Toda montanha famosa tem uma primeira subida, mas poucas guardam a data exata em que alguém decidiu escalar apenas pelo prazer do desafio, sem ouro, caminho ou mapa como motivo. Em Morretes, no litoral do Paraná, isso aconteceu em 1879, quando um grupo alcançou o topo do Marumbi e inaugurou o montanhismo esportivo no Brasil. Entre a Serra do Mar, um caminho aberto por jesuítas e um centro histórico tombado, a cidade reúne capítulos que vão muito além do barreado e do passeio de trem.
Por que o Marumbi é considerado o berço do montanhismo brasileiro?
Porque foi ali que a escalada deixou de ser necessidade e virou esporte. Segundo o Instituto Água e Terra (IAT), a conquista do Pico Olimpo, a 1.539 m de altitude, em 1879, marcou o início do montanhismo esportivo no país. O cume foi considerado o ponto mais alto do estado até a conquista do Pico Paraná, na década de 1940.
Muito antes dos alpinistas, a montanha inspirava respeito. Os primeiros habitantes do litoral acreditavam que o Marumbi era um vulcão, porque o topo muitas vezes parecia soltar fumaça, e contavam que havia uma lagoa dourada no cume. Daí o nome original, Guarumby, que em tupi significa Montanha Azul.
A data da subida, 21 de agosto, virou símbolo. Em 2025, a Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) aprovou o projeto que inclui o Dia do Montanhismo no calendário oficial do estado, em homenagem ao feito de Joaquim Olympio de Miranda, Bento Manoel de Leão e Antônio Mecias.

Quais trilhas do Parque Estadual Pico do Marumbi o visitante pode fazer?
O Parque Estadual Pico do Marumbi, criado em 1990, protege 8.745 hectares de Mata Atlântica entre Morretes, Piraquara e Quatro Barras. Por segurança, apenas os quatro picos principais têm acesso autorizado, e o cadastro na portaria, com assinatura de um termo de conhecimento de risco, é obrigatório. As trilhas vão do passeio leve ao desafio técnico.
Que caminho ligava o planalto ao litoral antes da Estrada da Graciosa?
Era o Caminho do Itupava, trilha aberta por jesuítas no século XVIII sobre vestígios de rotas indígenas no meio da floresta. De acordo com o IAT, ele foi a principal ligação entre o planalto e a baía de Paranaguá até o fim do século XIX, quando surgiu a Estrada da Graciosa. O trajeto ainda preserva pedras no chão, pontes pênseis, a Casa do Ipiranga e uma antiga roda d’água, em cerca de 19 km de alta dificuldade até a sede de Prainhas.
Toda essa paisagem ganhou proteção legal em 1986, com o tombamento da Serra do Mar no Paraná. A Coordenação do Patrimônio Cultural (CPC) lembrou que o tombamento completou 40 anos em 13 de agosto de 2026, uma proteção que não recai sobre um edifício, mas sobre uma cordilheira inteira, com gente e atividades dentro dela.

O que o tombamento protege no centro histórico de Morretes?
Protege o desenho da cidade que nasceu às margens do Rio Nhundiaquara. Segundo a CPC, o traçado segue a implantação luso-brasileira clássica, com lotes estreitos e profundos e construções quase sempre térreas, que não ultrapassam a linha do horizonte. Ao longo do rio, varandas de restaurantes e quintais formam a fachada mais fotografada da cidade, onde o barreado, prato típico do litoral paranaense, divide a cena com a água.
A mesma fonte coloca Morretes no contexto das primeiras jazidas de ouro encontradas em território brasileiro, nos rios que deságuam na baía de Paranaguá, disputadas desde o século XVI por faiscadores vindos de São Vicente. O reconhecimento oficial demorou: conforme a Agência Estadual de Notícias do Paraná (AEN), o processo levou 25 anos e foi concluído em 18 de julho de 2022.
Como é o clima de Morretes durante o ano?
Em Morretes, chove bastante em todas as estações. Um estudo publicado pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) atribui esse padrão à proximidade do mar e ao relevo da serra, com janeiro como o mês mais chuvoso, em média 335 mm, e agosto como o mais seco, com 93 mm.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Morretes e ao Marumbi?
Morretes fica a cerca de 70 km de Curitiba. Segundo o IAT, um trem sai diariamente às 8h15 da Rodoferroviária de Curitiba e leva duas horas até a sede do parque. De carro, o acesso é pela BR-277 ou pela Estrada da Graciosa (PR-410) até o receptivo de Prainhas, no distrito de Porto de Cima, de onde restam 4,6 km até a Estação Marumbi, a pé, de bicicleta ou em veículo 4×4.
A montanha que ensinou o Brasil a subir
Morretes costuma ser lembrada pela mesa e pelos trilhos, mas sua história mais surpreendente está na vertical. A montanha que os primeiros habitantes temiam como um vulcão virou, em 1879, o ponto de partida de um esporte inteiro no país. Aos seus pés, o Caminho do Itupava ainda guarda as pedras de quem descia a serra antes das estradas, e o centro histórico, protegido depois de 25 anos de espera, mantém o desenho de uma vila nascida entre o ouro e o rio. É um lugar onde cada trilha e cada rua parecem responder à mesma pergunta: o que vale o esforço de chegar ao alto.
Você precisa descer a serra até Morretes, olhar para o Marumbi no fim da tarde e sentir, mesmo sem subir, o peso de uma montanha que mudou a forma como o Brasil enxerga suas alturas.




