Há cidades que se reconhecem pelo som, outras pela paisagem. Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, era reconhecida pelo cheiro: nas primeiras décadas do século XX, os laranjais em flor perfumavam os trilhos que cortavam a região. Hoje, a cidade guarda outra história curiosa, no alto do Maciço do Mendanha, onde uma formação rochosa ganhou fama de vulcão extinto, embora os cientistas ainda discutam se ela merece mesmo esse nome.
Por que Nova Iguaçu era chamada de Cidade Perfume?
Por causa das laranjeiras em flor. Segundo o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), do Governo do Rio de Janeiro, a laranja aparece nas exportações de Nova Iguaçu desde 1891, mas o período de ouro da citricultura foi a década de 1930. Entre 1930 e 1940, a cidade foi chamada de Cidade Perfume, porque as laranjeiras floridas perfumavam todo o trajeto das ferrovias.
A laranja substituiu outros ciclos econômicos. O Inepac registra que, antes, a região viveu do milho, da cana-de-açúcar e do café, e que a citricultura ocupou terras onde esses cultivos tinham perdido força. Os trilhos da ferrovia, que levaram o centro urbano para perto da estação, também ajudaram a escoar a produção.

O que acabou com os laranjais de Nova Iguaçu?
A guerra e as pragas. Um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), baseado em informações da Prefeitura e do IBGE, registra que, quando começou a Segunda Guerra Mundial, a próspera economia da laranja sofreu um duro golpe, com o fim repentino do cultivo e da exportação, porque boa parte da produção ia para o mercado internacional.
A tentativa de recuperação não deu certo. Segundo o Sindicato do Comércio Varejista de Nova Iguaçu (Sincovani), depois do conflito os produtores tentaram retomar a atividade, mas as pragas impediram o sucesso, e no início dos anos 1950 o ciclo da laranja perdeu sua força econômica. Os antigos pomares deram lugar a loteamentos e à expansão urbana da Baixada.
O que ver em Nova Iguaçu?
O roteiro mistura a memória da laranja e a natureza do maciço. Estes são alguns dos destaques.
Existe mesmo um vulcão em Nova Iguaçu?
A resposta divide os cientistas. Segundo uma monografia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1980 os geólogos Victor Klein e André Vieira interpretaram que as rochas formadas por fragmentos lançados em erupções, encontradas na borda do Maciço do Mendanha, vinham de um vulcão extinto, que ficou conhecido como Vulcão de Nova Iguaçu.
A interpretação foi contestada. A página da Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (Sigep), mantida pelo Serviço Geológico do Brasil, registra que pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense, em estudo de 2008, questionaram a existência de um vulcão preservado com base em análises do relevo, e passa a se referir ao local como um suposto vulcão.
O que dizem os estudos sobre a cratera?
Que ela pode ser obra da erosão. Segundo o portal Invivo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a atividade do magma na região teria cessado entre 145 milhões e 65 milhões de anos atrás, e a possível cratera vista no local teria se formado pela erosão ao longo do tempo, e não diretamente por uma erupção.
Isso não diminui o valor do lugar. Houve, sim, atividade vulcânica na região em um passado muito distante, e as rochas do Maciço do Mendanha guardam registros importantes da história geológica do Rio de Janeiro. A diferença está em como interpretar o que restou: um vulcão preservado ou as raízes de um antigo sistema vulcânico, expostas por milhões de anos de desgaste.

Como é o clima de Nova Iguaçu ao longo do ano?
O verão é quente e chuvoso, e o inverno, mais seco. Janeiro concentra 236 mm de chuva em média, enquanto agosto registra 35 mm, e as máximas chegam a 31°C em janeiro e fevereiro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade de perfumes e mistérios de pedra
Nova Iguaçu guarda duas histórias que ajudam a entender a Baixada Fluminense de outra forma. Nos anos 1930, os laranjais em flor deram à cidade o apelido de Cidade Perfume, até que a guerra e as pragas encerraram esse ciclo. No alto do Maciço do Mendanha, uma formação rochosa virou o famoso vulcão da cidade, tema de um debate científico que segue aberto. Entre a memória e a ciência, a cidade convida a olhar seu território com curiosidade.
Você precisa subir o Maciço do Mendanha, observar a famosa cratera e imaginar os trilhos perfumados pelos laranjais de quase cem anos atrás para entender as muitas camadas da história de Nova Iguaçu.




