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Início Cidades

A Cidade Criativa da Gastronomia da UNESCO desde 2015 e uma das 10 melhores do mundo em 2025: a capital que reinventou a cozinha amazônica

Por Maura Pereira
02/09/2026
Em Cidades, Turismo
Belém entrou para a Rede de Cidades Criativas da UNESCO na categoria gastronomia. / Imagem ilustrativa

Belém entrou para a Rede de Cidades Criativas da UNESCO na categoria gastronomia. / Imagem ilustrativa

Na foz do Rio Amazonas, com 1,3 milhão de moradores e 42 ilhas no próprio território, Belém é a única capital brasileira reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia. Um título raro que virou vitrine mundial quando a revista britânica Lonely Planet elegeu a capital paraense entre os dez melhores destinos gastronômicos do planeta em 2025, colocando tucupi, jambu e pato ao lado de Tóquio, Cidade do México e Lisboa.

Do Forte do Presépio à Belle Époque amazônica

A capital do Pará nasceu em 1616, quando o capitão Francisco Caldeira Castelo Branco ergueu o Forte do Presépio às margens da Baía do Guajará para proteger a entrada do Rio Amazonas. O forte marca até hoje o ponto exato onde a cidade começou, no bairro da Cidade Velha. A posição estratégica na foz do maior rio do mundo transformou Belém no principal entreposto das chamadas drogas do sertão, especiarias amazônicas que alimentavam o comércio europeu ao longo dos séculos XVII e XVIII.

O grande salto econômico veio entre 1870 e 1912, com o ciclo da borracha. A cidade se transformou em uma das mais ricas do Brasil e ganhou traços europeus na arquitetura e nos costumes. Palacetes, boulevards, o Teatro da Paz e azulejos portugueses espalhados por várias ruas são heranças diretas desse período, batizado de Belle Époque amazônica. Foi nessa era que a cozinha paraense se consolidou como identidade única do país, misturando saberes indígenas com técnicas europeias e africanas.

A única capital brasileira reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia abriga o maior mercado de rua da América Latina
Mergulhe na Amazônia vibrante de Belém! Cultura indígena, manguezais e sabores exóticos renovam espírito aventureiro.​ // Reprodução: Wikimedia Commons

Por que a UNESCO escolheu Belém como Cidade Criativa da Gastronomia?

Pela originalidade de uma culinária que só existe naquele pedaço de mapa. Em dezembro de 2015, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) reconheceu Belém como membro da Rede de Cidades Criativas na categoria gastronomia. Segundo a Agência Pará, a cidade integra um grupo restrito de 116 cidades no mundo em sete campos criativos, e é uma das quatro brasileiras com o selo em gastronomia, ao lado de Florianópolis, Paraty e Belo Horizonte.

O reconhecimento se apoia em ingredientes nativos da Amazônia: tucupi, jambu, açaí, pirarucu, cupuaçu, bacuri, maniçoba e centenas de outras iguarias que compõem o dia a dia paraense. O título é renovado a cada quatro anos e exige apresentação de relatórios com projetos gastronômicos, educacionais e de economia criativa. Belém foi renovada em 2019 e 2023. Em 2025, a Lonely Planet reforçou o prestígio ao classificar a cidade entre os dez melhores destinos gastronômicos do mundo.

Ver-o-Peso: a maior feira livre da América Latina

O cheiro de tucupi fervido e de peixe fresco recebe quem chega ao Complexo Ver-o-Peso. Considerado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) a maior feira livre da América Latina, o conjunto ocupa mais de 25 mil metros quadrados na beira da Baía do Guajará e foi tombado como patrimônio nacional em 1977. Sua história começou em 1625, com a construção da Casa de Haver-o-Peso, casa fiscal onde os produtos eram pesados e taxados antes de seguirem viagem.

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O complexo reúne o Mercado de Ferro (importado da Inglaterra no fim do século XIX, dedicado ao pescado), o Mercado de Carne, a Feira do Açaí e centenas de barracas ao ar livre com ervas medicinais, frutas amazônicas, artesanato indígena e temperos. É onde se toma o primeiro tacacá em cuia de coco, se prova o açaí grosso servido com farinha e peixe frito e se compra jambu direto do produtor. O ritmo começa antes do amanhecer, quando os barcos ribeirinhos descarregam a produção da noite.

A única capital brasileira reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia abriga o maior mercado de rua da América Latina
Belém é a capital do Pará, localizada na foz do rio Amazonas, com rica história e cultura. // Reprodução: Wikimedia Commons

Círio de Nazaré: a maior procissão católica das Américas

Todo segundo domingo de outubro, Belém para. O Círio de Nossa Senhora de Nazaré, realizado desde 1793, é a maior manifestação católica do Brasil e uma das maiores do mundo. Cerca de 2 milhões de fiéis acompanham a imagem da padroeira paraense em uma procissão de aproximadamente 3,6 km entre a Catedral da Sé e a Basílica Santuário de Nazaré, puxada por uma corda de mais de 400 metros pelos famosos promesseiros.

O IPHAN reconheceu o Círio como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2004. Em 2013, a UNESCO concedeu o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade. A festa dura 15 dias e inclui a Romaria Fluvial, com centenas de barcos enfeitados na Baía do Guajará. No domingo do Círio, as famílias paraenses servem o tradicional almoço com pato no tucupi e maniçoba, ritual que une fé e gastronomia na mesma mesa. É a data em que fé e cozinha se tornam a mesma coisa.

