Cidade pequena costuma se contentar com um único cartão-postal. Cambará do Sul, no alto dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, faz o contrário. A vila a 1.020 metros de altitude é a base logística de dois parques nacionais, do maior conjunto de cânions da América Latina e do segundo Geoparque Mundial da UNESCO reconhecido no Brasil. Fica a 190 km de Porto Alegre, na divisa com Santa Catarina.
Como uma vila pequena virou porta de entrada de um Geoparque da UNESCO?
Por uma decisão internacional recente. Segundo o portal oficial da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul (SETUR-RS), em 13 de abril de 2022, o Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul foi oficialmente reconhecido pela UNESCO como área de relevância geológica internacional, passando a integrar a Rede Global de Geoparques. É o segundo Geoparque Mundial reconhecido no Brasil, depois do Geoparque Araripe (Ceará).
O território abrange 2.830 km² e é formado por sete municípios: Cambará do Sul, Mampituba e Torres, no Rio Grande do Sul; e Praia Grande, Jacinto Machado, Timbé do Sul e Morro Grande, em Santa Catarina. Cambará do Sul é a principal porta de entrada terrestre para o Geoparque, com acesso aos cânions mais visitados da região e boa parte da infraestrutura hoteleira.

O que é o Cânion Itaimbezinho, o mais famoso do Brasil?
Um dos maiores desfiladeiros das Américas. Segundo o portal oficial da Prefeitura Municipal de Cambará do Sul, o Cânion Itaimbezinho tem 5,8 km de extensão e 720 metros de profundidade até o leito do rio, com paredões verticais tão íngremes que parecem cortados a facão. Está localizado no Parque Nacional de Aparados da Serra, a 18 km do centro da vila.
O nome vem do tupi-guarani: ita significa “pedra” e aimbé quer dizer “afiada”, ou seja, pedra que parte lascas facilmente. Foi essa característica das paredes rochosas que levou os indígenas a batizar o local. O cânion pode ser explorado por três trilhas: a Trilha do Vértice, com 1,5 km, oferece a vista panorâmica clássica; a Trilha do Cotovelo, com 6 km, é de dificuldade moderada; e a lendária Trilha do Rio do Boi, com 8 km dentro do próprio cânion, exige guia certificado pelo ICMBio e é acessada apenas pelo lado catarinense.
Como o Parque Nacional dos Aparados da Serra chegou a 66 anos de idade?
Foi um dos primeiros parques nacionais do Brasil. Segundo o portal oficial Turismo Rio Grande do Sul, mantido pela SETUR-RS, o Parque Nacional dos Aparados da Serra foi criado pelo Decreto Federal nº 47.446, de 17 de dezembro de 1959, para proteger os cânions Itaimbezinho e Faxinalzinho. Cobre uma área de 13.082 hectares e preserva uma das mais importantes florestas de Araucária angustifolia do Sul do país.
A luta pela criação foi conduzida pelo padre e naturalista jesuíta Balduíno Rambo, autor da obra A Fisionomia do Rio Grande do Sul. Anos depois, uma segunda unidade complementou a proteção: o Parque Nacional da Serra Geral, onde está o Cânion Fortaleza. Juntos, os dois parques somam cerca de 30.400 hectares distribuídos ao longo dos contrafortes da Serra Geral, na divisa entre RS e SC. A administração é do ICMBio, com concessão à Urbia Cânions Verdes.
Por que o Cânion Fortaleza é ainda maior?
Pela combinação de altura, largura e extensão. O Cânion Fortaleza é o maior de Cambará do Sul, com 7,5 km de extensão e paredões que atingem cerca de 900 metros em alguns pontos, situados a 1.240 metros de altitude. Recebeu o nome pelo formato geológico dos paredões, que lembram as muralhas de uma fortaleza medieval.
O cânion fica no Parque Nacional da Serra Geral, a 23 km do centro. Três trilhas permitem explorar diferentes ângulos: a Trilha do Mirante da Fortaleza, com a vista panorâmica; a Trilha da Pedra do Segredo, um monólito rochoso equilibrado; e a Trilha da Cachoeira do Tigre Preto, que leva a uma queda d’água de aproximadamente 120 metros em meio à mata nativa. É considerada uma das cachoeiras mais espetaculares do Sul do Brasil.

