A 170 km de Goiânia, no sudeste de Goiás, Caldas Novas guarda um dos raros fenômenos geológicos do planeta. É o maior manancial hidrotermal do mundo, com águas que brotam naturalmente a temperaturas entre 43°C e 70°C sem qualquer relação com atividade vulcânica. O município recebe mais de 2 milhões de turistas por ano segundo dados oficiais do governo estadual, tem mais de 100 mil habitantes e apenas 686 metros de altitude no meio do Cerrado brasileiro. Nas noites frias de julho, o vapor sobe das piscinas ao ar livre em uma cena que dificilmente se repete em outro lugar do Brasil.
De Bartolomeu Bueno à emancipação em 1911
A descoberta oficial das águas termais tem data e responsável. Em 1722, o bandeirante paulista Bartolomeu Bueno da Silva Filho, o Anhanguera, encontrou nascentes escaldantes na fralda da Serra de Caldas enquanto procurava ouro no sertão goiano. As fontes ficaram esquecidas por décadas até serem redescobertas em 1777, pelo paulista Martinho Coelho de Siqueira, durante uma caçada. As primeiras referências escritas às águas quentes da região, no entanto, são ainda mais antigas: foram publicadas na Espanha em 1545, segundo registros históricos.
A vila cresceu ao redor das fontes e virou distrito em 1857. A emancipação de Morrinhos aconteceu em 1911, e o povoado passou a se firmar como destino de peregrinação em busca de curas nas águas quentes. O turismo ganhou força de fato nos anos 1970, com a construção dos primeiros hotéis dotados de piscinas termais. Segundo dados divulgados pelo Goiás Turismo, órgão oficial do governo estadual, a cidade se consolidou nas décadas seguintes como uma das principais estâncias hidrotermais do mundo.

A ciência por trás das fontes quentes
Por décadas, moradores e turistas acreditaram que um vulcão adormecido aquecia as nascentes da região. A explicação real, muito mais surpreendente, foi confirmada por estudos publicados pelo Ministério do Turismo. As águas termais de Caldas Novas têm origem em chuvas que caíram há até mil anos sobre a Serra de Caldas. A água da chuva penetra em fissuras nas rochas sedimentares e desce por cerca de 1.000 metros abaixo do solo, onde é aquecida pelo gradiente geotérmico natural da Terra.
Nas grandes profundidades, a temperatura chega a cerca de 60°C. Uma vez aquecidas, as águas adquirem pressão, voltam pelas fendas e se misturam, já perto da superfície, com infiltrações do lençol freático. O processo ajuda a resfriá-las até uma temperatura média confortável de 37,5°C. Tudo isso leva cerca de mil anos. A ausência de vulcanismo explica por que as águas de Caldas Novas não têm cheiro de enxofre, ao contrário das fontes termais islandesas ou japonesas, e são cristalinas e potáveis, ricas em minerais como cálcio, sódio, magnésio e fluoreto.
Rio Quente e o maior rio de águas quentes do mundo
A vizinha imediata forma com Caldas Novas o complexo hidrotermal mais completo do planeta. Situada a apenas 25 km, Rio Quente era distrito de Caldas Novas até se emancipar em 1988. Segundo a Prefeitura de Rio Quente e a Revista Oeste, o município abriga o maior rio de águas naturalmente quentes do mundo, com cerca de 12 km de extensão, temperatura média em torno de 37,5°C e vazão de 150 milhões de litros por dia.
É lá também que fica o Hot Park, um dos maiores parques aquáticos temáticos do Brasil, integrado ao complexo hoteleiro Rio Quente Resorts. A grande atração é a Praia do Cerrado, considerada a maior piscina de águas quentes do mundo segundo o site oficial do parque, com 6 milhões de litros de água termal e faixa de areia branca importada. Juntas, Caldas Novas e Rio Quente formam o que o governo goiano e publicações internacionais descrevem como a maior estância hidrotermal do planeta.

