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Início Cidades

A cidade colonial que virou Patrimônio Mundial da UNESCO, guarda mais de 65 ilhas e 300 praias e ainda recebe um dos maiores festivais literários da América Latina

Por Maura Pereira
16/09/2026
Em Cidades, Turismo
Uma cidade onde o mar invade as ruas de propositalmente para limpar conquista com seu patrimônio histórico no Brasil

Paraty foi projetada assim no século XVIII, para que o mar lavasse suas vielas. / Imagem ilustrativa

Poucas cidades brasileiras foram tão importantes num século e tão esquecidas nos seguintes. Paraty, no sul da Costa Verde fluminense, foi o principal porto de escoamento do ouro das Minas Gerais no século XVIII, perdeu função com a criação de novas rotas para o Rio de Janeiro e ficou isolada até a construção da Rodovia Rio-Santos na década de 1970. Foi esse isolamento que preservou o casario colonial hoje reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Por que Paraty é o primeiro sítio misto brasileiro reconhecido pela UNESCO?

Pela combinação rara de patrimônio cultural preservado e biodiversidade excepcional. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o sítio Paraty e Ilha Grande: Cultura e Biodiversidade foi inscrito na lista da UNESCO em 5 de julho de 2019, durante a 43ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Baku, no Azerbaijão. Foi o primeiro sítio misto do Brasil, categoria que reconhece simultaneamente valor cultural e natural excepcional.

A cidade também acumula outros dois títulos internacionais importantes. Segundo a Prefeitura Municipal de Paraty, o município integra a Rede de Cidades Criativas da UNESCO na categoria Gastronomia desde 2017, ao lado de destinos como Belém, no Pará, entre as cidades brasileiras reconhecidas na rede. É o único município do Rio de Janeiro com esse conjunto de reconhecimentos internacionais.

A cidade histórica do Rio de Janeiro que parece parada no tempo e conquista pelo sossego com águas que encantam qualquer um
Paraty abriga centro histórico tombado pela Unesco e área protegida com rica biodiversidade. // Créditos: Wikipedia

Como o Caminho do Ouro fundou uma cidade e o esgotamento a preservou?

Por um ciclo econômico completo, seguido de longo isolamento. No século XVIII, Paraty era o ponto final do Caminho Velho do Ouro, rota de mais de 1.200 km que ligava a cidade a Diamantina e a Ouro Preto, nas Minas Gerais. Todo o ouro extraído nas minas passava por Paraty antes de ser embarcado com destino a Portugal. As ruas do centro histórico foram calçadas com as mesmas pedras extraídas das serras do caminho.

O declínio começou quando a Coroa Portuguesa abriu o Caminho Novo, que ligava Ouro Preto diretamente ao Rio de Janeiro, encurtando a rota do ouro. Nos séculos XVIII e XIX, o município ainda teve destaque como produtor de cana-de-açúcar e no escoamento do café do Vale do Paraíba, mas o esgotamento das culturas e o crescimento de outros portos foram gradualmente isolando a cidade. Segundo o IPHAN, o conjunto arquitetônico e paisagístico foi tombado em nível federal em 13 de fevereiro de 1958. O município foi elevado a Monumento Nacional em 1966 pelo Decreto-lei nº 58.077, e o tombamento foi ampliado em 1974 para incluir o entorno paisagístico.

O que se encontra no centro histórico?

Um dos conjuntos coloniais mais autênticos do Brasil, distribuído em cerca de 33 quarteirões fechados para carros. As ruas de pedra irregular formam desenhos que reproduzem símbolos maçônicos e ainda são invadidas pela maré alta em algumas datas do ano, uma solução do próprio traçado colonial para escoar a água. Os principais pontos são:

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  • Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios: templo do século XVIII na Praça Monsenhor Hélio Pires, o maior do centro histórico.
  • Igreja de Santa Rita: construída em 1722, é o cartão-postal da cidade e abriga o Museu de Arte Sacra de Paraty.
  • Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito: templo católico erguido pela irmandade dos negros escravizados.
  • Igreja de Nossa Senhora das Dores: pequena igreja voltada para a orla, tradicionalmente frequentada pelas mulheres da elite paratiense.
  • Casa da Cultura: espaço cultural em casarão colonial restaurado.
  • Rua do Fogo: pequena travessa reconhecida como uma das mais fotogênicas do centro, com portas e janelas coloniais preservadas.
  • Forte Defensor Perpétuo: fortificação de 1793 com vista da baía, abriga o Museu de Artes e Tradições Populares.

Quais são as praias e ilhas da Baía de Paraty?

