No alto da Serra das Letras, no Sul de Minas Gerais, São Thomé das Letras é uma das cidades mais atípicas do Brasil. A 1.440 metros de altitude, o município de pouco mais de 7 mil habitantes foi erguido sobre um depósito de quartzito de 570 milhões de anos, tem casas, ruas e calçadas feitas da mesma pedra clara, guarda inscrições rupestres com até 5 mil anos e alimenta há décadas o imaginário de místicos, ufólogos e viajantes que sobem a serra em busca do inexplicável. É a cidade que lançou em 2025 a marca turística Onde você é o mistério.
A lenda de João Antão e a carta que ninguém explicou
A origem do nome mistura história documentada e folclore. No fim do século XVIII, o escravo João Antão, fugido da fazenda do capitão João Francisco Junqueira, refugiou-se numa gruta no alto da serra. Segundo a tradição oral registrada pela Prefeitura, ali apareceu um homem de vestes brancas que lhe entregou uma carta destinada ao seu dono. O capitão se assustou: o escravo era analfabeto e não poderia ter escrito aquelas linhas. Ao visitar a gruta, encontrou apenas uma imagem de São Tomé e concedeu a alforria.
O senhor mandou construir uma capela ao lado da gruta e o povoado cresceu em torno dela. A primeira capela dedicada a São Tomé foi autorizada em 1770, e a construção da Igreja Matriz começou em 1785, com retábulos em estilo rococó e forro pintado pelo artista colonial Joaquim José da Natividade. Antes disso, a região era habitada pelos índios Cataguás, que deixaram as inscrições rupestres que dariam origem à segunda parte do nome. A ocupação portuguesa avançou com a chegada de fazendeiros e bandeirantes vindos dos sertões das Carrancas.

Inscrições rupestres milenares em pigmento avermelhado
As Letras que completam o nome da cidade estão gravadas nas paredes das grutas e paredões de quartzito ao longo da serra. As marcas, em pigmento avermelhado, são atribuídas pelos pesquisadores aos índios Cataguases, que habitaram a região até o século XVIII. Segundo estudos citados pelo portal oficial da Prefeitura de São Thomé das Letras, algumas dessas pinturas têm entre 2 mil e 5 mil anos e podem ter tido função ritual ou cosmológica.
A leitura das inscrições nunca foi consenso científico. Diferentes correntes oferecem versões próprias: da hipótese arqueológica tradicional, com arte rupestre indígena, a interpretações esotéricas que ligam os desenhos a civilizações antigas. A visita à Gruta de São Thomé, onde estão algumas das inscrições mais conhecidas, é gratuita e fica no centro histórico. Do topo da gruta, o visitante alcança o mirante A Toca, com panorama urbano da cidade construída em pedra.
A gruta que levaria a Machu Picchu
A tradição mais famosa de São Thomé das Letras cabe em uma frase: existiria um túnel subterrâneo ligando a cidade a Machu Picchu, no Peru, a cerca de 3 mil quilômetros de distância. O ponto de partida seria a Gruta do Carimbado, no fim da Ladeira do Amendoim, com corredor estreito revestido de argila que, segundo os moradores antigos, teria sido construído pelos incas. A história ganhou força com expedições amadoras que tentaram mapear o interior da caverna nos anos 1990.
Nenhuma delas confirmou a existência do túnel. Desde 2012, a entrada da Gruta do Carimbado está fechada à visitação por questões ambientais e de segurança, o que apenas reforçou o status de mistério intocado. O pesquisador local Oriental Luiz Noronha, autor do livro São Thomé das Letras e o mundo subterrâneo, dedicou décadas ao tema sem chegar a uma conclusão definitiva. As sete grutas principais da região formam um dos circuitos mais visitados do Sul de Minas.
Capital da ufologia e a ladeira onde os carros sobem sozinhos
Poucos municípios brasileiros acumulam tantos registros de fenômenos inexplicáveis. São Thomé das Letras é reconhecida como uma das mais antigas capitais brasileiras da ufologia, com relatos de avistamentos de OVNIs desde a década de 1960. Segundo o Correio Braziliense, moradores relatam luzes no céu há décadas, e grupos de ufólogos organizam vigílias nos mirantes da serra para tentar registrar novos avistamentos.
A Ladeira do Amendoim, no acesso à Gruta do Carimbado, é outro fenômeno da cidade. Carros com o motor desligado e o câmbio em ponto morto parecem subir o aclive sozinhos, ilusão de óptica gerada pelo relevo do terreno que se repete em pontos similares pelo mundo, mas ainda assim uma das atrações mais fotografadas. Somada a lendas de portais dimensionais, aparições de seres de luz e cristais energéticos, a cidade virou uma das principais rotas do chamado turismo místico do Brasil, atraindo místicos, esotéricos e curiosos de todo o país.

O que fazer em São Thomé das Letras?
