Toda festa tradicional parece ter nascido do povo que ela celebra, mas a origem nem sempre confirma a aparência. Na Serra Gaúcha, a Festa Nacional da Uva, símbolo da colonização italiana em Caxias do Sul, foi idealizada por um gaúcho de Rio Pardo que chegou à cidade pelos trilhos da ferrovia e abraçou a cultura dos colonos. A primeira edição, em 1931, durou um único dia, e a mesma cidade chegou a ver sua praça mais antiga perder o nome de Dante Alighieri durante a Segunda Guerra Mundial.
Quem idealizou a Festa da Uva?
Foi Joaquim Pedro Lisboa, um gaúcho que chegou à serra como funcionário da ferrovia. Segundo o Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, ele trabalhou como tipógrafo em Santa Maria e depois como telegrafista da Viação Férrea, passando por várias cidades até ser transferido para Caxias nos anos 1920. A decisão de se fixar ali teve motivo doméstico: a família era numerosa, e a educação dos filhos pedia um endereço definitivo.
Na cidade, Lisboa deixou a ferrovia e passou a trabalhar como escrivão da Coletoria Estadual. Em 1931, idealizou uma exposição de uvas no salão de festas do Recreio da Juventude, que recebeu até a visita do prefeito Miguel Muratore. Ele seguiu ligado à festa por décadas, como secretário, presidente e vice-presidente de diferentes edições, até morrer em 1974.

Como uma exposição de um dia virou a Festa Nacional da Uva?
Com uma segunda edição muito maior, organizada no ano seguinte. De acordo com o arquivo municipal, a mostra de 1931 durou apenas um dia, e por isso a festa de 1932 é considerada a primeira grande edição. Aberta em 28 de fevereiro, ela teve um desfile de carros alegóricos, então chamado de Parada da Uva, e um pavilhão de exposições erguido especialmente na Praça Dante Alighieri.
Quase um século depois, a festa segue no calendário da serra. Segundo o site oficial da Festa Nacional da Uva, a 35ª edição, realizada de 19 de fevereiro a 8 de março de 2026, teve como tema os 150 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul, e a organização a descreve como uma das maiores festas comunitárias do país.
Onde a herança da imigração pode ser visitada?
A memória dos colonos está espalhada pela área urbana e cabe em um roteiro de um dia. O portal de turismo do Governo do Rio Grande do Sul e o acervo da Biblioteca do IBGE registram alguns desses endereços.
Por que a praça mais antiga da cidade perdeu o nome de Dante?
Por causa da hostilidade à Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo o portal de turismo do Rio Grande do Sul, a Praça Dante Alighieri foi a primeira da cidade, abriga o marco zero e tem fundação datada de 1875, feita pelos próprios imigrantes. Um registro da Biblioteca do IBGE informa que, em 22 de maio de 1942, durante uma manifestação da Liga de Defesa Nacional, ela foi rebatizada de Praça Rui Barbosa, e só recuperou o nome original em 1990.
O episódio chama atenção numa cidade que nasceu italiana. De acordo com a Prefeitura de Caxias do Sul, os primeiros imigrantes chegaram em 1875, o território recebeu o nome de Colônia de Caxias dois anos depois e o município foi criado em 20 de junho de 1890. Em 1º de junho de 1910, a chegada do primeiro trem coincidiu com a elevação de Caxias à categoria de cidade, abrindo o caminho que, anos depois, levaria Joaquim Pedro Lisboa à serra.

Como é o clima de Caxias do Sul durante o ano?
Na serra, o frio faz parte da identidade: julho tem mínima média de 8°C e máxima de 17°C. A chuva se espalha pelo ano inteiro, com outubro como o mês mais chuvoso, em média 220 mm.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
A festa que a serra adotou como sua
Caxias do Sul costuma ser lembrada como a cidade dos imigrantes italianos, e é mesmo. Sua festa mais famosa, porém, nasceu da iniciativa de um telegrafista de Rio Pardo que adotou a serra como casa, começou como uma mostra de um só dia e cresceu até virar símbolo de toda a colônia. A praça onde os imigrantes fincaram o marco zero perdeu e recuperou o nome de Dante, e a cidade seguiu fiel às próprias raízes. No fim, a história mostra que a tradição caxiense foi construída pela soma de gaúchos e italianos que decidiram cuidar dela juntos.
Você precisa caminhar pela Praça Dante Alighieri numa manhã fria da serra, subir até o Monumento Nacional ao Imigrante e entender como uma festa sonhada por um gaúcho de Rio Pardo virou o retrato mais fiel de Caxias do Sul.




