Nome curioso engana. Tubarão, no sul de Santa Catarina, não deve o topônimo ao animal marinho e sim ao cacique Tuba-Nharõ, expressão tupi-guarani que significa pai feroz. É como os primeiros habitantes chamavam o rio que corta a cidade. A urbe nasceu como parada de tropeiros no século XVIII, foi devastada por uma das maiores enchentes já registradas no Sul do Brasil em 1974 e hoje concentra polos de saúde, educação, turismo termal e o segundo maior centro comercial da região sul catarinense.
Por que Tubarão se chama assim se não tem relação com o animal?
Porque o nome vem de um chefe indígena, não de um peixe. Segundo a Prefeitura Municipal de Tubarão, o topônimo deriva do cacique Tuba-Nharõ, do tupi-guarani pai feroz, denominação que os habitantes primitivos também davam ao rio que atravessa a cidade. O apelido de Cidade Azul, incorporado ao imaginário local, foi dado pelo poeta e jornalista catarinense Virgílio Várzea, inspirado pelo reflexo do céu sobre a superfície do rio e pelas montanhas azuladas ao horizonte.
A ocupação começou como ponto de descanso da rota comercial Lages-Laguna. Entre 1773 e 1774, tropeiros que desciam da Serra Catarinense paravam no local conhecido como Paragem do Poço Grande para trocar carregamentos de queijo, charque e outros produtos por sal, peixe seco, farinhas e tecidos que chegavam pelo porto de Laguna. Em 7 de maio de 1836, a região foi elevada a Freguesia de Nossa Senhora da Piedade. Em 27 de maio de 1870, o presidente da Província sancionou a lei nº 635 que criou o município de Tubarão, desmembrado de Laguna.

Como a enchente de 1974 marcou a memória da cidade?
Como uma tragédia sem paralelos no Sul do país no século XX. Segundo a Prefeitura Municipal de Tubarão, na sexta-feira, 22 de março de 1974, chuvas intensas atingiram os costões da Serra Geral e fizeram o volume do Rio Tubarão subir rapidamente. No dia 24 de março, um domingo, a cheia chegou ao centro urbano. O nível das águas ultrapassou telhados de casas, e um único helicóptero fazia o trabalho de resgate.
Oficialmente, foram registradas 199 mortes, mas a Prefeitura reconhece que a tecnologia limitada da época pode ter deixado outros desaparecidos sem identificação. Dos 70 mil habitantes da época, 60 mil ficaram desabrigados. As águas começaram a baixar em 27 de março, deixando uma camada de lama entre 30 centímetros e 1,20 metro sobre as ruas. A cidade foi reconstruída em menos de um ano, e a memória coletiva do episódio hoje está preservada no Arquivo Público Histórico Amadio Vettoretti, vinculado à Fundação Municipal de Cultura.
Como funcionam as estâncias termais de Tubarão?
Como um dos principais destinos de turismo de saúde do Sul do Brasil. Segundo o Santa Catarina Turismo, portal oficial da Secretaria de Estado do Turismo, o município conta com duas estâncias hidrominerais: Termas da Guarda e Rio do Pouso, ambas canalizadas para hotéis com infraestrutura completa. A água emerge naturalmente a cerca de 37°C e é utilizada com finalidade terapêutica.
As Termas da Guarda ficam a 10 km do centro da cidade, na margem direita do Rio Tubarão. O acesso é pavimentado e a área concentra três hotéis com piscinas termais, spa, restaurantes e recreação. É no mesmo local que é engarrafada a água mineral da Guarda, distribuída em toda a região. As Termas do Rio do Pouso ficam no meio rural, com pousadas menores e propostas voltadas ao contato com a natureza e à culinária colonial.
Quais atrações estruturam o roteiro cultural da cidade?
O centro urbano concentra memoriais, museus e patrimônio arquitetônico ligados ao ciclo do carvão e à história ferroviária. Os principais pontos são:
- Museu Willy Zumblick: dedicado à obra do artista plástico tubaronense, no Centro Municipal de Cultura, na Praça Walter Zumblick.
