Na língua do povo Pemon, tepui significa “casa dos deuses”. O Monte Roraima é o mais alto desse grupo de montanhas tabulares do Escudo das Guianas, formadas entre 1,7 e 2 bilhões de anos no Pré-Cambriano. Chegar ao topo a 2.810 metros de altitude exige dias de caminhada por savanas, rios e paredões verticais na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana.
Uma montanha que já era velha quando os dinossauros surgiram
O platô do Monte Roraima é composto por arenito quartzítico da chamada Formação Roraima, com 98% de grãos de sílica. A erosão ao longo de centenas de milhões de anos isolou blocos de rocha e criou mesas naturais cercadas por falésias de até mil metros. Esse isolamento funciona como uma ilha biológica: cerca de 35% das plantas do topo são endêmicas e não existem em nenhum outro ponto do planeta.
Entre as espécies exclusivas estão plantas carnívoras adaptadas ao solo pobre em nutrientes e o sapinho preto Oreophrynella quelchii, que não salta. O cenário inspirou Arthur Conan Doyle a escrever o romance O Mundo Perdido em 1912 e, décadas depois, serviu de referência visual para o filme Up: Altas Aventuras, da Pixar.

O que existe no topo do Monte Roraima?
Após três dias de subida, o platô revela um labirinto de rochas negras esculpidas pelo vento, cortadas por riachos gelados e cobertas por líquens. As atrações exigem dias de exploração com guia.
- Vale dos Cristais: extensão coberta por cristais de quartzo branco e rosado que brilham sob o sol. É proibido retirar qualquer pedra.
- Jacuzzis: piscinas naturais de águas geladas entre rochas, com fundo forrado de cristais. O banho gelado renova as energias após horas de trilha.
- El Fosso: cratera profunda com lago acessível por gruta subterrânea ou salto direto na água, quando o nível permite.
- La Ventana: abertura na rocha que emoldura o tepui vizinho Kukenán e um abismo de tirar o fôlego.
- Marco da Tríplice Fronteira: pirâmide a 2.734 metros onde se encontram Brasil, Venezuela e Guiana.
- Pedra Maverick: ponto culminante do tepui, a 2.810 metros, batizado pela semelhança com o veículo da Ford.
O topo do mundo reserva paisagens colossais que desafiam a nossa percepção de magnitude. O vídeo é do canal Rolê Família, com mais de 250 mil inscritos, e apresenta uma expedição completa pelo Monte Roraima, incluindo trilhas e curiosidades:
Como funciona o trekking e quem pode fazer?
O acesso ao topo acontece pelo lado venezuelano. A trilha parte da aldeia indígena de Paraitepuy, no Parque Nacional Canaima, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1994. São entre 80 e 100 km de caminhada (ida e volta), com duração de 7 a 9 dias dependendo do roteiro escolhido. A subida leva três dias, a descida dois, e o restante é dedicado à exploração do platô.
É obrigatório contratar agência com guias indígenas credenciados. Os pacotes incluem transporte, alimentação, barracas, cozinheiro e carregadores. O trekking é classificado como moderado a difícil. Preparo físico é fundamental: caminhadas longas com mochila, treinos de subida e fortalecimento de membros inferiores devem começar pelo menos dois meses antes da expedição.

Quem protege o Monte Roraima nos três países?
No Brasil, o Parque Nacional do Monte Roraima foi criado em 1989 e protege 116.747 hectares de savana e floresta amazônica. A gestão é compartilhada entre ICMBio, Funai e a comunidade Ingarikó, já que toda a área está sobreposta à Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Na Venezuela, o tepui integra o Parque Nacional Canaima, com 3 milhões de hectares e mais de 70 tepuis. Para os povos Pemon, Ingarikó e Macuxi, a montanha é a Casa de Makunaima, herói criador dos índios caribes.
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Quando o clima favorece a expedição ao tepui?
A base do Monte Roraima tem clima tropical, mas o topo é imprevisível. Sol, chuva e neblina podem se alternar em poucas horas. À noite, a temperatura pode chegar perto de 0°C mesmo próximo à linha do Equador.
Na base (Pacaraima/Santa Elena), as temperaturas variam entre 20°C e 33°C o ano inteiro. Consulte a previsão atualizada no Climatempo.

Como chegar ao Monte Roraima saindo de Boa Vista?
O ponto de partida é o Aeroporto Internacional de Boa Vista, que recebe voos de Brasília, Manaus e outras capitais. De lá, são 220 km pela BR-174 até Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Após os trâmites migratórios, segue-se até Santa Elena de Uairén e depois em veículos 4×4 até Paraitepuy, onde começa a caminhada. Para entrar na Venezuela, basta apresentar RG físico dentro da validade ou passaporte. Vacina contra febre amarela com certificado internacional é obrigatória.
Suba onde três países se encontram acima das nuvens
O Monte Roraima não é um passeio de fim de semana. É uma jornada por uma das formações mais antigas da Terra, onde cada passo revela algo que não existe em nenhum outro lugar do planeta. Dos cristais de quartzo sob os pés ao silêncio absoluto acima da neblina, a montanha entrega uma experiência que transforma quem chega ao topo.
Você precisa encarar essa trilha e pisar nas rochas que já eram velhas quando a vida na Terra ainda era microscópica.







