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Início Cidades

A pequena cidade de pedra a 1.440 metros de altitude com pinturas rupestres de 5 mil anos, uma gruta que “ligaria” a Machu Picchu e a mais antiga capital da ufologia brasileira

Por Maura Pereira
03/09/2026
Em Cidades, Turismo
A pequena vila nas montanhas onde quartzos a 1.440 metros encantam turistas de todo lugar

A narrativa mais conhecida sobre o surgimento de São Thomé das Letras remonta ao final do século XVIII. / Imagem ilustrativa

No alto da Serra das Letras, no Sul de Minas Gerais, São Thomé das Letras é uma das cidades mais atípicas do Brasil. A 1.440 metros de altitude, o município de pouco mais de 7 mil habitantes foi erguido sobre um depósito de quartzito de 570 milhões de anos, tem casas, ruas e calçadas feitas da mesma pedra clara, guarda inscrições rupestres com até 5 mil anos e alimenta há décadas o imaginário de místicos, ufólogos e viajantes que sobem a serra em busca do inexplicável. É a cidade que lançou em 2025 a marca turística Onde você é o mistério.

A lenda de João Antão e a carta que ninguém explicou

A origem do nome mistura história documentada e folclore. No fim do século XVIII, o escravo João Antão, fugido da fazenda do capitão João Francisco Junqueira, refugiou-se numa gruta no alto da serra. Segundo a tradição oral registrada pela Prefeitura, ali apareceu um homem de vestes brancas que lhe entregou uma carta destinada ao seu dono. O capitão se assustou: o escravo era analfabeto e não poderia ter escrito aquelas linhas. Ao visitar a gruta, encontrou apenas uma imagem de São Tomé e concedeu a alforria.

O senhor mandou construir uma capela ao lado da gruta e o povoado cresceu em torno dela. A primeira capela dedicada a São Tomé foi autorizada em 1770, e a construção da Igreja Matriz começou em 1785, com retábulos em estilo rococó e forro pintado pelo artista colonial Joaquim José da Natividade. Antes disso, a região era habitada pelos índios Cataguás, que deixaram as inscrições rupestres que dariam origem à segunda parte do nome. A ocupação portuguesa avançou com a chegada de fazendeiros e bandeirantes vindos dos sertões das Carrancas.

Uma cidade brasileira mística fundada em 1963 acima de uma mina de quartzos valiosos está atraindo visitantes por ser um portal enérgico natural
Curta trilhas leves e cristais vibrantes em São Thomé das Letras-MG, refúgio gostoso de vibes espirituais e brisa serrana acolhedora. Créditos: Wikipédia

Inscrições rupestres milenares em pigmento avermelhado

As Letras que completam o nome da cidade estão gravadas nas paredes das grutas e paredões de quartzito ao longo da serra. As marcas, em pigmento avermelhado, são atribuídas pelos pesquisadores aos índios Cataguases, que habitaram a região até o século XVIII. Segundo estudos citados pelo portal oficial da Prefeitura de São Thomé das Letras, algumas dessas pinturas têm entre 2 mil e 5 mil anos e podem ter tido função ritual ou cosmológica.

A leitura das inscrições nunca foi consenso científico. Diferentes correntes oferecem versões próprias: da hipótese arqueológica tradicional, com arte rupestre indígena, a interpretações esotéricas que ligam os desenhos a civilizações antigas. A visita à Gruta de São Thomé, onde estão algumas das inscrições mais conhecidas, é gratuita e fica no centro histórico. Do topo da gruta, o visitante alcança o mirante A Toca, com panorama urbano da cidade construída em pedra.

A gruta que levaria a Machu Picchu

A tradição mais famosa de São Thomé das Letras cabe em uma frase: existiria um túnel subterrâneo ligando a cidade a Machu Picchu, no Peru, a cerca de 3 mil quilômetros de distância. O ponto de partida seria a Gruta do Carimbado, no fim da Ladeira do Amendoim, com corredor estreito revestido de argila que, segundo os moradores antigos, teria sido construído pelos incas. A história ganhou força com expedições amadoras que tentaram mapear o interior da caverna nos anos 1990.

