Uma fortaleza colonial defendia a entrada da Baía de Todos os Santos desde 1630, e submarinos alemães torpedearam dois navios brasileiros bem em frente à Primeira Praia em 1942. Morro de São Paulo guarda três séculos de história em um vilarejo onde a única estrada é a maré.
Do português Martim Afonso aos submarinos alemães
A ilha foi batizada pelo navegador português Martim Afonso de Sousa em 24 de março de 1531. O nome vem do tupi Tynharéa, que significa aquela que avança sobre o mar, em referência à posição geográfica adentro do oceano. O sotaque baiano transformou depois em Ilha de Tinharé.
A vila foi fundada em 1535, mesmo ano de Olinda, pelo colonizador Francisco Romero e pela população local. Segundo o portal Morro de São Paulo, a posição estratégica fez da ilha alvo de esquadras francesas e holandesas ao longo do período colonial, transformando o arquipélago em zona franca de corsários e piratas.
A história voltou a se cruzar com o mundo em agosto de 1942. Submarinos alemães torpedearam os navios Arará e Itagiba em frente à Primeira Praia da vila. O episódio contribuiu diretamente para o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados.

Uma vila onde não existe rua asfaltada
Não há estrada ligando a ilha ao continente. O acesso é feito exclusivamente por barco ou avião de pequeno porte, o que eliminou a entrada de automóveis e preservou as ruas de pedra e as trilhas de areia como únicas vias de circulação. A bagagem chega em carrinho de mão.
Os deslocamentos maiores entre as praias são feitos a pé, de trator adaptado ou barco-táxi. Esse isolamento natural controla o fluxo e mantém o ritmo lento típico das antigas vilas de pescadores baianas.
A vila pertence ao município de Cairu, um dos mais antigos do Brasil, fundado oficialmente em 1610. Nas décadas de 1970 e 1980, o vilarejo virou refúgio de hippies e depois se transformou em um dos principais destinos turísticos da Bahia, com cerca de 12 mil leitos hoje entre pousadas e hotéis.
O que fazer entre as cinco praias numeradas?
As principais praias ficam no lado leste da ilha e são conhecidas por números. Cada uma tem perfil próprio, dos points de agito às faixas quase desertas de mata preservada. O passeio Volta à Ilha reúne o melhor do arquipélago em um único dia.
- Primeira Praia: menor e mais próxima do centro, é ponto de saída dos passeios e frequentada por surfistas. Foi também o cenário do ataque alemão de 1942.
- Segunda Praia: a mais badalada, concentra o agito noturno com bares, restaurantes, luaus e barracas de artesanato. Coração da vida noturna.
- Terceira Praia: ponto de partida dos passeios de barco, com pousadas para todos os bolsos e restaurantes à beira-mar. A faixa fica estreita na maré alta.
- Quarta Praia: a mais extensa e silenciosa, com piscinas naturais formadas na maré baixa e resorts afastados. Ideal para descanso em família.
- Quinta Praia: também chamada de Praia do Encanto, tem 2 km de areia praticamente deserta. Sem barracas fixas, acessível por caminhada longa ou charrete.
- Praia da Gamboa: ao norte da ilha, oferece o famoso paredão de argila para banho de lama e vilarejo de pescadores. Acesso por trilha na maré baixa ou barco.
Um forte, um farol e uma fonte tombados pelo IPHAN
A vila abriga três sítios históricos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O conjunto é acessível a pé, e todos ficam próximos ao centro da vila e ao alto do morro que dá nome ao lugar.
A Fortaleza de Tapirandu, construída a partir de 1630 por ordem do governador-geral Diogo Luiz de Oliveira, ainda conserva 678 metros de muralhas voltadas para o mar. O objetivo era defender a chamada barra falsa da Baía de Todos os Santos, entrada estratégica para o Canal de Itaparica. Segundo o Estado de Minas, o complexo foi tombado pelo IPHAN em 1938.
No alto do morro, o Farol, inaugurado em 1855, oferece vista de 360 graus das praias e da Mata Atlântica. Já a Fonte Grande, construída em 1746, foi o maior sistema de abastecimento de água da Bahia colonial, com uma nascente que ainda hoje corre entre pedras da época.
A cozinha do dendê em barracas na areia
A gastronomia local reúne o melhor da culinária baiana com toques internacionais deixados pelos anos de forte turismo europeu. Os restaurantes ficam concentrados nas Primeira, Segunda e Terceira praias e nas ladeiras da vila.
- Moqueca de peixe ou camarão: prato símbolo da culinária baiana, servido em panelas de barro com dendê, leite de coco e coentro nas barracas da orla.
- Bobó de camarão: creme à base de mandioca com camarão e dendê, herança da cozinha ancestral africana, presente nos restaurantes da Segunda Praia.
- Acarajé e abará: bolinhos tradicionais servidos por baianas ao longo do centro da vila, com recheio de vatapá, camarão seco e caruru.
- Peixe grelhado com pirão: preparo simples nos quiosques da Quarta Praia, direto dos barcos que atracam na maré baixa.
- Caipifruta: caipirinha feita com frutas tropicais como maracujá, kiwi e abacaxi, marca registrada dos bares da Segunda Praia.

Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical úmido garante calor o ano inteiro, com temperaturas entre 22°C e 31°C. O período mais chuvoso vai de abril a junho, mas o sol costuma aparecer entre as pancadas rápidas. O verão concentra a alta temporada e o pico do agito.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à ilha saindo de Salvador?
A forma mais popular é o catamarã que parte do Terminal Turístico Náutico da Bahia, atrás do Mercado Modelo, em Salvador. A travessia dura cerca de 2h30 e chega direto ao cais da vila.
Outra opção é o trajeto semiterrestre, com van até Valença, em aproximadamente 4 horas pela BA-001, seguido de lancha rápida até Morro em 15 minutos. Voos de pequeno porte também operam entre o Aeroporto de Salvador e o Aeroporto Lorenzo, no Cairu, com travessia curta de barco até a vila.
A vila sem carros que atravessa cinco séculos
A cidade prova que dá para ter cinco praias paradisíacas, um forte de 1630 e a memória de um episódio da Segunda Guerra Mundial em uma ilha sem asfalto. Poucos destinos do Brasil combinam tanta história e tanta natureza preservada em um só endereço.
Você precisa conhecer Morro de São Paulo e chegar de barco à mesma vila onde piratas franceses e holandeses tentaram desembarcar há quase cinco séculos.










