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A cidade mineira apelidada de “Valadólares” onde uma estátua de mochila conta a história de milhares de brasileiros nos EUA

Por Maura Pereira
16/07/2026
Em Cidades, Turismo
A cidade mineira apelidada de "Valadólares" onde uma estátua de mochila conta a história de milhares de brasileiros nos EUA

Há uma estátua de um homem com uma mochila nas costas no centro de Governador Valadares, no leste de Minas Gerais. Ela fica na Praça do Emigrante e resume, em bronze, a história mais peculiar da cidade mineira de 266 mil habitantes que virou porta de saída de milhares de brasileiros rumo aos Estados Unidos.

A mica que abriu o caminho para os americanos

A ligação de Valadares com os Estados Unidos começou na Segunda Guerra Mundial. A região era rica em mica, mineral usado como isolante térmico em aviões de combate, submarinos e rádios militares. Segundo o Instituto Diáspora Brasil, empresas norte-americanas se instalaram nas jazidas e passaram a exportar o minério bruto para os EUA.

Para escoar a produção, o governo de Getúlio Vargas firmou acordos com Washington, e empreiteiros americanos foram enviados para reformar a Estrada de Ferro Vitória a Minas. Ficaram anos morando na cidade, trouxeram jipes, fundaram o primeiro Rotary Club local e ajudaram a moldar um imaginário que nunca mais saiu do dia a dia valadarense.

A cidade de Minas Gerais que atrai jovens e famílias com esportes radicais e ensino de alto nível
Governador Valadares-MG encanta com Pico da Ibituruna, Rio Doce e voo livre na Capital Mundial da Asa Delta do leste mineiro. // Créditos: Wikipédia

Mister Simpson e o viaduto que virou memória

O engenheiro norte-americano Richard Pitt Simpson foi um dos personagens centrais dessa fase. Batizado carinhosamente de Mister Simpson pelos moradores, ele participou da fundação do Rotary Club e estimulou os primeiros intercâmbios de jovens valadarenses para os EUA, ainda nos anos 1950 e 1960.

Hoje, um viaduto na cidade leva o nome dele. É um detalhe que passa despercebido para o visitante de fora, mas explica muito sobre a intimidade da cidade com um país a mais de 8 mil km de distância. A homenagem é registrada por reportagem da CartaCapital, que apurou o histórico com o pesquisador Haruf Salmen Espíndola, da Universidade Vale do Rio Doce.

1964: o ano em que Valadares embarcou

A primeira leva organizada de valadarenses desembarcou nos Estados Unidos em 1964, a convite dos mesmos empreiteiros que haviam trabalhado na cidade. Eram jovens de classe média alta, com inglês razoável e curiosidade pela cultura pop americana.

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De acordo com estudo do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR/UFMG), a partir dessa primeira geração formou-se a chamada rede social migratória: cada pessoa que ia abria caminho para parentes e vizinhos, criando uma cadeia de contatos, hospedagem e emprego que atravessou décadas.

Curta saltos de parapente e piqueniques no Rio Doce de Governador Valadares-MG, vibes relaxadas na cidade acolhedora mineira. // Créditos: Wikipédia

As três ondas do sonho americano

Pesquisadores da Univale e do CEDEPLAR descrevem a emigração valadarense em ondas distintas, cada uma com um perfil próprio.

  • Anos 1960: jovens de classe média alta, com inglês, buscando intercâmbio e experiência de vida nos EUA.
  • Anos 1980: trabalhadores com ensino fundamental fugindo da “década perdida” da economia brasileira, muitos entrando pela fronteira do México.
  • Anos 2000: famílias inteiras, com aumento de travessias clandestinas patrocinadas por empregadores nos EUA.

O destino preferido sempre foi Massachusetts, em especial a região de Boston, onde a rede de conterrâneos já garantia emprego, casa e igreja em português.

Leia também: Pequena no tamanho, gigante na floricultura: essa cidade de 15 mil habitantes concentra 40% das flores do país e já mudou de nome três vezes.

Por que “Valadólares”?

A partir dos anos 1970, os primeiros emigrantes começaram a mandar dinheiro para casa. As remessas em dólar alimentaram o mercado imobiliário, multiplicaram as casas de câmbio e passaram a definir preços de imóveis em uma moeda estrangeira.

O apelido pegou. Estudo publicado em 2025 pelo Brazilian Geographical Journal, da Universidade Federal de Uberlândia, analisa como essas remessas influenciam a expansão urbana e a especulação imobiliária na cidade até hoje. Grande parte de bairros como Ilha dos Araújos e Santa Rita se transformou com dinheiro que veio de Boston, Framingham e cidades vizinhas.

Com pico de 1.123m, a "Capital Mundial do Voo Livre" a 310 km da capital é o centro mundial do voo livre e das pedras preciosas
Governador Valadares-MG inspira voos sobre serras verdes e rios caudalosos, despertando liberdade e aventura no coração de Minas. // Créditos: Wikipédia

A cidade que ainda espera notícias do exterior

Governador Valadares tem, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 266.561 habitantes. A rotina do valadarense inclui outdoors bilíngues, lojas de remessa internacional e um comércio parcialmente pautado por quem tem parente lá fora. Nem mesmo o endurecimento das políticas migratórias dos Estados Unidos nos últimos anos freou o fluxo, apontam pesquisadores da Univale.

A cidade continua produzindo emigrantes e recebendo retornados. Muitos voltam sem economia, endividados com a travessia. Outros voltam com dólares suficientes para abrir um bar, um posto de gasolina ou uma loja no centro, mantendo viva a economia que ganhou apelido próprio.

Uma história que ainda se conta em duas línguas

Valadólares não é só um apelido pitoresco. É a marca de uma cidade cuja identidade foi moldada pela ausência: pelo parente que foi, pela carta que chegou, pelo bilhete de retorno que nunca se comprou.

Você precisa passar pela Praça do Emigrante e olhar aquele homem de mochila nas costas para entender que Governador Valadares fala mineiro, mas sonha em inglês faz mais de 60 anos.

Tags: Governador ValadaresMinas Gerais
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