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Nenhuma delas confirmou a existência do túnel. Desde 2012, a entrada da Gruta do Carimbado está fechada à visitação por questões ambientais e de segurança, o que apenas reforçou o status de mistério intocado. O pesquisador local Oriental Luiz Noronha, autor do livro São Thomé das Letras e o mundo subterrâneo, dedicou décadas ao tema sem chegar a uma conclusão definitiva. As sete grutas principais da região formam um dos circuitos mais visitados do Sul de Minas.

Capital da ufologia e a ladeira onde os carros sobem sozinhos

Poucos municípios brasileiros acumulam tantos registros de fenômenos inexplicáveis. São Thomé das Letras é reconhecida como uma das mais antigas capitais brasileiras da ufologia, com relatos de avistamentos de OVNIs desde a década de 1960. Segundo o Correio Braziliense, moradores relatam luzes no céu há décadas, e grupos de ufólogos organizam vigílias nos mirantes da serra para tentar registrar novos avistamentos.

A Ladeira do Amendoim, no acesso à Gruta do Carimbado, é outro fenômeno da cidade. Carros com o motor desligado e o câmbio em ponto morto parecem subir o aclive sozinhos, ilusão de óptica gerada pelo relevo do terreno que se repete em pontos similares pelo mundo, mas ainda assim uma das atrações mais fotografadas. Somada a lendas de portais dimensionais, aparições de seres de luz e cristais energéticos, a cidade virou uma das principais rotas do chamado turismo místico do Brasil, atraindo místicos, esotéricos e curiosos de todo o país.

Cidade mística em Minas Gerais com lendas de portais, OVNIs e gruta que “ligaria” ao Peru chama atenção de turistas
São Thomé das Letras-MG revela Cachoeira Véu de Noiva, Gruta do Carimbado e trilhas místicas na Serra da Mantiqueira preservada. // Créditos: Wikipédia

O que fazer em São Thomé das Letras?

O roteiro combina patrimônio histórico, mistério e natureza. As atrações principais ficam no centro histórico ou a poucos quilômetros dele e formam um circuito que se percorre em três dias.

  • Gruta de São Thomé: caverna que deu origem à cidade, no centro histórico, com as inscrições rupestres milenares e o mirante A Toca logo acima, com panorama urbano.
  • Igreja Matriz de São Thomé: construída em 1785 sobre a rocha viva no centro da cidade, com retábulos em estilo rococó e forro pintado pelo artista colonial Joaquim José da Natividade.
  • Igreja de Pedra (Nossa Senhora do Rosário): construção iniciada em 1833 e finalizada em 1999, feita inteiramente com encaixe de pedra sobre pedra, sem cimento nem argamassa.
  • Pirâmide: formação de quartzito no centro da cidade, símbolo máximo do misticismo local e um dos pontos mais fotografados da rota.
  • Mirante do Cruzeiro: vista panorâmica de 360° do município e da Serra da Mantiqueira, especialmente belo ao amanhecer e no pôr do sol.
  • Ladeira do Amendoim: fenômeno óptico famoso em que carros com motor desligado parecem subir a ladeira sozinhos, no acesso à Gruta do Carimbado.
  • Vale das Borboletas: santuário ecológico cercado de mata nativa, com trilhas leves para caminhadas e áreas para meditação em silêncio.

Cachoeiras cristalinas em quartzito

Além das grutas e mirantes, a cidade guarda algumas das cachoeiras mais bonitas do Sul mineiro. As quedas d’água cortam a rocha de quartzito e criam poços de água transparente com fundo prateado.

  • Cachoeira do Flávio: uma das mais visitadas da região, com quedas d’água em meio à natureza exuberante e trilha curta de acesso.
  • Cachoeira Véu de Noiva: queda alta em formato de véu, com poço para banho e cenário emoldurado por vegetação nativa.
  • Cachoeira do Eubiose: em propriedade da Sociedade Brasileira de Eubiose, com energia procurada por praticantes de meditação.
  • Cachoeira da Lua: uma das mais afastadas do centro, com trilha mais longa e cenário preservado, ideal para quem busca isolamento.
  • Cachoeira do Paraíso: sequência de piscinas naturais em plataformas de pedra, cenário clássico das paisagens locais.

