Entrevista

"O jornalismo não tem o direito de perder a cabeça", diz Marcelo Rech

O presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ) também destacou o crescimento da campanha do Dia Mundial do Jornalismo no país, que chega neste ano a 132 participantes, 42 a mais do que no ano passado.

Marcelo Rech, presidente-executivo da ANJ -  (crédito: Augusto Coelho/Comunicâmera/Divulgação ANJ)
Marcelo Rech, presidente-executivo da ANJ - (crédito: Augusto Coelho/Comunicâmera/Divulgação ANJ)

O presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, defende o papel do jornalismo profissional diante do avanço da inteligência artificial (IA) e da desinformação. Para ele, a imprensa continua sendo uma ponte entre pontos de vista divergentes e uma vitrine para diferentes visões de mundo, papel que considera essencial para a democracia e a harmonia social.

Rech também alerta para a apropriação de conteúdos produzidos por jornais e portais para alimentar sistemas de IA e defende regras que garantam o reconhecimento e a sustentabilidade do jornalismo na era digital.

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Entrevista|Marcelo Rech

1. Marcelo, a campanha do Dia Mundial do Jornalismo cresceu muito desde seu lançamento, em 2018. Hoje, já são mais de mil participantes em todo o mundo, entre veículos de comunicação, organizações de defesa das liberdades e dos direitos civis e universidades, além de rádios, TVs, sites e jornais. No Brasil, o dado mais recente aponta 132 participantes, 42 a mais do que no ano passado, com a presença também de universidades, como a ESPM. A que se deve esse avanço? As pessoas estão compreendendo melhor a importância do jornalismo e a forma como ele é produzido? Podemos falar em um novo momento para o jornalismo, sobretudo no Brasil?

Acredito que os veículos e entidades passaram a entender que a compreensão do valor do jornalismo para a sociedade não ocorre por gravidade, mas que precisa ser demonstrada na prática e em movimentos que ilustrem nossos argumentos, como o Dia Mundial do Jornalismo.

Num mundo ideal, não haveria necessidade de se celebrar o jornalismo em uma data, mas o fato é que nos últimos anos a instrumentalização das narrativas a favor de interesses nem sempre claros se esforça para desacreditar quem faz a verificação de versões, no caso o jornalismo profissional, para que as distorções e manipulações avancem sem obstáculos.

Por isso, a defesa do jornalismo se tornou tão relevante nas sociedades democráticas e, principalmente, para fazer frente a estratégias populistas e autocratas.

2. A confiança no jornalismo aparece hoje como uma questão central. Ao mesmo tempo, pouca gente conhece todo o trabalho realizado antes da publicação de uma notícia: apuração, checagem, consulta a documentos, confronto de versões, edição, revisão e correção de erros. O jornalismo precisa explicar melhor seu próprio método? Mostrar como uma reportagem é produzida pode ajudar a recuperar a confiança do público?

Sim, sem dúvida. A demonstração da prática diária é um elemento importante para a transparência. Mostrar como fazemos ajuda a desmontar também as teorias da conspiração que fazem parte do movimento de desconstrução do jornalismo profissional.

3. A inteligência artificial amplia o acesso ao conhecimento e oferece novas ferramentas para as redações, mas também facilita a produção de conteúdos falsos, altera a distribuição da informação e levanta questões sobre autoria, direitos autorais, uso de conteúdos jornalísticos e remuneração. Como a ANJ vê essa relação entre jornalismo e inteligência artificial? Quais regras precisam existir para permitir inovação sem comprometer direitos, sustentabilidade e a integridade da informação?

Entendemos que as ferramentas tecnológicas devem ser usadas para aprimorar o jornalismo. Em uma reportagem investigativa, por exemplo, o uso de IA pode acelerar a busca em milhares de documentos de evidências de um malfeito, o que, de outra forma, seria humanamente impossível.

No entanto, da porta para fora das redações vemos a apropriação ilegal e imoral de conteúdos jornalísticos para alimentar as IAs. Cerca de um terço de todo o conteúdo de IA nasce direta ou indiretamente das propriedades jornalísticas, que também são as maiores produtoras de conteúdos digitais novos.

