ALÉM DO IPIRANGA

Mito da elite esconde lutas populares na Independência do Brasil

Além do heroísmo imperial, a emancipação do país envolveu conflitos nas províncias e ampla participação das classes populares

Dom Pedro I, às margens do Ipiranga, ergue a espada e proclama a Independência. Ao lado dele, José Bonifácio articula os rumos políticos do novo país, enquanto Dona Leopoldina também ocupa lugar no processo. A cena foi repetida em pinturas, livros didáticos, monumentos e celebrações oficiais até se tornar uma das imagens mais reconhecíveis do país

Ou pelo menos é assim que a história costuma ser contada. A participação de Dom Pedro, José Bonifácio e Leopoldina foi, de fato, importante para o projeto político que venceu em 1822. A questão está em transformar esses nomes e, sobretudo, o príncipe, nos protagonistas quase exclusivos de um processo muito mais amplo. 

A professora de História do Brasil Império da Universidade de Brasília (UnB) Neuma Brilhante explica que a historiografia tradicional “reduziu a Independência a um ato de vontade imperial, apoiado por uma corte restrita, retratando a emancipação quase como um desdobramento natural e pacífico sob a tutela da dinastia de Bragança”. Para ela, essa interpretação deixa de fora justamente os conflitos e os diferentes projetos de país que estavam em disputa naquele momento. 

A Independência não foi obra de um só homem

As pesquisas das últimas décadas, segundo Neuma, têm mostrado uma realidade bem diferente daquela representada pela cena do Ipiranga.

“A versão triunfante de uma monarquia centralizada, constitucionalista e herdeira do Império luso-brasileiro foi apenas uma entre várias propostas em concorrência”, afirma. 

Nesse processo, o papel de Dom Pedro e José Bonifácio não desaparece, mas passa a ser compreendido dentro de uma disputa política mais ampla. O mérito dos dois, diz a historiadora, esteve na capacidade de “costurar alianças estratégicas” em meio às pressões que vinham das províncias e das Cortes de Lisboa. 

A professora também chama atenção para o papel das mobilizações populares nesse processo. “Sem ignorar a legitimidade e o peso simbólico do príncipe regente na coesão do território, é indispensável reconhecer que a emancipação foi impulsionada pelas agitações populares e pelas dinâmicas provinciais que forçaram os rumos do movimento”, afirma. 

A revisão dessa narrativa não significa apenas trocar os personagens que aparecem no centro da história. Para Neuma, concentrar a explicação em figuras individuais, sejam elas conhecidas ou pouco lembradas, mantém a mesma lógica personalista que marcou a construção da memória sobre a Independência.

Segundo ela, líderes podem ter papéis relevantes, mas não agem isoladamente. 

“Os processos históricos são complexos, multifacetados e atravessados pela contingência; líderes excepcionais existem e desempenham papéis relevantes, mas atuam dentro de limites e pressões coletivas.” 

No caso brasileiro, isso significa olhar para as tropas, as milícias e as populações urbanas, que, segundo a historiadora, tiveram atuação determinante e chegaram a pressionar as próprias elites políticas e militares nas decisões tomadas durante o processo. 

Quem ficou fora do quadro

O historiador Jurandir Malerba, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), segue por uma linha semelhante ao questionar a centralidade dos chamados “grandes homens”. Para ele, “a memória da independência foi produzida por uma Historiografia conservadora, monarquista e bragantina, que continua influente até hoje”. 

Essa construção, afirma, atribuiu a “grandes homens” o protagonismo no movimento e consolidou uma leitura da Independência baseada nos chamados “varões fundadores da nação”. 

Malerba ressalta, porém, que ampliar essa memória não significa apenas substituir os antigos protagonistas por outros indivíduos. 

“Pesquisas têm revelado casos interessantíssimos de subalternizados (mulheres, indígenas, escravizados) que subverteram o lugar imposto. Mas a história não se resume a sujeitos; não basta centrar o foco em indivíduos, pois há outras forças, estruturais, atuando nos processos.” 

Para o historiador, olhar apenas para personagens excepcionais pode fazer com que continuidades importantes sejam deixadas de lado. 

Essa perspectiva ajuda a explicar por que tantos grupos aparecem apenas como coadjuvantes na memória do 7 de Setembro. Neuma aponta que o reconhecimento da pluralidade dos atores sociais envolvidos é uma das principais mudanças trazidas pelos estudos sobre o período. 

“O verdadeiro divisor de águas na compreensão desse período foi o reconhecimento da pluralidade dos atores sociais envolvidos: as elites locais com interesses divergentes, as populações indígenas, a população livre pobre, as pessoas negras escravizadas ou libertas e as mulheres.” 

Mulheres também fizeram a Independência

Entre esses grupos, as mulheres ocupam um espaço que vai muito além das poucas personagens que conseguiram atravessar a memória nacional. Neuma recorre às pesquisas da historiadora Lucia Maria Bastos Pereira das Neves para mostrar que a participação feminina foi “ampla, diversa e horizontal”, envolvendo “desde damas das elites letradas até setores populares compostos por mulheres livres, libertas, escravizadas e mestiças”. 

A atuação também não ficou restrita ao ambiente doméstico. Segundo Neuma, as mulheres participaram de “manifestações de rua”, integraram “redes de sociabilidade política”, produziram e distribuíram “panfletos e pasquins com ideias emancipatórias” e ofereceram suporte logístico e financeiro às tropas, especialmente na Bahia. 

