Cidade pequena no sertão costuma ficar fora do mapa turístico. Piranhas, a 265 km de Maceió, faz o oposto: é a única cidade do semiárido nordestino a ter o conjunto histórico integralmente tombado pelo IPHAN, guarda no antigo prédio da estação ferroviária o Museu do Sertão que preserva a memória de Lampião e funciona como base para navegar no maior cânion navegável do Brasil.
Por que Piranhas é a única cidade tombada do semiárido nordestino?
Pelo conjunto arquitetônico e paisagístico erguido às margens do Rio São Francisco. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Sítio Histórico e Paisagístico de Piranhas foi tombado em 2004, incluindo o núcleo histórico da cidade, o distrito de Entremontes e um trecho de 13 km do rio São Francisco.
O tombamento reconhece o casario colonial, as ladeiras de pedra e a integração entre a arquitetura e o relevo dos morros que descem até o rio. Esse desenho urbano rendeu à cidade o apelido de Lapinha do Sertão, dado por Dom Pedro II durante sua visita em 1859, numa referência à Lapinha portuguesa e ao aspecto de presépio que o casario forma quando visto do rio.

O que se encontra nos Cânions do Xingó?
Paredões de rochas alaranjadas de até 60 metros emoldurando as águas verdes do Velho Chico. Os cânions ficam na divisa entre Alagoas e Sergipe, formados pelo represamento do rio após a construção da Usina Hidrelétrica de Xingó, inaugurada em 1994. O lago artificial se estende por cerca de 65 km até Paulo Afonso, na Bahia.
Os passeios de catamarã ou lancha saem principalmente da Praia da Dulce, no lado alagoano, ou do Bar Karrancas, do lado sergipano em Canindé de São Francisco. O roteiro fluvial inclui parada para mergulho em piscinas naturais protegidas entre as paredes rochosas e permite navegar por um dos cenários mais fotografados do Nordeste brasileiro.
Quais atrações estruturam a visita?
A cidade cabe num final de semana, com centro histórico compacto e passeios fluviais que exigem meio dia. Alguns pontos essenciais:
- Cânions do Xingó: passeio de catamarã ou lancha entre paredões rochosos de até 60 metros, com parada para banho.
- Museu do Sertão: instalado no antigo prédio da Estação Ferroviária, guarda fotografias, armas e objetos do cangaço, incluindo a cópia da foto original das cabeças expostas.
- Palácio Dom Pedro II: prédio da Prefeitura, com escadaria histórica que virou marco do fim do cangaço em 1938.
- Torre do Relógio: um dos cartões-postais do casario colonial de Piranhas.
- Igreja Nossa Senhora da Saúde: construída em 1885 em estilo neoclássico.
- Igreja de Santo Antônio: templo de 1850 com peças da arte sacra regional.
- Estação Ferroviária: prédio de 1879, remanescente da antiga Estrada de Ferro Paulo Afonso, desativada em 1964.
- Distrito de Entremontes: parte do sítio tombado, com a Igreja Nossa Senhora da Conceição.
Por que a cidade é ligada ao fim do cangaço?
Porque foi ali que o Brasil viu o desfecho da história de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Em 28 de julho de 1938, após emboscada armada pela Polícia Militar de Alagoas na Grota do Angico, no lado sergipano do rio, as cabeças de Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram levadas para Piranhas.
Segundo a página oficial do IPHAN sobre a cidade, as cabeças foram expostas na escadaria da atual Prefeitura, o Palácio Dom Pedro II. A famosa fotografia do empilhamento foi feita ali mesmo e hoje faz parte do acervo do Museu do Sertão. É esse capítulo que sustenta a Rota do Cangaço, roteiro de barco que leva os visitantes até o local exato da emboscada.
O que provar na gastronomia sertaneja e ribeirinha?
A cozinha local combina peixes do São Francisco, produtos da caatinga e receitas tradicionais do sertão. Alguns pratos e paradas típicas:
- Peixes do São Francisco: surubim, pacamã e tucunaré servidos em moquecas, grelhados ou fritos nos restaurantes ribeirinhos.
- Doce de Coroa de Frade: espécie de cocada feita com o fruto do cacto típico da caatinga, receita rara servida em restaurantes da região.
- Buchada e sarapatel: pratos tradicionais do sertão, servidos em botecos e casas coloniais do centro.
- Cachaça artesanal: produção regional vendida no comércio do centro histórico.
- Artesanato em pele de tilápia: produtos como bolsas e sandálias vendidos no Pavilhão do Artesanato, ao lado do Museu do Sertão.

Como chegar a Piranhas?
Piranhas fica a cerca de 265 km de Maceió, com acesso pela BR-316 em conexão com estradas estaduais até a região do Baixo São Francisco. A capital alagoana tem o Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, com voos diretos das principais capitais brasileiras.
Também é possível chegar pelo Aeroporto Internacional Santa Maria, em Aracaju (217 km), atravessando o rio pela ponte que liga Canindé de São Francisco a Piranhas. Muitos visitantes combinam a visita com o polo turístico sergipano do outro lado do rio, ampliando o roteiro para dois estados.
A Lapinha do Sertão que virou vitrine do Nordeste
Piranhas oferece o que raramente aparece num só destino brasileiro: casario colonial tombado, o maior cânion navegável do país, um museu montado sobre o desfecho do cangaço e uma cozinha ribeirinha que mistura peixe do rio com fruto de cacto. É a cidade que mostra o Nordeste que não cabe nas praias do litoral e que Dom Pedro II viu de dentro de uma canoa em 1859.
Você precisa reservar pelo menos três noites em Piranhas, encarar o passeio pelos cânions ao amanhecer e caminhar pelo centro histórico depois do pôr do sol, quando as ladeiras de pedra ganham a iluminação amarela dos casarões.




