
Em 2025, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostraram que mais de 60 mil casos de maus-tratos ou de lesão corporal foram registrados contra crianças e adolescentes dentro dos próprios lares. Agora, o estudo “É só uma palmada?”, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), publicado nesta quinta (24/9), busca entender o que leva pais, mães e cuidadores a baterem nos filhos.
Pesquisadores entrevistaram mais de 200 famílias, além de lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção, nas cidades do Rio de Janeiro (RJ), Manaus (AM) e Recife (PE). O objetivo é identificar porque o castigo corporal contra crianças continua sendo uma prática nos lares brasileiros.
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Uma das justificativas mais presentes nas falas dos entrevistados pelo Unicef é de que palmadas, tapas e outros castigos físicos não são vistos como violência, mas sim como formas de educar as crianças. Nesse sentido, para muitas famílias, a criação dos filhos ainda é assunto exclusivo dos pais.
A falta de políticas públicas que levem assistência capacitada para os lares antes que a violência se concretize também é um dos fatores determinantes para esse cenário, de acordo com o estudo.
“Nosso estudo mostrou que o castigo corporal persiste em nossa cultura não apenas pela escolha de um pai, mãe ou cuidador, mas porque muitos ainda acreditam que bater é uma forma legítima de educar, disciplinar e corrigir”, explica Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil.
Sobrecarga materna
O estudo aponta um cenário desigual entre pais e mães na criação dos filhos, o que impacta a resposta dos responsáveis em momentos de tensão: as mães continuam no centro do controle parental cotidiano das famílias, enquanto a presença dos pais é limitada e centrada em questões disciplinares.
A sobrecarga do trabalho dentro e fora de casa e a falta de redes de apoio para as mães aparecem como mecanismos essenciais para compreender a dinâmica da violência em ambientes domésticos.
“Esse contexto se conecta com a sobrecarga relatada no nível individual pelas mães, que manifestam estresse, cansaço e uma reatividade emocional que têm origem, em parte, nessa distribuição desigual do cuidado”, aponta Luiza Teixeira. “Não se trata, aqui, de as mães ‘escolherem bater mais’, e sim do fato de a sobrecarga corroer a paciência e tornar a reação impulsiva mais provável”.
Para as mães mais jovens, a falta de autonomia e suporte é ainda mais latente. Em muitos casos, a responsabilidade da criação encontra apoio na figura das avós.
Crenças
O argumento de que uma criação rigorosa e com o uso do castigo corporal resulta em adultos disciplinados e responsáveis aparece em muitas falas apresentadas pelo estudo. Reforçadas ao longo de gerações, essas crenças acabam normalizando a violência parental, como aponta a pesquisa.
O discurso ganha força principalmente em ambientes marcados pela violência armada e pela insegurança, como no Rio de Janeiro. Expostas a cenários críticos, como as constantes operações policiais em comunidades cariocas, as famílias entrevistadas observam que a rigidez dentro de casa evita que os jovens se tornem vítimas em suas próprias comunidades.
A vontade de mudar
Apesar da normalização de atitudes violentas, a pesquisa identificou que muitos dos entrevistados, especialmente as mães jovens, demonstram arrependimento após episódios de agressão física e o desejo de construir relações familiares mais seguras.
Porém, o desejo de uma educação positiva ainda encontra barreiras na informação e na falta de suporte: Enquanto muitos pais buscam por orientação e suporte, a resposta institucional ainda é insuficiente. Campanhas contra o castigo corporal de crianças também são vistas como distantes pelos entrevistados em territórios vulnerabilizados.
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Para Luiza Teixeira, o estudo deixa evidente a falta de repertório nas famílias para que existam novas formas de educar as crianças. “Algumas famílias podem até concordar que não deveriam bater em suas crianças, mas diante da falta de alternativa, recorrem ao que conhecem: a punição ou, quando muito, evitar lidar com a situação”, explica.
Entre as recomendações da Unicef para o cenário, estão a capacitação de profissionais que atendem as famílias, a mobilização dos homens no cuidado das crianças, e campanhas voltadas para alternativas práticas.
O que diz a lei?
Nos últimos dez anos, o Brasil avançou no campo legislativo para a proteção de crianças dentro dos lares. O Marco Legal da Primeira Infância, que estabelece diretrizes para a formulação e implementação de políticas públicas, e a Política Nacional de Cuidados, que promove a corresponsabilização social e entre homens e mulheres pela provisão de cuidados, são exemplos do recente esforço institucional.
Já a Lei nº 14.826/2024 institui que o direito ao brincar e a parentalidade positiva são estratégias de prevenção à violência. Assim o estudo revela que, apesar de existirem, as políticas públicas voltadas ao tema ainda são recentes e precisam entrar de forma prática no dia a dia da população.
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