- Museu Ferroviário de Tubarão: instalado no bairro Oficinas, preserva locomotivas, vagões e documentos da Estrada de Ferro Dona Teresa Cristina, ferrovia pioneira em Santa Catarina que ligava as minas de carvão ao Porto de Imbituba.
- Ponte Pênsil: inaugurada em 1934, é uma das mais antigas pontes suspensas do Brasil e faz a travessia de pedestres sobre o Rio Tubarão.
- Catedral Nossa Senhora da Piedade: erguida no ponto mais alto da cidade, sede da Diocese de Tubarão, criada em 28 de dezembro de 1954.
- Casa da Cidade Humberto Rohden: palacete neoclássico de 1897, antiga sede da Prefeitura, hoje centro de cultura com exposições e cursos.
- Torre da Gratidão: monumento ao lado da Catedral em homenagem aos que ajudaram na reconstrução após a enchente de 1974.
- Parque Linear: às margens do Rio Tubarão, com ciclovias, pistas de caminhada e áreas de convivência.

O que o Índice de Progresso Social mostra sobre a cidade?
Que Tubarão é uma das cidades mais bem colocadas do Sul catarinense em qualidade de vida. Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), responsável pela elaboração do IPS Brasil 2026, Tubarão ocupa a 305ª posição entre os 5.570 municípios brasileiros avaliados no ranking nacional, e a 26ª entre os municípios de Santa Catarina. O IPS Brasil é elaborado com base em 57 indicadores sociais e ambientais e considera fatores como saúde, segurança, educação, moradia, direitos individuais e acesso a oportunidades.
A cidade abriga também um dos maiores polos universitários da região sul catarinense, com a sede da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), hoje integrada ao grupo Ânima Educação. Somam-se ao Ensino Superior serviços de saúde de referência regional, atendendo cerca de 20 municípios da bacia do Rio Tubarão, uma área com aproximadamente 350 mil habitantes.
O que provar na cozinha do Sul catarinense?
A gastronomia combina heranças açoriana, italiana e alemã, típicas do sul de Santa Catarina. Alguns pratos e produtos essenciais:
- Pirão de farinha com peixe: prato de origem açoriana, comum nos restaurantes tradicionais.
- Polenta com galinha: herança da imigração italiana, servida em cantinas do interior do município.
- Cuca alemã: pão doce coberto com farofa açucarada, vendido em padarias e cafés coloniais.
- Cachaça artesanal: produzida em pequenos alambiques nas propriedades rurais de Rio do Pouso e Sertão dos Corrêa.
- Café colonial: café da tarde com dezenas de doces, geleias e pães caseiros, especialidade das pousadas rurais.
- Peixes do Rio Tubarão: pescados servidos em restaurantes próximos à orla urbana do rio.
Como chegar a Tubarão?
A cidade fica a cerca de 133 km de Florianópolis, com acesso principal pela Rodovia BR-101, que atravessa o município de sul a leste. É uma das cidades mais bem servidas por infraestrutura rodoviária no sul catarinense, com ligações diretas para Criciúma (66 km), Laguna (32 km) e a Serra Geral.
Para quem chega de avião, os aeroportos mais próximos com voos comerciais são o Aeroporto Diomício Freitas, em Jaguaruna, e o Aeroporto Regional Humberto Bortoluzzi, em Jaguaruna, ambos a menos de 40 km. O Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em Florianópolis, é a alternativa para quem prefere maior variedade de voos. A cidade é também atendida por linhas de ônibus rodoviário que ligam o município a todas as capitais do Sul e Sudeste.
A Cidade Azul que soube se reerguer
Tubarão oferece a combinação rara no interior brasileiro de termas terapêuticas, memória ferroviária, patrimônio arquitetônico do século XIX e boa posição em indicadores nacionais de qualidade de vida. É a cidade que virou parada obrigatória para tropeiros, sobreviveu a uma das maiores tragédias climáticas do Sul do país e reconstruiu a própria identidade em torno do mesmo rio que quase a destruiu.
Você precisa reservar pelo menos três dias em Tubarão, dividir o tempo entre um dia inteiro nas Termas da Guarda, uma visita ao Museu Ferroviário e uma travessia a pé pela Ponte Pênsil ao entardecer, quando o Rio Tubarão ganha os tons azulados que batizaram a cidade.




