Quem caminha pelo centro de Araraquara pisa sobre rastros de 135 milhões de anos sem perceber. A 270 km da capital paulista, a Morada do Sol combina um acervo paleontológico raro, campus consolidado da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e uma qualidade de vida que a colocou entre os principais destinos de migração do interior de São Paulo.
Um deserto, um vulcão e as calçadas jurássicas
A história geológica explica o fenômeno. Segundo a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mais de mil pegadas fossilizadas de dinossauros já foram catalogadas na cidade. As marcas ficaram gravadas em lajes de arenito da Formação Botucatu, extraídas de uma pedreira local e usadas na pavimentação de calçadas e guias no fim do século XIX.
O paleontólogo italiano Giuseppe Leonardi descobriu as pegadas em 1976, durante uma caminhada pelo Parque Infantil, no centro. Em 2023, um estudo conduzido por pesquisadores da UFSCar e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificou nesse acervo uma nova espécie de dinossauro carnívoro, o Farlowichnus rapidus, um pequeno predador que corria pelas dunas do que hoje é o interior paulista.

Por que Araraquara aparece como uma boa cidade para morar?
Os indicadores sustentam a fama. O município tem cerca de 234 mil habitantes e ocupa 1.003 km² a 664 metros de altitude, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É a 17ª maior cidade do interior paulista e sedia campi de três instituições públicas de ensino superior: Unesp, Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec) e Instituto Federal de São Paulo (IFSP).
A economia se divide entre agroindústria da cana e da laranja, polo sucroalcooleiro e um setor de serviços movido pela população universitária. O centro histórico preservado, o transporte público reformulado e a distância confortável de 270 km da capital fazem da Morada do Sol destino frequente de quem troca São Paulo pelo interior.
A cidade que teve 100% da frota de ônibus movida a eletricidade
Poucas pessoas sabem, mas Araraquara foi pioneira no transporte elétrico brasileiro. A Companhia Trólebus de Araraquara (CTA), inaugurada em 1959, chegou a operar 118 km de linhas e transportar mais de 46 mil passageiros por dia no auge dos anos 1980.
Foi a única cidade brasileira a ter 100% da frota de transporte público composta por ônibus elétricos. O sistema foi desativado em 2000, mas a memória segue viva no Museu do Trólebus, ponto obrigatório para quem visita o centro histórico.
O que fazer na Morada do Sol em um fim de semana
A cidade cabe em dois dias de passeio, sempre combinando o roteiro paleontológico com o centro histórico e um trecho gastronômico. As principais paradas ficam em raio curto:
- Boulevard dos Oitis: túnel verde na Rua Voluntários da Pátria com oitis centenários sobre paralelepípedos de granito, patrimônio tombado e principal cartão-postal.
- Parque Infantil: praça central onde ficam algumas das pegadas de dinossauro em exposição a céu aberto.
- Museu de Arqueologia e Paleontologia de Araraquara (MAPA): acervo com 36 mil peças, entre pegadas fossilizadas e fósseis de diferentes períodos geológicos.
- Catedral de São Bento: matriz da cidade em estilo neogótico na Praça Pedro de Toledo, marco da fundação da freguesia.
- Museu do Trólebus: acervo dedicado aos anos de operação do sistema pioneiro de transporte elétrico.
- Estação Ferroviária de Bueno de Andrada: distrito rural famoso pelas Coxinhas Douradas, que recebem milhares de visitantes todos os anos.
Como é o clima de Araraquara durante o ano?
A cidade fica a 664 metros de altitude e tem clima tropical, com verões quentes e chuvosos e invernos secos e amenos. A tabela resume o que esperar em cada estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Araraquara
Saindo da capital paulista, o percurso de 270 km é feito pela Rodovia Anhanguera (SP-330) ou pela Rodovia Bandeirantes (SP-348), com cerca de três horas e meia de viagem. De Campinas, a Anhanguera cobre os 170 km em pouco mais de duas horas. O Aeroporto Bartolomeu de Gusmão opera voos regionais.
A cidade que guarda 135 milhões de anos nas calçadas
Poucas cidades brasileiras conseguem juntar paleontologia de museu, universidade pública de peso e um centro histórico onde o passado geológico está literalmente sob os pés. Araraquara faz essa combinação com o ritmo tranquilo do interior paulista.
Você precisa caminhar pelo Boulevard dos Oitis em uma tarde de outono para entender por que a Morada do Sol virou destino de quem quer viver bem sem abrir mão de história.