O que provar em Belém?

A cozinha paraense é o maior atrativo cultural da cidade. Os pratos aparecem tanto nos restaurantes mais sofisticados quanto nas barracas do Ver-o-Peso e nas esquinas do centro.

  • Pato no tucupi: prato símbolo do estado, feito com pato desossado e cozido no caldo amarelado extraído da mandioca brava, servido com jambu e farinha d’água. Presença obrigatória no Círio.
  • Maniçoba: chamada de “feijoada paraense”, leva folhas de mandioca brava trituradas e cozidas por sete dias para eliminar o cianeto, acompanhadas de carnes salgadas e defumadas.
  • Tacacá: caldo quente de tucupi com goma de tapioca, camarões secos e folhas de jambu, servido em cuia de coco, tradição de fim de tarde nas ruas do centro.
  • Açaí grosso: consumido puro e salgado, acompanhado de farinha e peixe frito, quase nada parecido com a versão adoçada popular no Sudeste.
  • Peixe na folha de bananeira: pescado do dia (pirarucu, tucunaré, filhote) embrulhado em folha e assado, receita ribeirinha centenária.
  • Bombom de cupuaçu: fruta amazônica transformada em chocolate branco, doce e derivados de confeitaria, com aroma marcante.

O que visitar além do Ver-o-Peso e do Círio?

O roteiro combina patrimônio da Belle Époque, ilhas fluviais e parques ambientais. Boa parte fica na Cidade Velha ou a curta distância de barco.

  • Estação das Docas: três armazéns portuários revitalizados com restaurantes, lojas, cervejaria e vista para a Baía do Guajará. Palco do pôr do sol mais famoso da cidade.
  • Mangal das Garças: parque ecológico de 40 mil metros quadrados às margens do Rio Guamá, com o Farol de Belém de 47 metros, o maior borboletário do Brasil e mais de 300 espécies de árvores nativas.
  • Teatro da Paz: joia arquitetônica da Belle Époque, inaugurado em 1878, com programação regular de ópera, teatro e música.
  • Basílica Santuário de Nazaré: templo do século XIX inspirado na Basílica de São Paulo Extra Muros, em Roma. Abriga a imagem original da padroeira.
  • Ilha do Combu: a 15 minutos de barco do centro, oferece restaurantes ribeirinhos, cacau orgânico e a vida amazônica em ritmo lento.
  • Forte do Presépio e Casa das Onze Janelas: no complexo Feliz Lusitânia, marcam o ponto exato da fundação da cidade em 1616.

Leia também: A ilha do Nordeste já foi refúgio de piratas, preserva uma fortaleza de 1630 e proibiu carros para manter um estilo de vida simples.

Cidade porta de entrada para a Amazônia está encantando com sua beleza e qualidade para viver bem
Explore Belém, a cidade que une a força da Amazônia com a beleza da cultura paraense. // Créditos: YouTube @partiubr

Como é o clima ao longo do ano

Belém tem clima equatorial quente e úmido. As chuvas costumam cair no fim da tarde e passam rápido, hábito conhecido pelos moradores como “as duas horas da tarde”.

🌧️ Inverno amazônico Jan-Mai
Média: 23-31°C
Chuva: Alta
Ver-o-Peso, Estação das Docas e restaurantes cobertos.
🌤️ Transição Jun-Jul
Média: 23-32°C
Chuva: Média
Ilha do Combu e Mangal das Garças.
☀️ Verão amazônico Ago-Out
Média: 23-33°C
Chuva: Baixa
Círio de Nazaré em outubro e passeios de barco.
✨ Fim de ano Nov-Dez
Média: 23-32°C
Chuva: Média
Rota gastronômica e Teatro da Paz.
💡 Dica do especialista: O verão amazônico (agosto a outubro, 23°C a 33°C) apresenta baixa chuva, sendo ideal para vivenciar o grandioso Círio de Nazaré e fazer passeios de barco. Enquanto o inverno amazônico pede abrigo nos restaurantes cobertos, a transição e o fim de ano destacam a Ilha do Combu, a rota gastronômica e o Teatro da Paz!

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Belém

O Aeroporto Internacional de Belém Val-de-Cans recebe voos diretos de São Paulo, Brasília, Manaus, Fortaleza e outras capitais brasileiras, com tempo médio de voo de 3h30 a partir de São Paulo. Para quem prefere o caminho fluvial, há embarcações regionais partindo de Manaus e Santarém pela rota do Rio Amazonas, viagem que dura vários dias e é uma experiência à parte pela paisagem.

Chegue com fome e vá direto para a cuia de tacacá

Belém entrega em um só endereço aquilo que poucas cidades brasileiras conseguem: patrimônio da UNESCO em gastronomia, o maior mercado a céu aberto da América Latina, uma procissão religiosa entre as maiores do mundo e a porta de entrada para a floresta amazônica. Nenhuma outra capital combina tantos ativos culturais em raio tão curto.

Você precisa conhecer Belém sentado na beira do Ver-o-Peso ao entardecer, com uma cuia de tacacá na mão, para entender por que a cozinha do Norte virou referência mundial.

Tags: BelémPará
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