A 101 km de São Paulo, Itu é a Cidade dos Exageros e virou destino turístico por causa de um humorista dos anos 1960 e, décadas antes, abrigou a reunião que fundou o Partido Republicano Paulista (PRP). A cidade dos exageros carrega, na mesma calçada, o berço formal da República brasileira.
Uma piada de TV que virou identidade de cidade
A fama do exagero nasceu num programa de televisão na década de 1960. O humorista ituano Francisco Flaviano de Almeida, o Simplício, interpretava um caipira que contava vantagens sobre sua terra natal, garantindo que em Itu tudo era maior do que no resto do país. A brincadeira viralizou antes da internet existir.
A prefeitura abraçou a piada. Hoje, a Praça dos Exageros concentra esculturas descomunais de formigas, joaninhas, jogo de xadrez e o boneco do próprio Simplício, enquanto o Orelhão de Itu, na Praça Padre Miguel, virou ponto de foto obrigatório. Em 1979, a cidade recebeu o título oficial de Estância Turística de São Paulo, formalizando o que havia começado como piada.

O sobrado onde a República começou a ser desenhada
Em 18 de abril de 1873, mais de cem políticos, fazendeiros de café e advogados se reuniram num sobrado do centro de Itu. Segundo o Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP), a chamada Convenção de Itu efetivou as bases do Partido Republicano Paulista, que forneceria o combustível ideológico e político para a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889.
Como registrou o Jornal da USP, o encontro reuniu representantes de clubes republicanos de várias cidades paulistas e até do Rio de Janeiro. Em pleno Segundo Reinado, era um passo audacioso: a elite cafeeira decidia romper com a monarquia. Cinquenta anos depois, em 18 de abril de 1923, o mesmo sobrado foi transformado em museu pelo então presidente do Estado de São Paulo, Washington Luís.
Um museu da USP no centro da cidade
O Museu Republicano Convenção de Itu funciona hoje como extensão do Museu Paulista da USP, na Rua Barão do Itaim, 67. O prédio de fachada azulejada preserva a Sala da Convenção, com mobília e um lustre francês de cristal que recriam o ambiente da reunião de 1873.
Entre as peças mais raras do acervo estão objetos pessoais de Prudente de Moraes, ituano de nascimento e primeiro presidente civil do Brasil, que governou entre 1894 e 1898. O saguão traz painéis de azulejos instalados nos anos 1940, com cenas que entrelaçam a história de Itu com marcos nacionais. Aberto de terça a domingo, das 10h às 17h, com entrada gratuita.
Uma cidade que já foi a mais rica de São Paulo
Antes de virar piada e antes de virar berço da República, Itu foi um endereço de fortuna. A cidade foi fundada em 2 de fevereiro de 1610 pelo bandeirante Domingos Fernandes e seu genro Cristóvão Diniz, com a construção de uma capela em louvor a Nossa Senhora da Candelária, no local onde hoje fica a Igreja do Bom Jesus. A data é oficial segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, o ciclo do açúcar e depois o do café transformaram a região no principal reduto econômico da Província de São Paulo. Foi essa elite cafeeira, endinheirada e insatisfeita com o Império, que financiou a Convenção de 1873. Sem o açúcar e o café de Itu, dificilmente o sobrado teria virado palco de conspiração republicana.

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O nome que veio do tupi e ficou nas cachoeiras
Segundo a Prefeitura da Estância Turística de Itu, o nome tem origem tupi, derivado de Ytu-Guaçu, que significa cachoeira grande. A referência é aos saltos do rio Tietê que marcavam a paisagem da região, hoje concentrados na vizinha cidade de Salto, que se emancipou de Itu no século XX.
A vocação natural continua presente no Parque do Varvito, área geológica no centro urbano com rochas sedimentares raras, formadas há cerca de 280 milhões de anos por geleiras que cobriam parte do que hoje é o interior paulista. Ou seja, mesmo o que Itu não exagera tem escala de continente.
Vale conhecer Itu
Poucas cidades brasileiras conseguem combinar humor pop e história política pesada como Itu. Do orelhão gigante ao sobrado onde a República começou a ser rascunhada, tudo cabe num caminhada curta pelo centro histórico.
Você precisa reservar um dia inteiro para andar por Itu e entender por que essa cidade sabe rir de si mesma sem esquecer que já mudou o rumo do Brasil.