Quais atrações completam o roteiro na Terra dos Cânions?
A cidade oferece pontos culturais, cachoeiras e mirantes complementares aos parques. Alguns dos principais:
- Museu Irmã Tarcila Afonso: inaugurado em 3 de dezembro de 2001, com acervo de mais de 400 peças doadas pela comunidade, no Centro Cultural Dr. Santos.
- Cânion Índios Coroados: menor e de fácil acesso, com vista direta das Cachoeiras Gêmeas.
- Cânion Malacara: paredões impressionantes acessíveis por trilhas técnicas.
- Cachoeira dos Venâncios: sequência de quedas d’água em cânion menor, ideal para banho no verão.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora Aparecida: templo do centro urbano com arquitetura simples da imigração alemã e italiana.
- Casa do Mel: centro de visitação sobre a apicultura local, com degustação e explicações sobre o mel silvestre.
- Feira do Mel: encontro de produtores no centro da cidade.
O que provar na cozinha serrana de altitude?
A cozinha combina a herança tropeira dos Campos de Cima da Serra com produtos das fazendas locais. Alguns pratos e produtos essenciais:
- Galeto ao primo canto: frango jovem assado na brasa com temperos leves, prato clássico das cantinas serranas.
- Costela fogo de chão: preparo demorado herdado dos peões campeiros gaúchos.
- Pinhão: fruto da araucária, colhido no outono e servido em receitas como paçoca, sopa, arroz e cozido.
- Mel silvestre e derivados: produzidos nas colmeias locais, uma das principais atividades econômicas da vila.
- Queijo colonial serrano: reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do RS, com produção artesanal em fazendas próximas.
- Chocolate quente e fondue: pedidas obrigatórias das noites de inverno, servidas em quase todos os restaurantes.
Como é o clima ao longo do ano?
Cambará do Sul tem clima subtropical de altitude, com quatro estações bem marcadas. A altitude superior a 1.000 metros e a posição no alto dos Aparados da Serra tornam o inverno rigoroso, com geadas frequentes e possibilidade de neve entre os meses mais frios.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Nas madrugadas mais frias, a temperatura pode chegar abaixo de zero. Condições podem variar.
Como chegar a Cambará do Sul?
A cidade fica a 190 km de Porto Alegre, com acesso pela RS-020, também conhecida como Rota do Sol. De Caxias do Sul, o trajeto é de aproximadamente 90 km. O acesso aos cânions dentro dos parques é feito por estradas de terra a partir do centro urbano: 18 km até o Itaimbezinho pela RS-427, e 23 km até o Fortaleza pela RS-429. A recomendação é utilizar veículo com boa altura em relação ao solo, sobretudo após chuvas.
Cambará do Sul não tem aeroporto comercial. Os terminais aéreos mais próximos são o Aeroporto Regional Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, a cerca de 110 km, e o Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, com maior variedade de voos. Do lado catarinense, o Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em Florianópolis, é uma alternativa a cerca de 320 km, com acesso pela BR-101 passando por Praia Grande e a Serra do Faxinal.
A vila gaúcha onde a serra termina no ar
Cambará do Sul oferece a combinação rara no Brasil: dois parques nacionais criados há mais de seis décadas, o maior conjunto de cânions da América Latina, floresta de araucárias centenárias, chancela da UNESCO como Geoparque Mundial e uma vila pequena que mantém as tradições campeiras dos Campos de Cima da Serra. É a cidade que mostra como o interior gaúcho consegue ser reconhecimento internacional e refúgio de altitude ao mesmo tempo.
Você precisa reservar pelo menos três dias em Cambará do Sul, dividir o tempo entre um dia inteiro na borda do Itaimbezinho, uma manhã na Cachoeira do Tigre Preto dentro do Fortaleza e uma noite fria de inverno com fondue e um galeto assado em algum restaurante do centro da vila.




