Mais de 40 diferentes toques ecoam das torres das igrejas de São João del Rei, em Minas Gerais, marcando momentos da vida cotidiana como missas, festas religiosas, lutos e até alertas de incêndio. Essa tradição, reconhecida pelo IPHAN como patrimônio imaterial do Brasil, faz da cidade um lugar onde o tempo ainda parece ser guiado pelo som dos sinos de bronze.
Como São João del Rei manteve sua relevância após o ciclo do ouro?
Localizada às margens do Rio das Mortes, São João del Rei surgiu no início do século XVIII durante o ciclo do ouro na antiga Comarca do Rio das Mortes. Seu nome faz referência a São João Batista e à coroa portuguesa, em um período em que a mineração impulsionava a ocupação da região, atraindo bandeirantes e dando origem a igrejas e caminhos pela serra.
Com o esgotamento do ouro, muitas cidades mineradoras entraram em declínio, mas São João del Rei seguiu um caminho diferente. A cidade se transformou em um importante entreposto comercial e ganhou ainda mais relevância com a chegada da Estrada de Ferro Oeste de Minas em 1881. Esse dinamismo ajudou a preservar seu conjunto histórico, que reúne cerca de 700 imóveis tombados pelo IPHAN desde 1938, combinando arquitetura colonial e fachadas de períodos posteriores.

O que visitar no centro histórico são-joanense?
As ruas de pedra concentram séculos de arte sacra, memória ferroviária e história republicana. Algumas atrações ficam a poucos passos umas das outras.
- Igreja de São Francisco de Assis: projeto original de Aleijadinho, executado por Francisco de Lima Cerqueira no século XVIII. Aos domingos, a Orquestra Ribeiro Bastos toca na missa das 9h15.
- Catedral Nossa Senhora do Pilar: templo setecentista com talha dourada e teto pintado, sede das principais celebrações religiosas da cidade.
- Museu Ferroviário: tombado pelo Iphan em 1989, abriga a locomotiva nº 1, que transportou Dom Pedro II na inauguração da ferrovia. Entrada gratuita.
- Memorial Tancredo Neves: acervo interativo sobre o presidente mineiro nascido na cidade, com recursos digitais que cruzam a trajetória política com a história de Minas Gerais.
- Ponte do Rosário: construção de pedra do século XVIII sobre o Córrego do Lenheiro, um dos cartões-postais mais fotografados do centro.
O vídeo é do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 30 mil inscritos, e apresenta 10 curiosidades sobre São João del-Rei, destacando o passeio de Maria Fumaça, o legado de Tancredo Neves e a rica gastronomia mineira:
Maria Fumaça: 12 km entre duas cidades históricas
O trem a vapor que liga São João del Rei a Tiradentes é o mais antigo em operação contínua no país. A locomotiva percorre 12 km de trilhos com bitola de 76 cm, margeando o Rio das Mortes e a Serra de São José. O trajeto dura cerca de 40 minutos e funciona às sextas, sábados e domingos.
Na estação de Tiradentes, os visitantes podem assistir à rotunda, a manobra manual que gira a locomotiva para o retorno. O complexo ferroviário inteiro, incluindo locomotivas, vagões e estações, é patrimônio tombado. A passagem custa R$ 86 (inteira) e R$ 43 (meia).

Orquestras bicentenárias e o carnaval dos blocos caricatos
São João del Rei abriga duas das mais antigas orquestras sacras das Américas: a Lira Sanjoanense e a Ribeiro Bastos. Ambas executam repertório do século XVIII em missas semanais nas igrejas do centro, uma tradição que não se interrompeu em mais de 200 anos. A cidade foi eleita Capital Brasileira da Cultura em 2007.
Na Semana Santa, procissões centenárias tomam as ruas com tapetes de serragem e flores. No carnaval, o tom muda: blocos caricatos com fantasias artesanais arrastam milhares de foliões pelas ladeiras coloniais.
Sabores mineiros entre casarões e botecos
A mesa são-joanense segue o receituário clássico de Minas, com toques locais que surpreendem até quem nasceu no estado.
- Frango com quiabo: servido em panela de barro nos restaurantes do centro, acompanhado de angu e couve.
- Feijão tropeiro: com linguiça, bacon, farinha de mandioca e temperos da roça.
- Pão de queijo recheado com bolinho de feijão: combinação típica da cidade, encontrada em padarias e lanchonetes.
- Doce de leite com goiabada: o clássico Romeu e Julieta mineiro, presente nas confeitarias do centro histórico.
- Cachaça artesanal: alambiques da região de Coronel Xavier Chaves, a 20 km, oferecem degustação e visitação.

Leia também: A “Manchester Goiana” a 1.000m de altitude, produz seis dos dez remédios mais vendidos e move a saúde do Brasil.
Quando visitar a terra onde os sinos falam?
O clima é tropical de altitude, com invernos secos e noites frias. A melhor época depende do tipo de experiência que o visitante busca.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a São João del Rei
A cidade fica a 185 km de Belo Horizonte pela BR-040 e BR-265, cerca de 2h30 de carro. De São Paulo, são 490 km pela Fernão Dias (BR-381). O aeroporto local recebe apenas voos fretados, mas Juiz de Fora (130 km) e BH oferecem conexões regulares.
Ouça os sinos antes de ir embora
São João del Rei é uma das raras cidades brasileiras onde o barroco não virou cenário congelado. As orquestras tocam, os sinos comunicam, a maria fumaça apita e a comida chega quente na mesa de botecos que existem há gerações.
Você precisa caminhar pelas ruas de pedra no fim da tarde, quando o bronze das torres começa a conversar, e entender por que os são-joanenses dizem que aqui o tempo se ouve.