O roteiro combina patrimônio histórico, mistério e natureza. As atrações principais ficam no centro histórico ou a poucos quilômetros dele e formam um circuito que se percorre em três dias.
- Gruta de São Thomé: caverna que deu origem à cidade, no centro histórico, com as inscrições rupestres milenares e o mirante A Toca logo acima, com panorama urbano.
- Igreja Matriz de São Thomé: construída em 1785 sobre a rocha viva no centro da cidade, com retábulos em estilo rococó e forro pintado pelo artista colonial Joaquim José da Natividade.
- Igreja de Pedra (Nossa Senhora do Rosário): construção iniciada em 1833 e finalizada em 1999, feita inteiramente com encaixe de pedra sobre pedra, sem cimento nem argamassa.
- Pirâmide: formação de quartzito no centro da cidade, símbolo máximo do misticismo local e um dos pontos mais fotografados da rota.
- Mirante do Cruzeiro: vista panorâmica de 360° do município e da Serra da Mantiqueira, especialmente belo ao amanhecer e no pôr do sol.
- Ladeira do Amendoim: fenômeno óptico famoso em que carros com motor desligado parecem subir a ladeira sozinhos, no acesso à Gruta do Carimbado.
- Vale das Borboletas: santuário ecológico cercado de mata nativa, com trilhas leves para caminhadas e áreas para meditação em silêncio.
Cachoeiras cristalinas em quartzito
Além das grutas e mirantes, a cidade guarda algumas das cachoeiras mais bonitas do Sul mineiro. As quedas d’água cortam a rocha de quartzito e criam poços de água transparente com fundo prateado.
- Cachoeira do Flávio: uma das mais visitadas da região, com quedas d’água em meio à natureza exuberante e trilha curta de acesso.
- Cachoeira Véu de Noiva: queda alta em formato de véu, com poço para banho e cenário emoldurado por vegetação nativa.
- Cachoeira do Eubiose: em propriedade da Sociedade Brasileira de Eubiose, com energia procurada por praticantes de meditação.
- Cachoeira da Lua: uma das mais afastadas do centro, com trilha mais longa e cenário preservado, ideal para quem busca isolamento.
- Cachoeira do Paraíso: sequência de piscinas naturais em plataformas de pedra, cenário clássico das paisagens locais.
O que se come na Cidade das Pedras?
A gastronomia é mineira de raiz, com toques alternativos trazidos por comunidades que se instalaram na cidade desde os anos 1970. Restaurantes tradicionais e casas vegetarianas convivem no centro histórico.
- Frango com quiabo e angu: prato clássico mineiro servido em restaurantes tradicionais próximos à Praça Barão de Alfenas.
- Feijão tropeiro: mistura de feijão, farinha de mandioca, bacon, linguiça e ovos, acompanhamento clássico da culinária regional.
- Truta na brasa: peixe típico das serras mineiras, servido inteiro com purê de banana e legumes assados.
- Culinária vegetariana e natural: casas alternativas oferecem pratos com ingredientes orgânicos, herança das comunidades esotéricas que se estabeleceram na cidade.
- Doces caseiros e queijos mineiros: tradição das quitandas da região, com destaque para doce de leite, goiabada cascão e queijos artesanais do Sul de Minas.
Como é o clima ao longo do ano
São Thomé das Letras tem clima tropical de altitude, com verões chuvosos e vegetação exuberante e invernos secos, frios e ideais para caminhadas. As noites são frescas o ano inteiro por causa dos 1.440 metros de altitude.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a São Thomé das Letras
A cidade fica a cerca de 45 km de Três Corações pela MG-050, principal via de acesso. De Belo Horizonte, são aproximadamente 400 km, cerca de cinco horas de carro, com trajeto pela BR-381. De São Paulo, o percurso é de 350 km via Rodovia Fernão Dias (BR-381) e MG-050, cerca de cinco horas. O acesso final se dá por estrada de asfalto sinuosa que sobe a serra. Não há aeroporto no município, mas os terminais mais próximos são os de Pouso Alegre e Varginha. São Thomé integra o roteiro do Sul de Minas junto a Cruzília e Baependi.
A cidade de pedra no topo da Serra
São Thomé das Letras é um daqueles destinos que resistem a explicação racional. Uma cidade inteira feita de quartzito no topo de uma serra, grutas que abrigam inscrições milenares, uma tradição ufológica que atravessa mais de 60 anos e um pôr do sol que emoldura tudo o que a cidade tem de mais misterioso. Poucos lugares no Brasil reúnem tantos elementos incomuns em raio tão curto.
Você precisa subir a serra num fim de semana de outono, visitar a Gruta de São Thomé pela manhã e esperar o pôr do sol no Mirante do Cruzeiro para entender por que a cidade de pedra virou o principal destino místico do interior de Minas Gerais.




