Há uma estátua de um homem com uma mochila nas costas no centro de Governador Valadares, no leste de Minas Gerais. Ela fica na Praça do Emigrante e resume, em bronze, a história mais peculiar da cidade mineira de 266 mil habitantes que virou porta de saída de milhares de brasileiros rumo aos Estados Unidos.
A mica que abriu o caminho para os americanos
A ligação de Valadares com os Estados Unidos começou na Segunda Guerra Mundial. A região era rica em mica, mineral usado como isolante térmico em aviões de combate, submarinos e rádios militares. Segundo o Instituto Diáspora Brasil, empresas norte-americanas se instalaram nas jazidas e passaram a exportar o minério bruto para os EUA.
Para escoar a produção, o governo de Getúlio Vargas firmou acordos com Washington, e empreiteiros americanos foram enviados para reformar a Estrada de Ferro Vitória a Minas. Ficaram anos morando na cidade, trouxeram jipes, fundaram o primeiro Rotary Club local e ajudaram a moldar um imaginário que nunca mais saiu do dia a dia valadarense.

Mister Simpson e o viaduto que virou memória
O engenheiro norte-americano Richard Pitt Simpson foi um dos personagens centrais dessa fase. Batizado carinhosamente de Mister Simpson pelos moradores, ele participou da fundação do Rotary Club e estimulou os primeiros intercâmbios de jovens valadarenses para os EUA, ainda nos anos 1950 e 1960.
Hoje, um viaduto na cidade leva o nome dele. É um detalhe que passa despercebido para o visitante de fora, mas explica muito sobre a intimidade da cidade com um país a mais de 8 mil km de distância. A homenagem é registrada por reportagem da CartaCapital, que apurou o histórico com o pesquisador Haruf Salmen Espíndola, da Universidade Vale do Rio Doce.
1964: o ano em que Valadares embarcou
A primeira leva organizada de valadarenses desembarcou nos Estados Unidos em 1964, a convite dos mesmos empreiteiros que haviam trabalhado na cidade. Eram jovens de classe média alta, com inglês razoável e curiosidade pela cultura pop americana.
De acordo com estudo do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR/UFMG), a partir dessa primeira geração formou-se a chamada rede social migratória: cada pessoa que ia abria caminho para parentes e vizinhos, criando uma cadeia de contatos, hospedagem e emprego que atravessou décadas.

As três ondas do sonho americano
Pesquisadores da Univale e do CEDEPLAR descrevem a emigração valadarense em ondas distintas, cada uma com um perfil próprio.
- Anos 1960: jovens de classe média alta, com inglês, buscando intercâmbio e experiência de vida nos EUA.
- Anos 1980: trabalhadores com ensino fundamental fugindo da “década perdida” da economia brasileira, muitos entrando pela fronteira do México.
- Anos 2000: famílias inteiras, com aumento de travessias clandestinas patrocinadas por empregadores nos EUA.
O destino preferido sempre foi Massachusetts, em especial a região de Boston, onde a rede de conterrâneos já garantia emprego, casa e igreja em português.
Por que “Valadólares”?
A partir dos anos 1970, os primeiros emigrantes começaram a mandar dinheiro para casa. As remessas em dólar alimentaram o mercado imobiliário, multiplicaram as casas de câmbio e passaram a definir preços de imóveis em uma moeda estrangeira.
O apelido pegou. Estudo publicado em 2025 pelo Brazilian Geographical Journal, da Universidade Federal de Uberlândia, analisa como essas remessas influenciam a expansão urbana e a especulação imobiliária na cidade até hoje. Grande parte de bairros como Ilha dos Araújos e Santa Rita se transformou com dinheiro que veio de Boston, Framingham e cidades vizinhas.

A cidade que ainda espera notícias do exterior
Governador Valadares tem, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 266.561 habitantes. A rotina do valadarense inclui outdoors bilíngues, lojas de remessa internacional e um comércio parcialmente pautado por quem tem parente lá fora. Nem mesmo o endurecimento das políticas migratórias dos Estados Unidos nos últimos anos freou o fluxo, apontam pesquisadores da Univale.
A cidade continua produzindo emigrantes e recebendo retornados. Muitos voltam sem economia, endividados com a travessia. Outros voltam com dólares suficientes para abrir um bar, um posto de gasolina ou uma loja no centro, mantendo viva a economia que ganhou apelido próprio.
Uma história que ainda se conta em duas línguas
Valadólares não é só um apelido pitoresco. É a marca de uma cidade cuja identidade foi moldada pela ausência: pelo parente que foi, pela carta que chegou, pelo bilhete de retorno que nunca se comprou.
Você precisa passar pela Praça do Emigrante e olhar aquele homem de mochila nas costas para entender que Governador Valadares fala mineiro, mas sonha em inglês faz mais de 60 anos.




