A 160 km de Maceió, no sul de Alagoas, Penedo se ergue imponente sobre um rochedo às margens do Rio São Francisco. É uma das cidades mais antigas do Brasil, fundada em 1560 durante a colonização portuguesa, guarda quatro igrejas barrocas dos séculos XVII e XVIII, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1996 e desde outubro de 2023 integra a Rede Mundial de Cidades Criativas da UNESCO na categoria Cinema, sendo a 2ª cidade brasileira reconhecida nessa área ao lado de Santos. Uma cidade museu de 63 mil habitantes onde o pôr do sol desce atrás das igrejas barrocas e pinta o Velho Chico de laranja.
Do “grande penedo” à Atenas Alagoana
A história começa no século XVI, quando exploradores portugueses subiram o Rio São Francisco em busca de novos territórios e encontraram uma formação rochosa imponente na margem esquerda do rio. Sobre esse grande penedo nasceu o povoado que daria origem à cidade. Segundo dados oficiais do IPHAN, a fundação data de 1560, o que faz de Penedo uma das cidades mais antigas do país. O povoado virou vila em 1636 e cidade em 1842, dois anos antes da elevação de Alagoas à condição de província.
A localização estratégica marcou o destino da cidade. Penedo controlava o acesso ao Rio São Francisco, principal rota fluvial para o interior do continente, e virou entreposto comercial disputado. Em 1637, as tropas do príncipe holandês Maurício de Nassau invadiram a cidade para garantir o domínio da navegação fluvial durante o Brasil Holandês. Permaneceram por oito anos. Essa passagem plural, com influências portuguesas, holandesas e francesas, moldou a arquitetura híbrida que se vê hoje. No século XIX, a intensa vida cultural rendeu à cidade o apelido de Atenas Alagoana.

1996: um dos conjuntos coloniais mais completos do Nordeste
O centro histórico de Penedo foi tombado pelo IPHAN em 1996 como conjunto histórico e paisagístico. Em 2026, o tombamento completou 30 anos. O Convento Franciscano de Santa Maria dos Anjos, no entanto, já contava com proteção federal desde 1941, quando o instituto começava a mapear os principais bens da arquitetura colonial brasileira. Segundo o portal oficial do IPHAN, o conjunto de Penedo abriga alguns dos mais importantes bens da arquitetura religiosa do Nordeste.
Poucas cidades brasileiras mantêm quatro séculos de história com tanta integridade urbana. As ruas de pedra intactas, os casarões coloridos dos séculos XVII e XVIII, as igrejas barrocas com talha dourada e a paisagem do Velho Chico correndo aos pés das construções coloniais colocam Penedo ao lado de destinos como Ouro Preto e Paraty no mapa do patrimônio colonial brasileiro. A diferença é que o roteiro cabe inteiro em uma caminhada de fim de tarde.
Cidade Criativa do Cinema pela UNESCO desde 2023
Em 31 de outubro de 2023, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) anunciou Penedo como novo membro da Rede Mundial de Cidades Criativas na categoria Cinema. No edital daquele ano, apenas Penedo e o Rio de Janeiro (na categoria Literatura) foram selecionados entre os candidatos brasileiros. A cidade alagoana se tornou a 2ª brasileira na categoria Cinema, ao lado de Santos, e uma das 5 do mundo a receber a chancela em 2023 nessa área criativa.
O reconhecimento tem raízes no Festival de Cinema Brasileiro de Penedo (FEMUPE), um dos mais antigos festivais de cinema em atividade no Nordeste. Com o título, a cidade passou a integrar circuitos internacionais de troca de experiências entre municípios criativos, participar de conferências mundiais como o Fórum Mundial de Cidades da UNESCO, realizado em Braga, em Portugal, em 2024, e atrair produções cinematográficas para gravações locais. O antigo Cine Penedo, sem funcionamento comercial desde 1962, foi reinaugurado em 2023 como parte da estratégia de fortalecimento do setor.
O que fazer no centro histórico de Penedo?
O centro histórico é compacto e caminhável. Todas as atrações ficam a poucas quadras umas das outras, e o roteiro completo se percorre em um dia inteiro.
- Convento e Igreja de Santa Maria dos Anjos: construído entre 1660 e 1759, com proteção federal desde 1941. O altar-mor foi pintado com ouro em pó misturado a óleo de baleia e clara de ovo.