O que se come na Cidade das Pedras?

A gastronomia é mineira de raiz, com toques alternativos trazidos por comunidades que se instalaram na cidade desde os anos 1970. Restaurantes tradicionais e casas vegetarianas convivem no centro histórico.

  • Frango com quiabo e angu: prato clássico mineiro servido em restaurantes tradicionais próximos à Praça Barão de Alfenas.
  • Feijão tropeiro: mistura de feijão, farinha de mandioca, bacon, linguiça e ovos, acompanhamento clássico da culinária regional.
  • Truta na brasa: peixe típico das serras mineiras, servido inteiro com purê de banana e legumes assados.
  • Culinária vegetariana e natural: casas alternativas oferecem pratos com ingredientes orgânicos, herança das comunidades esotéricas que se estabeleceram na cidade.
  • Doces caseiros e queijos mineiros: tradição das quitandas da região, com destaque para doce de leite, goiabada cascão e queijos artesanais do Sul de Minas.

Como é o clima ao longo do ano

São Thomé das Letras tem clima tropical de altitude, com verões chuvosos e vegetação exuberante e invernos secos, frios e ideais para caminhadas. As noites são frescas o ano inteiro por causa dos 1.440 metros de altitude.

☀️ Verão Dez-Fev
Média: 15-26°C
Chuva: Alta
Cachoeiras e trilhas com vegetação exuberante.
🍂 Outono Mar-Mai
Média: 12-23°C
Chuva: Média
Grutas e pôr do sol nos mirantes.
❄️ Inverno Jun-Ago
Média: 7-22°C
Chuva: Baixa
Circuito histórico e ufo-turismo à noite.
🌸 Primavera Set-Nov
Média: 11-25°C
Chuva: Média
Vale das Borboletas e cachoeiras cristalinas.
💡 Dica do especialista: O inverno (7°C a 22°C) apresenta baixa incidência de chuvas, sendo ideal para realizar o circuito histórico e o ufo-turismo à noite. No verão, aproveite as cachoeiras e trilhas com vegetação exuberante; o outono é perfeito para visitar as grutas e ver o pôr do sol nos mirantes; e a primavera convida a explorar o Vale das Borboletas e as cachoeiras cristalinas!

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a São Thomé das Letras

A cidade fica a cerca de 45 km de Três Corações pela MG-050, principal via de acesso. De Belo Horizonte, são aproximadamente 400 km, cerca de cinco horas de carro, com trajeto pela BR-381. De São Paulo, o percurso é de 350 km via Rodovia Fernão Dias (BR-381) e MG-050, cerca de cinco horas. O acesso final se dá por estrada de asfalto sinuosa que sobe a serra. Não há aeroporto no município, mas os terminais mais próximos são os de Pouso Alegre e Varginha. São Thomé integra o roteiro do Sul de Minas junto a Cruzília e Baependi.

Leia também: Com 64% de área rural, Reserva da Biosfera da UNESCO e 2ª melhor qualidade de vida do Brasil: a cidade a 50 km de São Paulo que virou o refúgio da capital.

A cidade de pedra no topo da Serra

São Thomé das Letras é um daqueles destinos que resistem a explicação racional. Uma cidade inteira feita de quartzito no topo de uma serra, grutas que abrigam inscrições milenares, uma tradição ufológica que atravessa mais de 60 anos e um pôr do sol que emoldura tudo o que a cidade tem de mais misterioso. Poucos lugares no Brasil reúnem tantos elementos incomuns em raio tão curto.

Você precisa subir a serra num fim de semana de outono, visitar a Gruta de São Thomé pela manhã e esperar o pôr do sol no Mirante do Cruzeiro para entender por que a cidade de pedra virou o principal destino místico do interior de Minas Gerais.

Tags: Minas GeraisSão Thomé das Letras
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