afirmou.

Procurada pelo Correio, a Secretaria de Saúde do estado do Pernambuco apenas confirmou o mesmo posicionamento já apresentado pelo Hospital da Restauração. 

Ministério Público cobra esclarecimentos 

Em nota enviada ao Correio, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) informou que acompanha o caso por meio da 11ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital, na área de Saúde. O procedimento, conforme MPPE, foi instaurado em 28 de julho, depois que o órgão recebeu a representação da família, para apurar denúncias relacionadas à assistência prestada ao paciente no Hospital da Restauração.

No mesmo dia, a promotora de Justiça Eleonora Marise Silva Rodrigues determinou o envio de um ofício de urgência à direção da unidade para solicitar esclarecimentos.

Segundo a nota, a primeira resposta do hospital foi encaminhada ao Ministério Público em 11 de agosto, por meio do coordenador adjunto da Ortopedia e Traumatologia. O documento informa que a investigação foi aberta para apurar "denúncias de negligência médica e falhas no tratamento do paciente Daniel Marinho Guedes da Silva, internado no Hospital da Restauração (HR)". 

O MPPE também relatou que novas denúncias apresentadas pela família levaram à expedição de outro ofício, em 17 de agosto. Entre os pontos apresentados estavam a ocorrência de miíase, infestação de feridas por larvas de moscas, e a possível ausência de assistência ortopédica ao paciente naquela data. A direção do hospital recebeu prazo de cinco dias para apresentar informações e demonstrar a adoção de medidas para solucionar os problemas apontados.

"Em face de novas denúncias apresentadas pela noticiante, apontando miíase e possível ausência de assistência ortopédica no dia 17 de agosto de 2026." O documento acrescenta que a direção do HR deveria apresentar "esclarecimentos detalhados e comprove a adoção imediata de medidas saneadoras".

Na segunda-feira (24/8), a atuação do Ministério Público avançou para uma reunião entre a promotora e a direção do Hospital da Restauração. O caso de Daniel esteve entre os assuntos discutidos no encontro, que também tratou de outras demandas relacionadas à unidade.

"Na data de ontem (24/08), a promotora de Justiça esteve em reunião com a direção do Hospital da Restauração, ocasião em que, entre outras demandas, foi discutido o caso do paciente Daniel Silva."

Nesta terça-feira (25), a promotoria voltou a cobrar informações do hospital. Segundo o órgão, "na data de hoje, reiterou-se o expediente ao HR, para que a unidade de saúde apresente esclarecimentos detalhados".

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