A 140 km de Brasília e a 54 km de Goiânia, a “Manchester Goiana” resurge como Anápolis, uma cidade que vive uma rotina que poucos brasileiros conhecem: fabrica boa parte dos medicamentos que abastecem as farmácias do país, guarda a casa onde a capital federal ganhou ordem para nascer e abriga os caças mais modernos da Força Aérea Brasileira (FAB).
De rancho de tropeiros a Manchester Goiana
A história começa no século XVIII, com tropeiros que faziam pouso no caminho das minas de ouro de Meia Ponte, atual Pirenópolis. O primeiro documento oficial sobre a região é de abril de 1870, quando moradores doaram terras para o Patrimônio de Nossa Senhora de Santana, marco do futuro povoado.
O povoado virou Vila de Santana das Antas em 15 de dezembro de 1887 e, em 31 de julho de 1907, foi elevado à categoria de cidade com o nome Anápolis, junção do grego Ana, em referência a Sant’Ana, com polis, cidade. A chegada da Estrada de Ferro de Goiás, em 7 de setembro de 1935, transformou o município no maior entreposto comercial do estado e plantou a semente da vocação industrial que rendeu à cidade o apelido de Manchester Goiana.

A cidade que fabrica os remédios que o Brasil toma
Um levantamento da consultoria IQVIA divulgado em 2024 mostrou um dado impressionante: seis dos dez medicamentos mais vendidos do Brasil são produzidos em Anápolis. O destaque é o Neosoro AD, fabricado pela Neo Química, com 69,7 milhões de unidades vendidas e o segundo lugar no ranking geral do país.
A explicação está no Distrito Agroindustrial de Anápolis (DAIA), criado em 1976 e hoje considerado o segundo maior polo farmoquímico do Brasil. Reúne 21 laboratórios que juntos empregam mais de 11 mil trabalhadores diretos, segundo o Sindicato das Indústrias Farmacêuticas de Goiás (Sindifargo). Entre os gigantes instalados na cidade:
- Laboratório Teuto: chegou em 1993 e mantém o maior complexo farmacêutico da América Latina, com 105 mil m² de área construída.
- Neo Química: fabricante do Neosoro AD, segundo remédio mais vendido do país em 2024.
- Brainfarma: subsidiária do Grupo Hypera Pharma, investe R$ 2 bilhões na unidade goiana até 2026.
- Geolab: uma das pioneiras na fabricação de genéricos no Brasil após a Lei 9.787/99.
- Vitamedic: com R$ 580 milhões em expansão, produz cerca de 400 milhões de comprimidos por mês.
Anápolis se destaca como um dos pilares logísticos e industriais do Centro-Oeste brasileiro, estrategicamente localizada entre Goiânia e Brasília. O vídeo é do canal Cidades & Cia, que conta com mais de 100 mil inscritos, e apresenta a força econômica da cidade, seus parques, rica infraestrutura educacional e o histórico Porto Seco:
A casa onde a construção de Brasília começou
Antes de o Catetinho ser erguido no cerrado do futuro Distrito Federal, foi em uma casa simples de Anápolis que Juscelino Kubitschek assinou a ordem de serviço para o início das obras da nova capital, em 1956. O imóvel, hoje tombado como patrimônio municipal, virou ponto de memória sobre a decisão política que redesenhou o mapa do Brasil.
A escolha da cidade não foi casual. Segundo estudo do Governo de Goiás, Anápolis já era o principal entroncamento rodoviário e ferroviário do interior goiano, o que a transformou em base logística natural para o abastecimento do canteiro de obras.
A cidade que acendeu Goiás e hoje defende o céu de Brasília
Em 9 de janeiro de 1924, Anápolis se tornou a primeira cidade do estado a receber energia elétrica, graças ao pioneirismo do comerciante Francisco Silvério de Faria e do engenheiro Ralf Colleman. Décadas depois, o céu da cidade passou a ter outro tipo de energia: o rugido dos caças mais avançados da aviação brasileira.
A Base Aérea de Anápolis (BAAN), inaugurada em 1972, sedia o Primeiro Grupo de Defesa Aérea, conhecido como Esquadrão Jaguar, que opera os caças suecos F-39 Gripen. Em fevereiro de 2026, a Força Aérea Brasileira (FAB) colocou a aeronave em Alerta de Defesa Aérea pela primeira vez para proteger o espaço aéreo de Brasília. Do decolar em Anápolis ao céu da capital são cerca de cinco minutos de voo.
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Um planalto de 1.017 metros que virou coração logístico do país
Anápolis está a 1.017 metros de altitude no Planalto Central, o que rende noites mais frescas do que em Goiânia e Brasília. Essa posição elevada e central fez da cidade um dos maiores entroncamentos rodoviários do Brasil, cortada pela BR-060 e pela BR-153, a histórica Belém-Brasília.
A vocação logística ganhou reforço com o Porto Seco Centro-Oeste, estação aduaneira interior que conecta a região a mercados internacionais, e com o marco quilômetro zero da Ferrovia Norte-Sul, que sai justamente de Anápolis rumo ao Porto de Itaqui, no Maranhão. Poucos municípios brasileiros concentram tanta infraestrutura de escoamento em um só ponto.
Uma cidade que merece um olhar mais atento
Anápolis é o tipo de município que passa despercebido no mapa turístico do Brasil, mas se revela essencial quando se olha para o dia a dia do país. Está no comprimido que alguém toma pela manhã, na história de Brasília, no céu que a FAB protege.
Você precisa conhecer Anápolis e entender por que essa cidade goiana virou, sem alarde, uma das engrenagens mais importantes do território nacional.