O que fazer em Caldas Novas?
O roteiro combina parques aquáticos, natureza preservada e um conjunto de miradouros e santuários que ganharam status próprio. Boa parte das atrações fica em raio curto do centro urbano.
- Hot Park (Rio Quente): maior parque aquático da região, com a Praia do Cerrado (6 milhões de litros de água termal), piscinas com ondas artificiais e atrações radicais.
- Water Park: parque aquático dentro de Caldas Novas com piscinas termais em vários níveis, toboáguas radicais e área infantil dedicada.
- Parque das Fontes / Clube Privé: complexo tradicional de piscinas termais com estrutura para o dia inteiro e bares na área externa.
- Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN): primeira unidade de conservação de Goiás, com 12 mil hectares de Cerrado, trilhas oficiais e cachoeiras de água fria.
- Cachoeira Paredão: dentro do PESCaN, queda de mais de 30 metros com poço para banho e trilha de acesso guiada por condutores credenciados.
- Santuário Nossa Senhora Salete: no alto do Morro do Capão, com vista contemplativa da cidade, muito procurado para meditação e reflexão.
- Jardim Japonês: espaço com tradição budista, jardins zen, pontes de madeira e área de meditação no centro urbano.
- Lago Corumbá: represa que margeia o município, com passeios de barco, quiosques à beira d’água e ecoturismo em contato com o Cerrado.
PESCaN: 12 mil hectares que abastecem o aquífero
A grande curiosidade científica de Caldas Novas está fora do circuito termal. O Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN) foi criado em 25 de setembro de 1970 e se tornou a primeira unidade de conservação criada no estado de Goiás. Ocupa cerca de 12.315 hectares de Cerrado preservado entre os municípios de Caldas Novas e Rio Quente, e é administrado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH).
A função ecológica é decisiva. O parque protege a principal área de recarga do aquífero que alimenta todas as termas da região. Sem esse sistema de proteção, o volume de águas termais entraria em risco em poucas décadas. Dentro dos limites do parque, o visitante troca a água quente pela fria em trilhas oficiais que levam às cachoeiras Cascatinha e Paredão, esta última com mais de 30 metros de queda, além de mirantes a mais de mil metros de altitude com vista de todo o vale hidrotermal. A entrada é gratuita, mas a visitação exige agendamento prévio.
O que se come na cidade das águas termais?
A gastronomia mistura raízes goianas do Cerrado com influências dos migrantes mineiros e paulistas que se instalaram na região nas últimas décadas. Restaurantes tradicionais e casas modernas convivem no centro turístico.
- Empadão goiano: torta salgada de massa amanteigada recheada com frango, guariroba, linguiça e queijo, prato símbolo da cozinha estadual.
- Arroz com pequi: fruto do Cerrado cozido inteiro com arroz e temperos regionais, servido em restaurantes de comida típica.
- Frango caipira com pequi e guariroba: prato completo que combina os dois ingredientes símbolos do Centro-Oeste brasileiro em cocção lenta.
- Peixe na telha: peixe de água doce assado sobre telha de barro no forno, coberto de molho de tomate, cebola e coentro, especialidade regional.
- Pamonha e doces do Cerrado: pamonha doce ou salgada, compotas de cagaita, buriti, mangaba e murici, tradição das quitandas rurais.

Como é o clima ao longo do ano
Caldas Novas tem clima tropical de altitude a 686 metros. Verões chuvosos e quentes convivem com invernos secos e amenos, e as noites frias de julho e agosto são a época mais desejada pelos banhistas, quando o contraste entre o ar frio e a água termal transforma o mergulho em experiência sensorial única.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Caldas Novas
O Aeroporto Nelson Ribeiro Guimarães, na área urbana da cidade, recebe voos regulares de São Paulo, Belo Horizonte e outras capitais brasileiras, principalmente na alta temporada. Por rodovia, o principal acesso a partir de Goiânia é pela BR-153 e depois pela GO-139, com trajeto de aproximadamente três horas. De Brasília, são cerca de 300 km pela BR-040 e BR-352, aproximadamente quatro horas. A cidade integra o roteiro do sudeste goiano junto a Rio Quente, Pirenópolis e a Chapada dos Veadeiros.
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A estância termal mais completa do mundo
Caldas Novas entrega uma combinação improvável no interior do Brasil. Águas que caíram como chuva há mil anos, esquentaram a 60°C nas profundezas da Serra e voltaram à superfície como o maior manancial hidrotermal do planeta. Uma cidade de pouco mais de 100 mil habitantes que virou destino de 2 milhões de turistas por ano sem nunca ter tido vulcão adormecido por perto. A ciência é mais surpreendente que a lenda.
Você precisa conhecer Caldas Novas num fim de semana de julho, entrar numa piscina termal ao ar livre à noite e reservar um dia para as trilhas do Parque Estadual da Serra de Caldas Novas para entender por que a cidade goiana virou o principal destino termal do Brasil.