- Igreja de Nossa Senhora da Corrente: erguida a partir de 1764, esconde sob a fachada simples um interior coberto de azulejos portugueses. Foi onde Dom Pedro II participou de cerimônia em 1859.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: construída no período colonial por escravizados, com estilo barroco vibrante e fachada de traços curvilíneos.
- Igreja de São Gonçalo Garcia: templo colonial completa o quarteto barroco do centro histórico, com interior preservado e talha dourada.
- Museu do Paço Imperial: instalado no palácio onde Dom Pedro II se hospedou em 13 de outubro de 1859, quando visitou a cidade a caminho da cachoeira de Paulo Afonso.
- Praça Barão de Penedo: coração da cidade histórica, cercada por casarões coloridos e ponto de partida da caminhada pelo centro tombado.
- Casa do Penedo (Museu do Cinema): acervo dedicado à história cinematográfica local, valorizada com a chancela da UNESCO.
O Rio São Francisco e a Foz do Velho Chico
Além do patrimônio colonial, Penedo se organiza em torno do Rio São Francisco. O rio corta a cidade e abre a possibilidade de passeios fluviais que integram a experiência turística. A partir do Cais do Porto, no centro histórico, saem embarcações regulares que oferecem travessias curtas até a cidade sergipana de Neópolis, na margem oposta, e passeios mais longos rumo à foz do rio.
- Foz do Rio São Francisco: a 30 km da cidade, com dunas e lagoas comparadas aos Lençóis Maranhenses em versão reduzida, apelidadas de Lençóis Alagoanos.
- Travessia para Neópolis (SE): barcas partem regularmente do Cais do Porto e cruzam o Velho Chico em cerca de 20 minutos.
- Passeios de barco pelo Velho Chico: roteiros curtos ao pôr do sol saem da orla histórica com narração sobre a história ribeirinha.
- Piaçabuçu: cidade vizinha a 40 km de Penedo, ponto de partida oficial para a foz do rio, com pousadas rústicas e restaurantes especializados.
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O que se come na cidade museu?
A gastronomia é ribeirinha por natureza, com peixes de água doce do Rio São Francisco como protagonistas. Restaurantes tradicionais e cantinas familiares preservam receitas de séculos.
- Pitu na moranga: crustáceo típico do São Francisco preparado com molho branco e servido dentro de uma abóbora moranga assada.
- Surubim assado: peixe símbolo do Velho Chico servido inteiro com pirão de arroz, farofa de banana e limão.
- Moqueca de camarão do rio: camarões cozidos em leite de coco com pimentões e coentro, especialidade das cantinas ribeirinhas.
- Peixada penedense: peixe do rio cozido em caldo grosso com tomate, cebola e coentro, receita de raiz colonial.
- Doces caseiros: compotas de goiaba, doce de leite e doces de frutas do sertão fecham a refeição, tradição das antigas quitandas do centro.
Como chegar a Penedo
O principal acesso é pelo Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, em Maceió, com voos diários das principais capitais brasileiras. Do aeroporto, o trajeto até Penedo leva cerca de duas horas e meia de carro pela Rodovia BR-101 Sul e depois pela AL-101 ou AL-225. Há também opção pelo Aeroporto Internacional Santa Maria, em Aracaju, capital de Sergipe, a cerca de 100 km ao sul. Ônibus intermunicipais partem regularmente do Terminal Rodoviário João Paulo II, em Maceió. Penedo integra o roteiro do Baixo São Francisco com Piaçabuçu, Igreja Nova e a região sergipana de Neópolis e Propriá.
A cidade museu do Velho Chico
Penedo entrega o que quase nenhum destino brasileiro reúne. Uma das cidades mais antigas do Brasil, com centro histórico tombado pelo IPHAN há 30 anos, quatro igrejas barrocas dos séculos XVII e XVIII, um selo internacional inédito de Cidade Criativa do Cinema pela UNESCO e a paisagem do Rio São Francisco correndo aos pés dos casarões coloniais. Poucos destinos brasileiros carregam esse peso histórico em um roteiro que ainda cabe em uma caminhada de fim de tarde.
Você precisa conhecer Penedo num fim de semana de outubro, subir a ladeira até o Convento Franciscano ao pôr do sol e reservar uma tarde para o passeio de barco pelo Velho Chico para entender por que a Atenas Alagoana virou o principal destino histórico do interior de Alagoas.




