Muita gente tem em casa, na beira da piscina ou na calçada, uma pedra clara e áspera conhecida como pedra São Tomé, sem saber de onde ela vem. A resposta está no Sul de Minas, em São Thomé das Letras, em Minas Gerais, uma cidade erguida no alto de uma serra feita dessa mesma rocha. Ali, o quartzito virou casa, rua, igreja e, há décadas, a principal fonte de renda dos moradores, ao mesmo tempo em que deixa marcas na paisagem.
O que é a pedra São Tomé?
Um quartzito que se separa em placas. Segundo informe da Associação Brasileira da Indústria de Rochas Ornamentais (Abirochas), os quartzitos de São Thomé das Letras são rochas metamórficas de origem sedimentar, altamente silicosas, cuja estrutura permite a extração direta de placas nas frentes de lavra. Em linguagem simples, é uma rocha formada por areia antiga transformada pelo calor e pela pressão, que se parte em lâminas.
A rocha é muito antiga. O mesmo informe explica que as camadas da Serra de São Thomé se formaram no Proterozóico Médio, período geológico que terminou há cerca de um bilhão de anos, e que sua composição é dominada por quartzo e mica. Como não tem minerais que reagem facilmente, a pedra resiste bem à chuva ácida e aos produtos de limpeza.

Por que a pedra é tão usada em pisos e piscinas?
Pela resistência e pela textura. Um estudo publicado na revista Geociências, da Unesp, registra que a pedra São Tomé é comercializada em variedades como a branca, a amarela e a rósea, e que suas placas formam superfícies antiderrapantes, uma característica valorizada em áreas molhadas, como a beira de piscinas.
O nome comercial vem da cidade. Segundo a Abirochas, a pedra São Tomé é um exemplo clássico de rocha de processamento simples, usada como material de revestimento, cujo nome remete à sua área de origem. A entidade publicou ainda um informe que trata a pedra como candidata a indicação geográfica, uma espécie de selo de origem.
Qual é o peso da pedra na economia da cidade?
É a base da economia local. Segundo estudo do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a extração de pedra é a principal atividade econômica de São Thomé das Letras desde 1940, e, segundo a Prefeitura citada no estudo, cerca de 70% da economia do município está ligada à produção de quartzito.
A produção é grande para uma cidade pequena. Um verbete técnico do Cetem estima a produção do centro produtor de São Thomé em cerca de 200 mil toneladas por ano e registra que a região detém uma parcela relevante das reservas brasileiras de quartzito. O mesmo documento aponta que o aproveitamento da rocha extraída não passa de 40%, o que gera grandes volumes de rejeito.
O que ver na cidade de pedra?
A pedra está em toda parte, das ruas às construções históricas. Estes são alguns dos destaques.
Quais são os impactos da extração?
Paisagem alterada e rios afetados. O Cetem registra que a mineração vem causando grande impacto ambiental na região ao longo dos anos e que a extração de quartzito compromete cursos d’água por assoreamento, ou seja, pelo acúmulo de resíduos que se depositam no leito dos rios. As montanhas de rejeitos também mudam a paisagem ao redor da cidade.
Há esforços para reduzir esses efeitos. A Abirochas destaca que a atividade passou por uma transformação desde a década de 1990, com práticas de controle ambiental e recuperação de áreas degradadas, e o Cetem cita operações de fiscalização para combater a extração irregular. O equilíbrio entre mineração e turismo segue como um dos principais desafios da cidade.

Como é o clima de São Thomé das Letras ao longo do ano?
O verão é chuvoso, e o inverno, seco e frio. Janeiro concentra 240 mm de chuva em média, enquanto julho registra apenas 18 mm, com mínima de 10°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade feita da própria montanha
São Thomé das Letras mostra como uma rocha formada há mais de um bilhão de anos pode moldar a vida de uma cidade inteira. O quartzito que se parte em placas virou as casas e as ruas do centro, sustenta a maior parte da economia local e chega a calçadas e piscinas de todo o país. Ao mesmo tempo, a extração deixa marcas na paisagem e nos rios, lembrando que essa riqueza exige cuidado para continuar existindo.
Você precisa caminhar pelas ruas de pedra de São Thomé das Letras, ver o pôr do sol do alto da serra e reparar nas placas sob seus pés para entender como essa cidade mineira está presente em tantas casas do Brasil.