Os modelos de IA pagam fortunas por talentos, chips, data centers e energia, mas não querem pagar pela sua matéria-prima básica, que é informação de qualidade. Ora, sem jornalismo profissional e sem informação íntegra, as IAs vão produzir cada vez mais obras de ficção quando dão respostas aos seus usuários. Ou seja, as IAs deveriam estar na linha de frente do reconhecimento e da sustentabilidade do jornalismo, e não o contrário.

4. O mundo vive um período marcado por desinformação, polarização, ataques a jornalistas e tentativas de transformar adversários políticos ou grupos sociais em inimigos. Em vários países, a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa também sofrem pressões. Qual é o papel do jornalismo nesse ambiente? Como preservar o direito à divergência, o pluralismo e uma base comum de fatos sem transformar a imprensa em participante das disputas políticas?

O jornalismo sempre foi a ponte entre pontos de vista divergentes, uma espécie de vitrina para visões de mundo distintas. Essa pluralidade é essencial para a democracia e a harmonia social. Quando os pontos de vista se trancaram em bolhas nas redes sociais, a radicalização e o ódio social ganharam terreno e passaram a ver o jornalismo como inimigo.

No longo prazo, todos aqueles preocupados com a sanidade mental do planeta devem trabalhar pelo que chamamos de educação midiática, o que inclui a compreensão e o domínio da sociedade sobre os mecanismos tecnológicos e psicológicos que manipulam opiniões individuais e coletivas.

Não por acaso, os países escandinavos, onde a educação para a mídia é parte do ensino, são os menos sujeitos à desinformação.

5. A transformação digital também atingiu o modelo econômico do jornalismo e colocou plataformas e algoritmos entre quem produz informação e quem chega até ela. Ao mesmo tempo, jornais regionais, rádios, TVs, sites, veículos independentes e iniciativas locais continuam cumprindo funções distintas. Como garantir a sustentabilidade dessa diversidade? O jornalismo local e regional corre um risco maior nesse novo ambiente?

O jornalismo local sofre muito com a concorrência das IAs, mas por lidar com conteúdos essencialmente únicos tende a sentir um efeito retardado do impacto negativo das IAs.

Mas ninguém está imune. Para enfrentar esse novo Mundo, quatro caminhos começam a ser trilhados: tecnológico (bloqueio de robôs), judicial (ações contra uso indevido), negocial (acordos para uso de conteúdos) e regulatório (leis que reconheçam os direitos de autor do jornalismo profissional).

A combinação destes caminhos, por vezes em paralelo, pode trazer alguma ordem para um ambiente caótico de apropriação indevida de conteúdos dos publishers, mas o ideal seria o reconhecimento voluntário das plataformas do valor do jornalismo para a qualidade da própria IA.

6. O jornalismo se relaciona a temas muito maiores, como crise climática, ciência, corrupção, guerras, direitos humanos, desigualdades e educação midiática. A ideia parece ser a de que uma sociedade precisa compartilhar ao menos uma base factual para conseguir discordar e continuar conversando. O jornalismo ainda consegue cumprir esse papel? E o que precisa mudar nas redações e também na relação do público com a imprensa para essa conversa continuar?

Sim, em ambientes tumultuados como os que vivemos hoje, o jornalismo não tem o direito de perder a cabeça.

No sanatório geral produzido pelas redes sociais, nosso papel é de psiquiatra, de ajudar a consertar o que está doente. E as sociedades estão em grande parte hipnotizadas por conteúdos apelativos, conspirativos, extremados e falsos.

Para ajudar a quebrar o encanto, precisamos de uma nova revolução da linguagem jornalística, mais contemporânea. Texto para o que precisa de texto, como uma entrevista ou os bastidores de algum evento político.

Mas temos de adotar estéticas mais ágeis de vídeos curtos e dominar as redes sociais, sem nunca resvalar para a armadilha da apelação. Só não podemos jogar a toalha. As sociedades doentes precisam de nós.

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postado em 29/09/2026 22:14 / atualizado em 30/09/2026 00:54
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