Carlos Henrique deixou um cachorro idoso na porta de uma clínica veterinária durante a madrugada e foi embora de carro, sem avisar funcionários ou combinar atendimento. As câmeras registraram a placa do veículo, enquanto o estabelecimento acolheu o animal e acumulou mais de R$ 4 mil em exames, medicamentos e cuidados emergenciais.
Abandonar um cachorro pode ser enquadrado como maus-tratos
No Brasil, abandono de animal não deve ser tratado apenas como falta de responsabilidade moral. O artigo 32 da Lei nº 9.605/1998 criminaliza atos de abuso e maus-tratos contra animais domésticos, domesticados, silvestres ou exóticos.
O Conselho Federal de Medicina Veterinária também inclui o abandono entre situações de maus-tratos em suas orientações técnicas. A Resolução CFMV nº 1.236/2018 caracteriza condutas e omissões capazes de provocar sofrimento desnecessário aos animais.
A pena é mais alta quando a vítima é um cão ou gato
Desde 2020, a legislação prevê punição específica e mais severa quando os maus-tratos envolvem cães ou gatos. A Lei nº 14.064/2020 acrescentou o parágrafo 1º-A ao artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais.
Nesses casos, a pena prevista é de reclusão de dois a cinco anos, além de multa e proibição da guarda. Isso não significa que toda situação de abandono resulte automaticamente em condenação: autoria, circunstâncias, estado do animal e demais provas precisam ser analisados pelas autoridades.

A gravação da placa pode ajudar a identificar o responsável
No caso de Carlos, as imagens da madrugada mostram o veículo chegando, o cachorro sendo deixado no local e o carro saindo em seguida. A placa pode servir como elemento de investigação, permitindo que a polícia busque identificar proprietário, condutor e outras pessoas relacionadas aos fatos.
Entretanto, a placa isoladamente não demonstra necessariamente quem praticou o abandono. Outros elementos, como imagens do motorista, prontuário veterinário, testemunhas e registros anteriores do animal, podem ser utilizados para reconstruir o ocorrido. A clínica deve preservar os arquivos originais e entregá-los às autoridades, evitando divulgar dados pessoais indiscriminadamente nas redes sociais.
O estado de saúde do cachorro também pode virar prova
Como o animal era idoso, a avaliação veterinária ganha importância para determinar suas condições no momento do resgate. Desidratação, dor, doenças sem tratamento, lesões, desnutrição ou outras alterações podem ajudar a demonstrar sofrimento e necessidade de assistência.
O CFMV reforçou em 2026 que casos de maus-tratos que deixam vestígios podem exigir avaliação técnico-pericial dentro da investigação criminal. Por isso, prontuários, exames, fotografias e relatórios produzidos durante o atendimento podem ter relevância muito além do tratamento clínico do cachorro.
A clínica pode tentar cobrar os mais de R$ 4 mil?
O estabelecimento não precisa simplesmente considerar as despesas como automaticamente perdidas, mas o ressarcimento não é garantido apenas porque houve atendimento. Em tese, se for comprovado que a conduta ilícita de determinada pessoa provocou um prejuízo patrimonial diretamente relacionado, poderá haver discussão sobre reparação na esfera civil.
O artigo 927 do Código Civil, em conjunto com o artigo 186, prevê a obrigação de reparar o dano causado por ato ilícito. A clínica precisaria demonstrar os gastos realizados, o vínculo com o abandono e a responsabilidade da pessoa apontada para buscar eventual ressarcimento das despesas.

Notas fiscais e prontuário devem ser preservados
Se os custos ultrapassaram R$ 4 mil, é importante guardar notas fiscais de medicamentos, exames, internação e demais procedimentos, além do prontuário completo do cachorro. Esses documentos ajudam tanto na prestação de contas quanto em um eventual pedido de reparação.
Também é recomendável manter cópias das gravações, registrar formalmente o momento em que o animal foi encontrado e comunicar o episódio às autoridades competentes. O CFMV orienta que maus-tratos sejam denunciados à polícia, ao Ministério Público ou aos órgãos ambientais existentes na região.
O caso de Carlos Henrique é uma história fictícia usada apenas para ilustrar
Em uma situação como essa, abandonar um cão idoso durante a madrugada pode gerar investigação por maus-tratos a animal, enquanto imagens, laudos e documentos financeiros podem ajudar a esclarecer autoria e consequências. Eventual cobrança das despesas veterinárias depende da análise concreta das provas e, se necessário, de decisão judicial.
Carlos Henrique é um personagem fictício, e o episódio da clínica, do cachorro e dos gastos superiores a R$ 4 mil foi criado exclusivamente para ilustrar como a legislação brasileira pode ser aplicada. O contexto não descreve um caso real e serve apenas como exemplo informativo, pois responsabilidade criminal e civil depende das circunstâncias e das provas de cada situação.




