Mais de 40 toques diferentes saem das torres de São João del Rei para anunciar missas, festas, lutos e até incêndios. Pelo som do sino, o morador sabe se quem morreu era homem ou mulher. Fundada no início do século XVIII às margens do Rio das Mortes, a “cidade “Terra do Sino” mineira preserva 700 imóveis tombados, duas orquestras bicentenárias e uma Maria Fumaça que liga passado e presente em 12 km de trilhos.
Do ouro ao comércio sem nunca virar cidade fantasma
O povoado surgiu entre 1704 e 1705, durante a corrida do ouro, como entreposto entre Paraty e as cidades mineradoras do centro de Minas Gerais. A descoberta de ouro na própria região transformou o arraial em um dos mais ricos da capitania. O nome homenageia São João Batista e a coroa portuguesa.
Quando o ouro escasseou, a maioria das vilas mineiras entrou em declínio. São João del Rei seguiu caminho oposto: virou centro comercial, recebeu a Estrada de Ferro Oeste de Minas em 1881 (inaugurada por Dom Pedro II) e manteve vitalidade econômica que se reflete até hoje nas fachadas ecléticas misturadas ao casario colonial. Em 2007, a cidade foi eleita Capital Brasileira da Cultura.

A linguagem dos sinos e a orquestra que toca desde 1776
A tradição sineira de São João del Rei é reconhecida pelo IPHAN como patrimônio imaterial do Brasil. Os repiques usam no mínimo três sinos que “conversam” entre si: o menor faz a marcação, o médio “pergunta” e o grande “responde”.
A Orquestra Lira Sanjoanense, fundada em 1776 por José Joaquim de Miranda, é reconhecida pela UNESCO como a mais antiga das Américas em atividade contínua. Formada hoje por cerca de 80 músicos voluntários, realiza 272 apresentações por ano nas igrejas do centro. A Orquestra Ribeiro Bastos, de 1790, mantém a mesma tradição. Ambas executam repertório sacro dos séculos XVIII e XIX em missas semanais, sem interrupção há mais de dois séculos.
São João del-Rei, em Minas Gerais, é uma das cidades históricas mais importantes e vibrantes do Brasil. O vídeo do canal “De fora em Juiz de Fora” apresenta curiosidades fascinantes que misturam história, cultura e cotidiano:
O que visitar no centro histórico?
O conjunto tombado pelo IPHAN desde 1938 reúne cerca de 700 imóveis preservados. As principais atrações ficam a poucos passos umas das outras.
- Igreja de São Francisco de Assis: projeto original de Aleijadinho, executado por Francisco de Lima Cerqueira no século XVIII. Jardim em forma de lira projetado por Burle Marx. O túmulo do ex-presidente Tancredo Neves está no cemitério da igreja.
- Catedral Nossa Senhora do Pilar: templo setecentista com talha dourada e teto pintado. Aos domingos, a missa das 9h15 é acompanhada pela Orquestra Ribeiro Bastos.
- Maria Fumaça até Tiradentes: percurso de 12 km pela antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas, inaugurada em 1881. Os vagões de madeira cruzam a Serra de São José e margeiam o Rio das Mortes. Ida e volta dura cerca de 1h30.
- Rua das Casas Tortas: a Rua Santo Antônio, antigo caminho dos bandeirantes, tem casarões coloridos que parecem avançar sobre a calçada. Sem postes nem fios, é o cenário mais fotografado da cidade.
- Memorial Tancredo Neves: museu interativo que conta a vida do ex-presidente nascido na cidade, com recursos digitais que cruzam sua trajetória com a história de Minas.
- Museu Ferroviário: anexo à estação, abriga a locomotiva nº 1, objetos, sinos e ferramentas da época das ferrovias. Entrada gratuita.

O que comer na terra do feijão tropeiro?
A mesa são-joanense segue o receituário clássico de Minas com toques locais. Frango com quiabo servido em panela de barro, angu, couve e feijão tropeiro com linguiça e farinha de mandioca são presenças certas nos restaurantes do centro histórico.
Doce de leite com queijo minas é a sobremesa inevitável. Rocambole, goiabada cascão e compotas de frutas da região completam a prateleira das doceiras. Para quem busca algo diferente, a Cervejaria Ovelha Negra, no Empório del Rei, serve chopes artesanais com música ao vivo nas noites de sexta e sábado.
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Quando visitar São João del Rei?
A Semana Santa é o período mais concorrido: procissões centenárias tomam as ruas com tapetes de serragem e flores, acompanhadas pelas orquestras. O Carnaval também surpreende, com blocos caricatos e fantasias artesanais que arrastam foliões pelas ladeiras. Fora das festas, a cidade recebe visitantes com tranquilidade o ano inteiro.
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Como chegar à terra onde os sinos falam?
São João del Rei fica a 185 km de Belo Horizonte pela BR-040 e BR-265, cerca de 2h30 de carro. Ônibus partem da rodoviária da capital mineira com frequência ao longo do dia. A cidade também faz parte do Caminho Velho da Estrada Real, a maior rota turística do país, e fica a apenas 12 km de Tiradentes, o que permite combinar os dois destinos em um mesmo roteiro.
A cidade onde o barroco não virou cenário congelado
São João del Rei é uma das raras cidades brasileiras onde o patrimônio colonial continua funcionando. As orquestras tocam, os sinos comunicam, a Maria Fumaça apita e a comida chega quente na mesa de botecos que existem há gerações. O ouro acabou, mas a cidade nunca parou.
Você precisa ouvir os sinos de São João del Rei ao entardecer e entender por que os moradores dizem que nesta cidade o bronze tem voz e as pedras contam história.