Um arquipélago com mais de 65 ilhas e cerca de 300 praias, muitas acessíveis apenas por barco. As escunas partem do centro histórico com roteiros de dia inteiro, com paradas para banho e almoço em ilhas ou restaurantes flutuantes. Os principais destinos:

  • Saco do Mamanguá: único fiorde tropical do Brasil, com 8 km de extensão entre a Península da Juatinga e o continente.
  • Praia do Sono: acessível apenas por trilha de 40 minutos ou de barco, com águas cristalinas e ambiente rústico.
  • Trindade: vila de pescadores ao sul de Paraty, com praias como Cepilho, Meio, Cachadaço e Praia Brava.
  • Ilha do Algodão: uma das mais visitadas nos passeios de escuna.
  • Praia Vermelha: enseada de areia dourada avermelhada, cercada de Mata Atlântica.
  • Praia do Pouso da Cajaíba: ponto de partida para a Praia do Sono e a Península da Juatinga.
Cada uma dessas cidades oferece elementos que inspiram vida, decoração e paisagismo,
Paraty é um município histórico no Rio de Janeiro famoso por praias, cultura e patrimônio. // Créditos: depositphotos.com / dabldy

O que fazer no interior serrano de Paraty?

A parte continental do município é ocupada em grande parte pelo Parque Nacional da Serra da Bocaina, com trilhas, cachoeiras, alambiques e a rota histórica do Caminho do Ouro. As atrações mais visitadas:

  • Trilha do Ouro (Caminho do Ouro): percurso original calçado no século XVII, com trechos preservados dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina.
  • Cachoeira do Tobogã: pedra lisa natural em declive por onde a água escorre, uma das paradas mais visitadas.
  • Poço das Andorinhas: cachoeira em piscina natural cercada de Mata Atlântica.
  • Cachoeira do Iriri: queda d’água em meio à mata, com trilha curta de acesso.
  • Rota dos Alambiques: percurso pelos engenhos históricos onde se produz a cachaça de Paraty, com denominação de origem geográfica.

Por que a FLIP se firmou como um dos maiores festivais literários da América Latina?

Pela combinação de cenário colonial e programação de peso internacional. Segundo o site oficial da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), o festival nasceu em 2003, idealizado pela editora britânica Liz Calder, cofundadora da Bloomsbury Publishing, casa que descobriu autores como J.K. Rowling e Salman Rushdie. O modelo foi inspirado no Hay Festival, do Reino Unido.

Desde a primeira edição, a FLIP já recebeu ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura como Toni Morrison, J.M. Coetzee, Nadine Gordimer, Svetlana Aleksiévitch e Annie Ernaux. A festa acontece em julho ou agosto, dura cinco dias, ocupa tendas ao ar livre, salões coloniais e casas do centro histórico, e transforma a cidade num dos endereços literários mais movimentados do continente durante o período.

O que provar na cozinha reconhecida pela UNESCO?

Uma gastronomia com identidade forte, ligada à cana-de-açúcar, ao mar e à Mata Atlântica. É o conjunto que rendeu à cidade o título de Cidade Criativa da Gastronomia da UNESCO. Alguns pratos e produtos essenciais:

  • Cachaça de Paraty: bebida produzida na região desde o século XVII, com indicação geográfica reconhecida pelo INPI.
  • Peixe na banana da terra: prato caiçara tradicional, envolvido em folha de bananeira antes do preparo.
  • Camarão casadinho: pedida clássica dos restaurantes de frutos do mar do centro histórico.
  • Azul marinho: peixe cozido com banana verde, receita caiçara centenária.
  • Doces caseiros: goiabada cascão, doce de banana e compotas de frutas tropicais vendidas nas confeitarias da cidade.
  • Restaurantes de cozinha contemporânea: chefs que reinterpretam a tradição caiçara com técnicas modernas, muitos deles no centro histórico.

Como chegar a Paraty?

A cidade fica a cerca de 258 km do Rio de Janeiro e 303 km de São Paulo, com acesso pela BR-101, também conhecida como Rodovia Rio-Santos. O trajeto é considerado um dos mais cênicos do país, com Mata Atlântica de um lado e o mar da Costa Verde de outro.

Os aeroportos mais próximos são o Santos Dumont e o Galeão (Rio), e o Guarulhos e o Congonhas (São Paulo). Não há voos comerciais regulares para Paraty, apenas o pequeno Aeroporto Municipal Wilson Neves Duque, com voos particulares. Muitos visitantes combinam o roteiro com Angra dos Reis, a 100 km ao norte, ou com Trindade e Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, a 75 km ao sul.

Leia também: A capital que completa 300 anos em 2026: com 25 km de orla, megabarracas na Praia do Futuro e o Dragão do Mar no centro.

A cidade colonial que virou palco literário

Paraty oferece o que raramente se encontra num único destino brasileiro: um centro histórico do século XVIII preservado praticamente intacto, um fiorde tropical, mais de 300 praias, o único festival literário reconhecido internacionalmente do Brasil, uma indicação geográfica de cachaça centenária e o título de Cidade Criativa da Gastronomia da UNESCO. É a cidade que provou como o isolamento pode preservar o que o desenvolvimento costuma apagar.

Você precisa reservar pelo menos quatro dias em Paraty, dividir o tempo entre o centro histórico ao entardecer, um passeio de escuna pela baía e uma trilha até a Cachoeira do Tobogã ou o Saco do Mamanguá.

Tags: Minas GeraisParaty
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