A historiadora destaca que essas trajetórias permitem compreendê-las como “sujeitos políticos conscientes e transformadores”, e não apenas como personagens que acompanharam homens envolvidos na política ou nos combates. 

Liberdade em disputa

A população negra também esteve diretamente envolvida nas disputas que levaram à separação de Portugal. De acordo com Neuma, homens negros compuseram “a base dos batalhões militares e das milícias populares”, especialmente durante as lutas na Bahia. Ao mesmo tempo, a instabilidade política foi aproveitada por pessoas escravizadas e libertas para negociar alforrias, organizar insurreições e promover fugas. 

Para além de participar militarmente dos conflitos, essa população também atribuiu seus próprios significados às ideias que circulavam naquele momento. “As ideias radicais de ‘liberdade’, ‘constituição’ e ‘soberania’ que circulavam nas ruas ganharam reinterpretações concretas entre as pessoas escravizadas, que enxergaram na ruptura com Portugal uma oportunidade real de combater a própria escravidão”, afirma Neuma. 

O 7 de Setembro não aconteceu só no Ipiranga

A geografia dessa história também é maior do que a imagem do Ipiranga sugere. As disputas não terminaram no momento representado pela pintura. Neuma destaca que a guerra pela emancipação se estendeu até 1823 em províncias como Bahia, Maranhão e Pará e que as tensões continuaram nos anos seguintes. 

“Mais do que procurar ‘heróis esquecidos’, o caminho mais profícuo é analisar a participação dos múltiplos grupos sociais que disputaram concretamente os rumos, os contornos e o significado da soberania do Brasil.” 

Independência(s)

É também preciso olhar para a maneira como essa história foi transformada em memória. Aline Montenegro Magalhães, doutora em História Social pela UFRJ e docente no Museu Paulista da USP, propõe justamente deslocar o olhar do 7 de Setembro como acontecimento único.

“Enquanto continuarmos falando de Independência (no singular), no dia 7 de setembro, data escolhida como oficial a ser celebrada com feriado e tudo no nosso calendário cívico, não teremos muito espaço para conhecermos e divulgarmos outros personagens e grupos que contribuíram para a consolidação do processo de emancipação política do Brasil que eu chamaria Independências (no plural).”

Entre os exemplos citados por Aline estão os caboclos de julho e personagens ligados à Independência na Bahia, como Maria Felipa, Maria Quitéria e Joana Angélica. A mudança de plural não é apenas uma questão de nomenclatura. Ela permite considerar que diferentes regiões e grupos viveram e participaram da emancipação de maneiras distintas.

Para Aline, parte dessa diversidade acabou escondida pela própria construção da memória nacional. 

“O desafio é justamente lidar com uma memória histórica que foi muito bem construída pelo Estado, com criação de imagens, feriados nacionais e exaltação a personagens que são representativos de uma história da emancipação política do país por uma via pacífica.” 

A historiadora ressalta que “as independências não foram pacíficas, mas marcadas por tensões e conflitos que geralmente não estão visíveis nos museus”. 

Como o Brasil escolheu seus heróis

Os museus, nesse sentido, não são apenas lugares onde a memória da Independência é preservada. Também são espaços onde essa memória pode ser questionada. Aline lembra que instituições como o Museu Histórico Nacional e o Museu Paulista trabalharam durante décadas com representações centradas em personagens como Dom Pedro I, Dona Leopoldina e José Bonifácio. 

Hoje, segundo ela, esses espaços também têm procurado apresentar ao público como essas imagens foram produzidas, quais escolhas estiveram envolvidas e de que maneira foram apropriadas posteriormente.

A própria cena mais conhecida do 7 de Setembro passa a ser vista de outra maneira quando se observa sua trajetória. No Museu Paulista, explica Aline, o visitante pode encontrar não apenas a pintura “Independência ou morte”, mas também informações sobre “como foi produzido, as escolhas dos agentes, as circunstâncias históricas de sua confecção e circulação e diversas apropriações, inclusive contemporâneas, em filmes e Gibis”.

O que foi, o que fica

O questionamento, então, não termina quando novos personagens entram no quadro. Para Malerba, há uma segunda camada que precisa ser considerada: aquilo que não mudou com a separação política. 

“Há uma tendência nas análises da Independência de se atribuir muita ênfase às rupturas, negligenciando-se que as forças mais decisivas nela foram conservadoras. Parece imperioso olhar também as continuidades, as invariâncias, o que não mudou com a separação política entre Brasil e Portugal”, afirma. 

É por isso que, na avaliação do historiador, “jogar luz em heróis e heroínas deixa na sombra temas decisivos organicamente conexos à Independência”. Em sua leitura, compreender o período também exige observar estruturas relacionadas à terra, à escravidão e à organização da sociedade, em vez de limitar a explicação às trajetórias individuais.  

A imagem de Dom Pedro às margens do Ipiranga continua sendo parte da história. O que muda é o tamanho do quadro. Ao redor daquele instante existem guerras, mobilizações, disputas provinciais, mulheres, negros escravizados e libertos, indígenas, populações pobres, tropas, milícias e diferentes projetos para o país. Há também uma história posterior sobre como o Brasil decidiu transformar tudo isso em uma única data e em alguns poucos personagens.

Ampliar esse quadro também muda a forma de contar o 7 de Setembro. Não se trata de substituir um herói por outro, mas de reconhecer que a Independência nunca coube inteiramente naquela pintura. Como resume Neuma, a questão que permanece é outra: “qual história da Independência interessa ao presente e de que forma as disputas políticas contemporâneas condicionam a nossa leitura do passado?”

 

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